Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por João Paulo
“Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.” (Grande Sertão: Veredas)
João Guimarães Rosa (1908-1967), autor de Grande Sertão: Veredas, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Desde o nascimento parecia destinado à riqueza das palavras e dos nomes. Sua terra natal tem um nome que pode ser traduzido poeticamente como Cidade do Coração (Cordis, em latim, significa coração, e burgs, em alemão, pequena cidade). O nome de seu pai, que mescla o viril Eduardo com esse exercício de perfeição que são as flores, parece tirado de suas histórias. Além disso, Cordisburgo, que fica na porta do Sertão de Minas, inaugura a geografia de uma literatura que se aprofunda no Brasil para entender melhor sua gente.
No ano do centenário do escritor, a melhor homenagem possível é a volta aos seus livros. Toda sua obra está viva e tem lições e prazer a dar ao leitor de hoje. Da beleza da prosa – que tem uma nova forma de recriar a língua, das palavras à gramática – à inteligência dos enredos, em sua riqueza humana, psicológica, política e até mesmo espiritual. A obra de Rosa é desses casos raros que, mesmo ligada ao seu tempo e ao seu lugar, parece falar de todas as épocas e do mundo inteiro.
Formado em Medicina em 1930, em Belo Horizonte, Guimarães Rosa desde a infância parecia destinado ao mundo das palavras. Alfabetizou-se cedo, aprendeu holandês e francês ainda na infância. Chegou a dominar 20 idiomas, inclusive latim e grego clássico. No entanto, talvez a maior sedução em termos de idioma tenha sido mesmo a fala do brasileiro do Sertão, que é transformada pelo escritor em alta poesia, ao mesmo tempo próxima do homem simples e capaz de encantar o mais sofisticado dos lingüistas.
Ainda na infância, Joãozito, como era conhecido em família, tem diagnosticada sua miopia. O episódio será recriado depois na novela Campo geral, que faz parte do livro Manuelzão e Miguilim e que, recentemente, foi adaptada para o cinema. A capacidade de passar uma situação de vida aparentemente banal em literatura emociona pela compreensão da alma infantil e do contexto social do personagem Miguilim. A experiência humana de um menino míope do Sertão pode ser a síntese de uma vivência humana universal. Toda obra de Guimarães Rosa é feita desse jogo de particular e geral, individual e coletivo, brasileiro e universal.
Contos e romance
A primeira obra de Guimarães Rosa é o livro de contos Sagarana, que ele inscreveu num concurso literário, em 1938. E perdeu. O jovem médico, que logo trocaria a profissão pela de diplomata, no entanto, não abandona o livro. Trabalha em seus nove contos até 1946, quando é finalmente lançado. Algumas obras-primas do livro ainda hoje estão entre os mais bem realizados contos da literatura brasileira, como O burrinho pedrês e A hora e vez de Augusto Matraga. No primeiro, uma história encantada da viagem de uma tropa, tendo como condutor o mais humilde dos animais, o burrinho Sete-de-Ouros; no segundo, o retrato de um homem a partir de dois universos: sua interioridade, com conflitos, lealdades e paixões; e o mundo à sua volta, com sua dimensão social, política e religiosa.
Dez anos depois, em 1956, Guimarães Rosa lança dois livros definitivos da literatura brasileira: o conjunto de novelas Corpo de Baile, que depois seriam desdobrados em três livros independentes (Manuelzão e Miguilmi; No Urubuqüaqüa, no Pinhém; e Noites do Sertão) e sua obra-prima e único romance, Grande Sertão: Veredas. O ano de 1956 ficaria marcado como um momento-chave na literatura brasileira, que viu ainda surgir O Encontro Marcado, de Fernando Sabino,Vila dos Confins, de Mário Palmério, e A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector.
Esses livros mostram a existência de dois pólos na literatura nacional. De um lado o regionalismo, com suas histórias ambientadas no interior e tratando de um modo de vida em vias de transformação (que tem como ponto alto o romance nordestino a partir dos anos 1930, com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e a primeira parte da obra de Jorge Amado). De outro, o romance de inspiração psicológica, quase sempre urbano e preocupado com problemas do indivíduo em um mundo contraditório e inóspito às delicadezas da psique humana.
Houve mesmo quem propusesse classificações políticas, como se o regionalismo tendesse para a esquerda e a literatura espiritualista para o pensamento conservador. Geralmente a chave exclusivamente política empobrece a literatura. Guimarães Rosa, com Grande Sertão: Veredas, faz a grande síntese, avançando além dessas duas escolas para realizar uma literatura sem rótulos. Trata-se de um livro sobre o Brasil, sobre o homem e sobre o sentido da vida. Que tenha sido realizado ainda com uma linguagem própria e única, é um valor a mais da arte de Rosa.
Em Grande Sertão: Veredas, um velho jagunço retirado das batalhas, chamado Riobaldo, narra a um ouvinte culto, homem da cidade, que não diz uma palavra, a história de sua vida. Riobaldo fala das lutas pelo poder no Sertão num país em momento de grandes transformações sociais, da presença do mal simbolizado pelo pacto com o Diabo e da história de amor e amizade com Diadorim, que vai se revelar cheia de surpresas. Tudo isso com uma linguagem original, criativa e inventiva, como nunca se havia visto na literatura brasileira até então.
Guimarães Rosa publicaria ainda em vida os livros de contos Primeiros estórias (1962), que tem entre suas narrativas um dos mais belos contos da literatura brasileira de todos os tempos, A terceira margem do rio e seu último livro, Tutaméia (1967). Ao morrer, deixou prontos para publicação dois outros volumes, Estas estórias e Ave, palavra. Em 1997, o público conheceria seu primeiro livro de poemas, Magma, de 1936 ,que ele não queria ver divulgado.
