Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
No último ano, os alimentos ficaram, em média, 60% mais caros em todo o mundo. Um aumento suficiente para que, segundo a ONU, em apenas um ano, o número de famintos no mundo aumentasse em 75 milhões de pessoas. Mas o que explica que os alimentos estejam tão caros? A produção de alimentos é suficiente para alimentar o dobro da população mundial e os efeitos do clima são responsáveis por apenas 5% do aumento dos preços. A culpa seria então dos pobres que estão consumindo mais comida? Já que agora existem programas compensatórios que aumentam o poder de compra, como alguns costumam dizer?
É a fome de lucro de grandes empresas que controlam a agricultura é que é responsável pela crise dos alimentos. Nos últimos anos, organismos como o FMI e o Banco Mundial obrigaram os países pobres e adotar políticas que retiravam a proteção e o planejamento do Estado sobre a agricultura. Abriram caminho para que menos de 40 empresas controlassem os preços, o comércio, as sementes, os insumos e as agroindústrias de toda a agricultura.
E com tanto poder econômico nas mãos, empresas como a Monsanto, Cargill e Bunge passaram a decidir o que cada país deveria plantar e comer, aplicando um modelo agrícola baseado no uso intensivo de agrotóxicos. Assim, destinam a produção não para alimentos, mas para o que for mais rentável. Apenas em 2007, 90 milhões de toneladas de grãos se tornaram agrocombustíveis. No estado de São Paulo, por exemplo, a cana-de-açúcar para produzir etanol já ocupa 70% de todas as terras agriculturáveis, substituindo alimentos como o feijão. Outras áreas que poderiam produzir alimentos são transformadas em imensos desertos verdes de pinus e eucaliptos para a produção de celulose e papel. Além de lucrarem também com o preço dos fertilizantes.
Além disso, os produtos agrícolas passaram a ser negociados e vendidos nas bolsas de valores, ações de mercado futuro sob o controle de especuladores. Com a crise das bolsas de valores nos Estados Unidos, passaram a especular também com alimentos. Com tanto lucro, para que essas empresas se importariam em resolver a crise dos alimentos?
Mesmo sem receber apoio do governo federal - que subsidia o agronegócio - os assentados da Reforma Agrária e a pequena agricultura já impedem que esta crise seja maior. Somos nós que produzimos 78% do feijão, 54% do milho e 60% do trigo que chega à mesa do trabalhador. Sem a Reforma Agrária e a agricultura familiar, os preços seriam muito maiores.
Por isso, a crise dos alimentos só pode ser superada com a realização da Reforma Agrária, com a produção de alimentos saudáveis e baratos para o mercado interno, com políticas que incentivem a soberania alimentar e o direito de cada país decidir o que plantar para alimentar seu povo.
