Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Ariovaldo Umbelino Oliveira
Professor de Geografia Agrária da USP
Como já dito no artigo anterior, publicado no Jornal Sem Terra, o mecanismo das políticas neoliberais aplicadas ao comércio e agricultura mundial é a razão principal para esta crise que se abateu sobre os alimentos na atualidade.
Agravando o quadro ainda mais, virão os possíveis desdobramentos futuros. Por exemplo, o Brasil, com seus três milhões de toneladas produzidas de trigo, vai fazer o que se a demanda do mercado mundial for superior? Os produtores de trigo vão exportar como fizeram no passado.
Já pensando o exemplo do feijão, por que chegou a faltar esse produto no mercado brasileiro, se o Brasil é um grande produtor mundial? Esse foi o reflexo indireto de outros fatores. O aumento, já
desde o ano passado, do preço do milho e da soja, assim como o efeito da subida dos preços desses produtos no mercado interno, fez com que as terras destinadas à produção do feijão não o fossem mais.
Os capitalistas converteram a área de produção de feijão em terra para cultivo do milho, que tinha preços mais vantajosos no mercado mundial, em função da escalada provocada pelo etanol americano. Escalada que atingiu também a soja, que, na falta do milho, o substitui na ração animal, não na alimentação humana. É bem provável que nesse período do ano, com a entrada da principal afra de feijão, não haja falta, mas a perspectiva é que, no final do ano, o produto venha a faltar. Se os preços do milho e da soja continuarem mais vantajosos, é óbvio que os capitalistas continuarão privilegiando a sua produção.
No caso do arroz, os estoques de que o Brasil dispõe são baixíssimos: 10% da demanda. Mas, a perspectiva de safra, já praticamente colhida, momentaneamente não sinaliza para uma
situação de falta do produto, mas seu preço no mercado interno já subiu. Porém, se os preços do mercado internacional estourarem, será iniciado um processo de se destinar parte da produção
do mercado interno ao externo.
Importar para comer
No plano do mercado interno brasileiro, desde 1992, o país não aumenta a área plantada de feijão, nem a de arroz e nem a de mandioca, que são os três alimentos básicos da população brasileira.
E como o Brasil tem resolvido, em face da adoção da política neoliberal, o mercado de arroz e feijão? Quando há falta, importase. Então, o país usa a disponibilidade do produto no mercado mundial como instrumento de controle da sua segurança alimentar. Mas, à medida que os países bloqueiam a exportação, não existe mais essa possibilidade, ou seja, o Brasil não teria a chance de buscar no mercado mundial o arroz necessário para manter seus preços no mercado interno.
Esse é o quadro mais crítico do mercado interno. Porém, pode-se questionar por que não se aumenta a produção de arroz, feijão e mandioca. A resposta é que a política agrícola voltada à produção de alimento básico no Brasil não permite aos agricultores reporem os custos de produção. Quem produz esses alimentos são, em grande maioria, os pequenos agricultores, e eles não têm
como resolver o problema da produção, voltando assim, sua atenção para outros produtos.
Tomando-se o exemplo do Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul, verifica-se que
a maioria dos produtores de feijão, está diante da tendência de plantar milho, pois possui preços mais vantajosos. Portanto, o efeito na alimentação brasileira é direto e indireto no que se
refere ao mercado dos alimentos básicos. Poder-se-ia colocar nesse bolo a carne. O Brasil está se tornando o maior exportador mundial de todos os tipos de carnes. Conseqüentemente, é claro
que, se a produção for destinada ao mercado externo, o interno passa a ser regulado pela disputa de preços. Ou o mercado interno paga preços compatíveis a aqueles do mundial, ou se destina
a produção para o mercado mundial.
Assim, o que se assiste é o ‘deus mercado’ determinando todos esses mecanismos nefastos associados a produtos essenciais à segurança alimentar dos trabalhadores brasileiros. Mas, o mercado de alimento não pode sobreviver ao mercado livre. Seguir essa trilha é colocar em risco a possibilidade de sobrevivência da humanidade.
O mercado não é capaz de regular nada, exceto as vantagens e os lucros dos capitalistas. E o problema da fome está aí, para demonstrar essa incapacidade.
