Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Joana Tavares
O MST cravou sua primeira bandeira em Minas Gerais no município de Novo Cruzeiro, no ano de 1988. Nessa época, parte da Igreja fazia o trabalho de base nas comunidades rurais e incentivava os trabalhadores a se organizar para conquistar a terra. Ocupar um latifúndio era uma atitude extremamente ousada e considerada por muitos como ilegal. O Movimento era pouco conhecido e tinha poucos apoiadores - apenas o sindicato dos trabalhadores rurais e uma parte da igreja. Os políticos e policiais não reconheciam a luta dos camponeses e usaram todas as formas para massacrar os trabalhadores. Os Sem Terra não tinham direito à alimentação, escola, saúde e terra.
Vinte anos depois mais de mil militantes retornam ao local onde nasceu o Movimento no estado para o XXI Encontro Estadual. É também um momento para comemorar nossas conquistas, celebrar nossas lutas e revigorar a mística da luta pela Reforma Agrária. Voltar ao local deste início provoca reflexão sobre nossa história. Percebemos o que fizemos nesta trajetória para chegar ao que somos. O momento evidencia que a luta contra o latifúndio e a ocupações de terras foram fundamentais para denunciar a situação de desigualdade, de opressão, de posse da terra nas mãos de poucos, enquanto famílias de trabalhadores - dispostos a produzir alimentos - não dispunham de condições para desenvolver a sua vida.
Os trabalhadores, cansados de entregar seu suor nos dias de trabalho como bóia-fria ou ver parte da sua produção levada a quem tinha como único interesse especular e explorar, perceberam que era possível mudar esta situação. Que a organização e a mobilização dos trabalhadores poderia levar à construção de formas de vida autônomas, saudáveis, e que é possível tirar da terra o sustento da família e da agricultura camponesa o sustento da sociedade.
Com o passar do tempo, a luta pela terra vai se transformando. O latifúndio ganha novas roupagens, hoje é um “agronegócio”. Os exploradores não estão mais no local, eles estão distantes, nos escritórios das companhias, nos bancos, nas transnacionais que se apossaram da terra e da agricultura e vêem nela mais uma possibilidade de especular e acumular, seja usando para a produção de matérias primas para a indústria da celulose, para os agrocombustíveis ou controlando a produção de sementes e a agrobiodiversidade.
Continuar a luta pela terra é o grande desafio, manter viva a necessidade de que é preciso realizar a Reforma Agrária como condição para que tenhamos um Brasil mais justo e que seu povo tenha fartura de alimentos - produzidos com respeito a natureza, sem o monocultivo de transgênicos, de cana-de-açúcar ou de eucaliptos.
As experiências dos camponeses, dos assentamentos no estado já demonstram que cuidar da terra é uma condição para o desenvolvimento das famílias e, mais do que isso, é a condição para o desenvolvimento da vida. Ocupar a terra, resistir e produzir alimentos para o povo são as tarefas que a história delegou, foi assim que coletivamente se construíram 20 anos de lutas em Minas Gerais e no Brasil.
