Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Vinicius Mansur
“Quando chega umas dez da noite, nós chamamos o assentamento de paraíso. Parece até um condomínio fechado. E para quem chega hoje no movimento, somos a luz no fim do túnel”.
Carlinhos, assentado
As famílias do MST ergueram mais uma prova de que o direito dos pobres só se conquista pelas próprias mãos. A evidência está em Franco da Rocha, município localizado a aproximadamente 40 quilômetros de São Paulo. Lá foi realizada, no começo de julho, uma grande festa para inauguração das casas do assentamento Comuna da Terra Dom Tomás Balduíno. Autoridades, parlamentares e amigos do MST, além dos Sem Terra de outras regiões, compareceram para celebrar uma história cheia de idas e vindas, conquistas e derrotas, mas sempre de luta.
Todas as 61 casas da Comuna da Terra impressionam pelo espaço interno, com o pé direito que media mais de 2,5 metros. Elas utilizam o sistema construtivo bloco cerâmico industrial, que tem grande conforto termo-acústico e propicia baixíssimo desperdício de material. “Provamos que as habitações feitas a partir de recursos públicos podem ter altíssima qualidade, em vez daquelas caixas de fósforo construídas pelas empreiteiras habitualmente”, disse Beatriz.
Carlinhos explicou que, como as famílias opinaram em suas casas, o assentamento possui projetos arquitetônicos diferentes. Algumas clássicas, com o telhado em forma de “V”, outras tem em forma de abóboda. O sindicalista José Carlos Madureira, que prestigiou a festa de inauguração das casas, estava encantado com a experiência. “Cada um pôde dar sua cara para naquilo que é seu, as individualidades interferiram na construção das casas. A individualidade, não o individualismo. Isso mostra que o MST não é homogêneo, as pessoas são diferentes, mas conseguem ter o mesmo objetivo”.
Também foi construído no assentamento o Espaço Cultural Patativa do Assaré e um viveiro de mudas. O posto de saúde e a apiário estão em construção. Os assentados ainda lutam por uma escola.
O assentamento já deu origem a três assentamentos e um acampamento deve seguir como exemplo para o movimento. E a prioridade agora é a produção sem destruir a natureza. “Se você matar uma cobra aqui você arruma confusão”, afirma Carlinhos.
A apicultura tem gerado alguma renda, mas produção como um todo do assentamento ainda é em grande parte para subsistência. Os agricultores seguem em três vertentes: frutas, pequenos animais e verduras e legumes, além do convencional como feijão, mandioca, batata. “A vocação da região é para fruta, especialmente uva, morango, maracujá, ameixa e banana”, completou a assentada Roseli.
Trajetória
A história do assentamento começou no 7 setembro de 2001, quando para marcar o Dia da Independência trabalhadores da periferia de São Paulo, organizados pelo MST, realizaram uma ocupação de terra no município de Arujá, ainda dentro da região metropolitana.
“A Comuna da Terra reúne gente da cidade, pessoas desempregadas, em situação de violência, sem moradia, que vive nas ruas. Mas gente com vocação agrícola, porque saiu do campo, vítima do processo de êxodo rural. As terras são próximas aos grandes centros, porque as pessoas não têm vontade de ir mais para o interior, mas o tamanho dos lotes é menor”, afirma a assentada no Dom Tomás Roseli Paini.
Depois da ocupação, houve um despejo e o deslocamento das famílias para o município de Franco da Rocha, onde ocuparam a Fazenda São Roque, onde fica o assentamento. De lá, foram despejados no primeiro dia. A andança seguiu com passagens por um centro de formação da prefeitura de São Paulo, no bairro do Brás, depois por uma área emprestada pelos Padres Jesuítas, em Perus, e por um acampamento na Rodovia Anhanguera.
Os sem terra saíram em marcha de volta a fazenda São Roque, aonde permaneceram acampados por dois anos. Só em 2004 conquistaram o direito ao assentamento.
Dignidade em construção
A construção das casas do assentamento começou em setembro de 2006. Ao todo, o projeto recebeu R$ 1 milhão em investimentos, que contaram com a participação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do MST, da Associação Fraternidade Povo da Rua e da Caixa Econômica Federal.
A Usina – uma assessoria técnica historicamente constituída para trabalhar com os movimentos populares de moradia em São Paulo – orientou todo o processo de construção das casas, que foi feito pelos próprios assentados em mutirão.
“Pensamos a produção como um todo, não só as casas, em si. Todos trabalharam na construção da casa de todos, evitamos a lógica de que cada um deve construir a sua. Além da construção, eles também participaram da gestão dos recursos, tomaram todas as decisões importantes. Com isso não tem o lucro da empreiteira O processo foi um grande aprendizado”, disse a arquiteta da Usina, Beatriz Bezerra Tone.
Para o assentado no Dom Tomás, José Carlos Filho, o Carlinhos, a experiência com construção civil que muitos assentados trouxeram da cidade ajudou muito o processo de mutirão. “Hoje temos assentados que eram ajudantes e hoje sabem construir uma casa sozinho. É a criação de mão-de-obra especializada. Ainda faltam muitos serviços dentro das casas, mas internamente ninguém vai ter nenhum problema de pedreiro”.
