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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

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Turquia, entre o velho e o novo da geopolítica

Por Henrique Marinho
Enviado especial à Turquia

"O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas.
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?,
é em frente que vamos."

Nâzim Hikmet, (1901-1963), poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, que pertenceu ao Partido Comunista da Turquia

O passado e o futuro agora. Compreender a guerra como "uma forma e uma continuação da política", como afirmou o general e estrategista militar prussiano, Carl von Clausewitz. Este foi o desafio colocado ao observar o tempo histórico e a consciência da luta de classes e as lutas sociais travadas hoje na Turquia.

Um país de quase 80 milhões de habitantes, na sua grande maioria de religião Islâmica – o que vem rotulado em suas carteiras de identidade. Todos esses milhões "misturados" em uma construção étnica que vai dos Laz - povo ao norte de origem semi-nômade - aos Curdos discriminados.

Ao mesmo tempo, estão permeados em classes camponeses (também no Iraque e Iran), operários, trabalhadores informais, e uma fatia da burguesia que acredita em um futuro próspero com a adesão à União Européia. Ânsia não correspondida pelos "empregos ameaçados" da Europa Ocidental.

Ânsia que podemos interpretar como um dos fôlegos da crise estrutural do Capital, que necessita da exploração dos quase 20 milhões de camponeses, da exploração dos trabalhadores formais e informais empobrecidos de maneira geral.

Em um país "modernizado às pressas" pela artificialidade republicana fascista, a partir de 1923, cicatrizes das ditaduras dos anos 70 e do golpe de 12 setembro de 1980, continuam abertas e escorrendo um sangue vermelho, refletido na cor da sua bandeira.

Um vermelho que não combina com a tradição de luta comunista de parte desse povo, mas com o fascismo que hoje veste a roupa do neoliberalismo, promovendo a morte e a privatização da vida, os subcontratos de trabalho, as altas jornadas de trabalho dos operários e fazendo com que um quilo de sementes de tomate custe o mesmo que um quilo de ouro (cerca de 25 mil dólares).

Promove-se as privatizações e se finca a bandeira do país como quem "presenteia a sociedade" com um sistema que hoje quer vender os postos de pedágio da ponte de Bósforo (Europa-Ásia), contraditoriamente controlados por uma empresa estatal.

Às margens do Mar Marmara, em Gönen, região de plantio de trigo, arroz e oliveiras, é possível perceber a naturalidade com que a militarização pôde ser absorvida por uma sociedade quando todos os dias no pôr-do-sol - mais ou menos às 21h20 - passavam três aviões caça, com seus barulhos ensurdecedores que pareciam silêncio para os turcos.

Também "parece silêncio" o país ter 22 mil presos políticos, sendo que 12 mil são curdos. Impressiona como uma região do mundo pode ser estratégica geopoliticamente para o Império estadunidense por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), assim como foi para os Jônicos, Hunus, Hiititas, ou para Gregos e Romanos Antigos, como César Augusto, Nero, ou para Alexandre O Grande, ou como para os Persas, o Império Bizantino, e bem como para o Império Otomano em 1453.

Impressiona também como os turcos convivem historicamente com uma disputa milenar do território, tendo a responsabilidade de construir um futuro com a dignidade humana que res(as)pira esse povo de cultura extraordinária.

Um exemplo disso é a construção da Confederação de Agricultores Çiftçit e o caso dos trabalhadores da fábrica Yörsen, de iogurte, em Susurluk/Balikesir, onde há seis meses 400 trabalhadores foram desempregados e pelejam em rodízio de 130 pessoas em piquetes diários – sobre forte repressão policial – em manifestação em frente à fábrica.

Também o ato público, em Istambul, na Praça Central Taksim, que lembrou os militantes comunistas assassinados nos anos 70. Nesse local, 'O Primeiro de Maio' foi fortemente reprimido e os manifestantes resistiram por mais de 7 horas nas ruas.

O esforço da juventude organizada, dos estudantes, dos sindicalistas, a exemplo do ato de deflagração de greve do sindicato (ilegal) dos trabalhadores de estaleiros, com a presença de quase 3 mil pessoas, sob os olhos da opressão policial na região portuária de Tuzla.

Foram 96 mortes em acidentes de trabalho nos últimos dois anos. Em um complexo com mais de 40 estaleiros trabalham mais de 35 mil pessoas e não se sabe o número de trabalhadores informais. Estima-se 15 mil que são explorados no complexo industrial de matéria-prima para a fabricação de navios.

Em Gülsuyu, 'bairro' do subúrbio de Istambul - metrópole com 20 milhões de habitantes - há 'uma municipalidade' com 62 mil pessoas. É uma experiência de resistência à especulação e 'privatização-urbanização', que utiliza a agricultura urbana como uma espécie de faixa de fronteira e 'mote organizacional'. É uma semente de organização nova, onde a população pobre - em sua maioria Curda – se encontra a partir de sua própria realidade e necessidades.

Encontrar-se com o exercício da solidariedade internacional fortalece o sentido histórico da necessária consciência de classe para a construção, em caminho, de um mundo socialista. Devrimi!

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