Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Nos últimos meses, quando um trabalhador vai ao supermercado, ele já sabe que vai encontrar alimentos com preços cada vez mais altos. O aumento dos preços do feijão e do arroz, por exemplo, foram os maiores dos últimos 14 anos. Mas se as próximas safras baterão novos recordes de produção, porque os preços não caem e continuam subindo?
Há três explicações. Primeiro, o preço do petróleo, que é base dos venenos agrícolas e combustível para os tratores, disparou. Segundo, muitas culturas, como o milho e a cana, estão aumentando sua produção, mas o destino deles não é o prato do trabalhador e sim os tanques dos automóveis. Afinal, eles são a base para a produção dos agrocombustíveis, como o etanol. A cana-de-açúcar, por exemplo, já ocupou lavouras que antes produziam feijão. E por fim, os preços dos alimentos não são decididos pelos governos, nem pelas leis da economia, mas pelas bolsas de valores. No capitalismo, o alimento não é tratado como um direito de todos, mas como uma mercadoria - usado para a especulação financeira.
E quem são os especuladores que decidem quanto vale um saco de soja ou de milho? As mesmas 50 empresas transnacionais que controlam as sementes, os fertilizantes, as agroindústrias e o comércio agrícola: Monsanto, Bunge, Syngenta, ADM... Um inimigo que não apenas controla a agricultura, como financia campanhas eleitorais e são anunciantes dos grandes meios de comunicação. Seus métodos de repressão combinam as armas da Polícia com as opiniões transmitidas pelos meios televisivos.
Para denunciar esta situação e exigir condições de produzir alimentos, que os movimentos camponeses se levantaram em 14 estados. Apresentamos também 11 pontos que consideramos urgentes para mudar este modelo, dando condições para que os camponeses produzam com dignidade, preservando os recursos naturais - como a água e as sementes - e com acesso à agroindústria e à comercialização, de forma que o trabalhador urbano tenha acesso ao alimento mais barato e de qualidade.
Em muitas das atividades, os camponeses estiveram mobilizados junto com os movimentos urbanos da Assembléia Popular, com trabalhadores de agroindústrias e outras categorias, para denunciar as conseqüências do agronegócio e também para resolver problemas cotidianos dos trabalhadores, como as altas contas de energia elétrica ou a transposição do Rio São Francisco.
No Paraná e no Rio Grande do Sul, as ações denunciaram a Bunge, que além de controlar o comércio agrícola, domina também o mercado de fertilizantes, ganhando com os preços dos alimentos nos dois setores. A Vale do Rio Doce foi o foco das lutas em Minas Gerais, Tocantins e no Rio de Janeiro; assim como a expansão da cana-de-açúcar para a produção de agrocombustíveis foi denunciada em Pernambuco, Paraíba, Espírito Santo e São Paulo. Hidrelétricas, como Xingó em Alagoas, grandes supermercados como o Wal-Mart e monoculturas como eucalipto também foram denunciados pelas mobilizações.
A força de nossa mobilização se defrontou várias vezes com a repressão do Estado à serviço destas grandes empresas, como em Porto Alegre, Belo Horizonte ou em São Paulo. Muitos de nós foram feridos e presos. Mesmo assim nossa jornada foi bem sucedida em seu caráter de denúncia. Sabemos que as conquistas desta luta não virão de pronto. Garantir que todo brasileiro se alimente com dignidade e que o povo decida o que quer produzir não será uma batalha de um dia ou uma semana. Mas quando vencermos, estaremos mais próximos de uma sociedade mais justa e igualitária.
