Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Em 1886, os trabalhadores de Chicago, um dos principais pólos industriais dos Estados Unidos, escreveram uma das páginas mais heróicas da luta da classe trabalhadora. Predominavam nas fábricas estadunidenses, condições indecentes de trabalho, salários miseráveis, jornadas superiores a 12 horas e exploração do trabalho infantil. Crianças de 7, 8 ou 9 anos de idade, já eram obrigadas a acompanhar os pais em trabalhos duros e extenuantes.
Os trabalhadores passaram a reivindicar o fim do trabalho infantil, a redução da jornada para 8 horas diárias e melhores condições de trabalho. No dia 1º de maio daquele ano, iniciou-se uma greve em defesa dessas reivindicações. Nos confrontos com a polícia, trabalhadores grevistas foram assassinados.
Um dos líderes da greve, Parsons, não hesitou em afirmar: "Se é necessário subir também ao cadafalso pelos direitos dos trabalhadores, pela causa da liberdade e para melhorar a sorte dos oprimidos, aqui estou”. Foi preso e enforcado junto com outros três companheiros (Spies, Engel e Fisher), no dia 11 de novembro de 1887. Lingg, outro operário também condenado, foi morto no próprio presídio. Estes passaram a ser os mártires de Chicago.
Desde então, a data de 1º de maio passou a ser uma referência internacional de luta contra a exploração e em defesa dos direitos da classe trabalhadora.
Recordar a história, é prestar uma homenagem a esses trabalhadores, à sua coragem em defesa de melhores condições de vida para todos. É recordar do que a burguesia é capaz para perpetuar as situações de exploração e assegurar seus privilégios. A mídia da época exigiu repressão aos trabalhadores: "a prisão e os trabalhos forçados são a única solução adequada para a questão social”.
Mas, o exemplo dos mártires de Chicago é, sobretudo, uma referência histórica para avaliarmos o presente. Desemprego, existência de trabalho escravo e infantil, perda de direitos trabalhistas, condições desumanas de trabalho, impunidade aos crimes cometidos contra a classe trabalhadora, aumento da concentração da renda e da riqueza, crescimento da miséria. Todos estes elementos atestam uma realidade aonde há muito por lutar.
É bem verdade que a reestruturação do mundo do trabalho – os avanços tecnológicos, a terceirização e descentralização dos centros produtivos – e a hegemonia do capital financeiro, ocorridos nas duas últimas décadas, afetaram significativamente as formas organizativas e de lutas da classe trabalhadora.
Mas também, não é menos verdade, que estamos em dívida com a memória dos mártires de Chicago. Deixamos de fazer o trabalho de formação política junto à classe trabalhadora. Há anos nos descuidamos do trabalho de base. Nos rendemos às migalhas dadas pela imprensa burguesa, ao invés de criarmos nossos próprios meios de comunicação. Nossas conquistas eleitorais, deixaram de ser um processo de acumular forças políticas para a classe trabalhadora e passaram a ser apenas projetos políticos individuais e oportunistas. O imediatismo substituiu a necessidade de termos um projeto político de toda a classe trabalhadora para o nosso país e mundo. Os valores de uma sociedade individualista e consumista ingressaram na cabeça de lideranças populares, sindicais e partidárias, que relegaram os valores e ideais de uma sociedade socialista ao passado. Deixamos de acreditar em nossa capacidade e poder de lutar. O conchavo e conluios com forças direitistas e conservadoras passaram a ser sinônimos de habilidade política e esperteza de muitos que se dizem representantes da classe trabalhadora. Vivemos o período em que, mais do que lutar permanentemente contra o inimigo de classes, devemos nos armar para aprofundar ainda mais as divergências e divisões internas da própria classe trabalhadora.
Há muito que lutar! Há uma ofensiva da classe exploradora e um descenso do movimento social, como já houve em outros momentos na história da luta de classes. Esse período histórico apenas atesta a necessidade de encararmos, com seriedade, os desafios de construirmos a unidade da classe trabalhadora, recuperar o trabalho de base e de formação política, construir os meios próprios de comunicação e de pensar um projeto político para o nosso país. Que as históricas lutas do 1º de maio de 1886 nos incentive a encarar os atuais desafios da classe trabalhadora para construímos um Brasil socialmente justo, democrático e igualitário.
