Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Rafael Villas Bôas
O Brasil assistiu, nas décadas posteriores à redemocratização, ao acirramento das contradições da questão agrária: de um lado, a progressiva aliança entre latifúndio e capital transnacional do agronegócio intensifica a matriz colonialista do projeto agroexportador brasileiro, de outro lado, os movimentos sociais de massa do campo, cujo maior expoente é o MST, acumularam força e experiência no enfrentamento permanente contra o latifúndio e atualmente apresentam um grau de maturidade e complexidade de suas organizações como nunca antes ocorrera na luta camponesa brasileira.
Em represália, os latifundiários e grupos empresariais que se beneficiam da concentração da terra no Brasil atacam permanentemente o MST por meio de publicidade comercial paga e também pela linha editorial na TV, nos jornais, nas revistas, programas de rádios e nos out-doors, pelas diversas instâncias da via jurídica e pela via parlamentar - por meio da ação organizada da bancada ruralista.
A imagem de Brasil generalizada pelos meios de comunicação de massa é uma imagem supressiva de nação, uma imagem de país em ascenso que não corresponde ao país real. Todavia, com a derrocada do último ciclo de modernização conservadora, é cada vez mais comum que a tragédia da injustiça social brasileira não permita aos meios de comunicação de massa sequer o logro da representação de país em progresso. Nesses casos, a solução é a representação hipertrofiada do problema, descontextualizando causalidades, suprimindo contradições, e ofuscando a lucidez ao inflacionar o sentimento de pavor e pessimismo, rentáveis do ponto de vista material para a indústria da segurança, e do ponto de vista ideológico votos a mais para a bancada do fascismo à brasileira.
Sabemos que não são os meios de comunicação de massa que produzem a desigualdade social, porém eles dela se beneficiam, e por meio de sua cumplicidade com os poderosos aumentam sua margem de lucro, a despeito do agravamento da segregação para o qual contribuem.
A forma de abordagem desses meios em relação aos movimentos sociais de massa é responsável pela produção da incompreensão, da ignorância em relação às causas, motivações e métodos de ação desses movimentos. A parcialidade dos meios na forma de abordagem faz frutificar a intolerância, o medo, e o ódio.
A absoluta intolerância e violência simbólica destinada às formas de auto-organização popular têm a ver com a aposta incondicional na estrutura de Estado criado pela elite para garantir a manutenção de seus privilégios, extraindo mais valia da perpetuação da desigualdade social brasileira.
A abordagem telejornalística e da mídia impressa chega a produzir paradoxos: faz com que pessoas desamparadas pelo Estado achem que esse mesmo Estado deva agir “de forma firme” com aqueles que se organizam para protestar contra essa lógica de exploração.
Os dois principais eixos de ataque
De modo geral, os eixos estruturantes de todas as reportagens, matérias e editoriais dos meios de comunicação hegemônicos, que se referem à luta pela Reforma Agrária e, em particular, às ações do MST, estão associados aos seguintes pólos pejorativos:
Barbárie/Progresso
A Reforma Agrária é representada como algo ultrapassado. O critério estabelecido é o da quantidade da produção. A luta organizada do MST é associada a um resquício de barbarismo na sociedade moderna, como última mancha a ser purgada.
O eixo do sistema do agronegócio, escorado no investimento do monocultivo para exportação, é representado como o setor de ponta do país, a despeito dos danos ambientais, do desemprego e do fluxo migratório do campo para a cidade, do alto montante de investimento público aplicado nesses empreendimentos privados, e do fato da maior parte do lucro obtido ser remetido para as sedes das transnacionais.
Ordem/Desordem
As ações do MST são sempre vinculadas à ilegalidade. Os artigos que compõem o código agrário da Constituição Federal – uma conquista no âmbito legal – são sistematicamente omitidos pela grande imprensa.
A auto-organização popular como forma de resolução dos problemas da população pobre, em contraposição a um Estado montado para garantir privilégios dos ricos, é sempre desestimulada por meio da associação dessa prática com atos de baderna e violência arbitrária.
O falso discurso sobre a violência do MST
Os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre assassinatos no campo desmentem a idéia de que o MST e outros movimentos sociais são os sujeitos da violência. Entre 1985 e 2004 foram 1.379 trabalhadores rurais assassinados. Desses casos, 75 foram a julgamento, e apenas 15 mandantes e 64 executores foram condenados.
A violência atribuída ao MST é aquela representada pela classe que entende como violento o ataque às suas propriedades improdutivas e a ação que em nome do direito à vida compreende que esse princípio é prioritário se comparado ao direito à acumulação de capital.
Das dez cidades mais violentas do país, cinco fazem parte da mais nova fronteira agrícola brasileira. Mato Grosso e Pará. Ou seja, as áreas mais violentas do país estão no território “bem sucedido” do agronegócio brasileiro. Locais em que a regra é o desmatamento da floresta para exploração ilegal de madeira, grilagem de terras, e a prática predatória de monocultivo de soja. Não há melhor exemplo para explicitar a tese: a fronteira da “modernidade” brasileira é também o espaço em que a barbárie está mais presente. O progresso da elite depende da superexploração e do sangue da mão de obra espoliada proveniente das classes populares. Para a classe dominante brasileira, essa barbárie é debitada na conta dos efeitos adversos, porém necessários, do progresso, ou melhor, do aumento de sua margem de lucros.
O monopólio dos meios de comunicação de massa por parte da elite é na atualidade um dos obstáculos principais à tentativa dos movimentos sociais de massa estabelecerem uma relação produtiva de politização, conscientização e engajamento, com a maior parte da população pobre vítima das conseqüências do sistema regido pelas leis do capital.
