Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
1981. Ditadura militar. O acampamento da Encruzilhada Natalino foi cercado pelo Exército, comandado pelo Coronel Curió, no Rio Grande do Sul,. Ninguém poderia entrar, ninguém poderia sair. O acampamento foi declarado “área de Segurança Nacional”. Os meios de comunicação omitiam informações e a população, desinformada. Era um tempo de guerra, era um tempo sem sol.
2008. O acampamento de Nova Santa Rita é "congelado". As famílias do RS são proibidas de sair ou entrar no acampamento. Os Sem Terra que marchavam em direção à Fazenda Guerra, no ano passado, foram impedidos de entrar pelo Poder Judiciário em três municípios. Dois acampamentos são despejados de áreas cedidas ao MST, porque são espaços de organização e reunião de trabalhadores.
Um ato contra os altos preços dos alimentos é reprimido com violência, dezenas de pessoas são feridas. Um pequeno agricultor permaneceu hospitalizado durante uma semana com lesões no pulmão e hemorragia interna. Oito companheiros são indiciados na Lei de Segurança Nacional. Nenhuma dessas informações é divulgada pela grande imprensa.
As ações fazem parte de uma estratégia coordenada por latifundiários, Brigada Militar gaúcha, Ministério Público Estadual (MPE), sob comando da governadora Yeda Crusius. A governadora pertence ao mesmo partido que comandou o Massacre de Eldorado de Carajás, no Pará, e a morte de Antônio Tavares, no Paraná. A estratégia veio a público através da denúncia de uma ata do Ministério Público Estadual que determinava: é preciso dissolver o MST, mesmo que a sociedade proteste.
O MP propõe a intervenção em escolas, entidades e a criminalização das mobilizações como atos de terrorismo. Foi utilizado um relatório fantasioso, baseado em declarações de dois coronéis da BM, um deles fora infiltrado no acampamento da Encruzilhada Natalino em 1981.
O que se passa hoje no Rio Grande do Sul não ameaça apenas os movimentos sociais gaúchos. Inúmeras propostas foram elaboradas ainda na CPMI da Terra e já vem sendo implementado em outros estados, como a criação de um Batalhão agrário e uma vara agrária volante, que são a formalização do serviço secreto das Polícias Militares (P2) para execução de despejos e prisões com autorizações judiciais-relâmpagos.
Estamos diante de uma violenta ofensiva conservadora. Um ensaio para o fascismo. Uma ação que se tornou mais agressivas, justamente quando a Via Campesina ampliou as denúncias contra as empresas transnacionais que compram terras ilegalmente no estado para o plantio de eucaliptos, com subsídios governamentais e sem licença ambiental.
Isso é mais do que uma resposta do Capital à organização dos trabalhadores. É uma estratégia aplicada também em outros países, elaborada e planejada em encontros de organismos como o Banco Mundial, que definem as políticas públicas dos países na chantagem de novos empréstimos.
Na Alemanha, a polícia chamada Kavala, passou a ditar as decisões do Judiciário, acabando com a autonomia dos poderes, criando zonas onde são proibidas manifestações e criminalizando centenas de lideranças de movimentos sociais.
A violência é uma necessidade do sistema para que a riqueza do trabalho e da natureza seja apropriada para poucos. Quanto maior a necessidade do capitalismo em obter altas taxas de lucro, maior a violência que proporcionará.
O que está em jogo hoje são mais do que as liberdades civis ou volta da ditadura brasileira. Todas as movimentações fazem parte de uma disputa maior entre os donos do Capital, que querem esgotar todos os recursos humanos e naturais pelo lucro, e aqueles que não se submeterem à opressão e a exploração. Nos forjamos nesta luta e para ela devemos estar preparados.
