Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
As mulheres da Via Campesina realizaram manifestações, protestos e ocupações em diversos estados contra o agronegócio e em defesa da Reforma Agrária. As ações tiveram início no dia 4 de março e fazem parte da Jornada Nacional de Lutas que celebra o Dia Internacional das Mulheres, em 8 de março. Neste ano algumas questões foram centrais como a decisão do governo em liberar o milho transgênico da Monsanto e Bayer, os prejuízos ambientais e sociais da Vale na região de Minas
Gerais e Maranhão, os danos dos monocultivos de eucalipto, além de protestos contra a Syngenta.
Rio Grande do Sul
Cerca de 900 mulheres da Via Campesina ocuparam a fazenda Tarumã, de 2,1 mil hectares, no município de Rosário do Sul, pertencente à empresa sueco finlandesa Stora Enso, no dia 04. Elas cortaram cerca de 4 hectares de eucaliptos e plantaram árvores nativas. A legislação brasileira proíbe a compra de terras por empresas transnacionais localizadas em uma faixa de 150 km da fronteira do Brasil com outros países. No entanto, a Stora Enso vem investindo em áreas próximas à fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, e a fazenda Tarumã é uma delas.
Na parte da tarde do mesmo dia, um contingente da Brigada Militar invadiu o acampamento de forma violenta, ferindo mulheres e separando as 250 crianças, que estavam presentes, das mães sendo colocadas deitadas com as mãos nas cabeças. Ferramentas de trabalho foram apreendidas e barracos destruídos. Não é a primeira ação violenta do Governo Yeda Crusius. A Via Campesina condena a ação e denuncia que a governadora tucana coloca o aparato policial do estado a serviço de uma de suas maiores financiadoras de campanha, a multinacional Stora Enso.
Rondônia
Cerca de 300 mulheres da Via Campesina marcharam até as Centrais Elétricas de Rondônia S.A (CERON), em Porto Velho, para fazer uma entrega coletiva das autodeclarações que garantem a Tarifa Social de energia para as famílias que consomem até 140 kwh por mês (limite regional de Rondônia).
A manifestação também denuncia o subsídio energético dado às empresas e multinacionais pela Eletronorte, que é a principal acionista da CERON. A Alcoa e a Vale possuem indústrias de alumínio e ferro no norte do país (a Alumar e a Albrás) e, desde 1984, recebem energia subsidiada (a preço real de custo) da Eletronorte.
Pernambuco
Três ações foram realizadas no estado de Pernambuco. 500 Mulheres do MST, CPT e MPA,ocuparam na manhã do dia 06, a sede da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco(Codevasf), em Petrolina, sertão de Pernambuco. As agricultoras protestam contra o modelo de desenvolvimento que vem sendo implantado pela empresa na região, simbolizado por grandes projetos de irrigação para o agronegócio como o projeto de transposição do Rio São Francisco, o Pontal Sul, em Petrolina, e o Projeto Salitre, na cidade vizinha de Juazeiro, na Bahia.
Ocupação da Codevasf denunciou o modelo de desenvolvimento aplicado na região Na cidade de Água Preta, cerca de 200 mulheres realizaram mais um ato contra o monocultivo da cana. Elas
derrubaram a casa grande do engenho Cachoeira Dantas, área onde há mais de 20 anos moravam 66 famílias que foram despejadas por decisão liminar do Juiz da Comarca de Água Preta, sem nenhuma apresentação de defesa. A Polícia Militar cercou sob mira de armas de fogo as manifestantes. Segundo relatos do local, inúmeros policiais entraram atirando no acampamento, onde estavam também cerca de 30 crianças. Cerca de 600 mulheres ocuparam, mais uma vez, o Engenho Pereira Grande, em Gameleira.
Bahia
O 8º Acampamento de Mulheres com o lema: “Mulheres Sem Terra e Indígenas em defesa da soberania alimentar, contra o agronegócio e as transacionais no campo” reuniu mais de 1,5 mil mulheres. Ao final do acampamento, três mil trabalhadores e trabalhadoras rurais ocuparam a Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária no Centro Administrativo da Bahia (CAB) para
cobrar o cumprimento da pauta de reivindicações do Movimento, entregue
no ano passado.
Santa Catarina
Em Xanxerê, cerca de 700 mulheres realizaram atos em frente a Agroeste – empresa de sementes de milho comprada pela Monsanto - que permaneceu com os portões fechados durante o período da manifestação. As lutadoras também trancaram por meia hora o trevo da BR-282 que dá acesso a Xanxerê e a diversos municípios. Foram distribuídos para a população panfletos denunciando o
atual modelo agrícola, que destrói a natureza e entrega o patrimônio do país às grandes corporações internacionais.
Paraná
Com o lema “Mulheres da Via Campesina em Defesa da Saúde, da Biodiversidade e da Vida!”, cerca de 1,5 mil mulheres realizaram protestos e mobilizações para denunciar os crimes da transnacional Suíça, Syngenta Seeds responsável pelo assassinato do trabalhador Valmir Mota de Oliveira, Keno, em 21 de outubro de 2007. Os escritórios da Syngenta, no centro de Londrina, Ponta Grossa e em Campo Mourão foram alvos de manifestações. Na região Oeste, 600 mulheres realizaram uma
caminhada entre o trevo de Santa Tereza do Oeste e o campo de experimentos da Syngenta, local do ataque contra os trabalhadores da Via Campesina, que permanecem acampados na área. E na região Centro-Sul, 250 camponesas realizaram a “Marcha das Mulheres em Defesa da Biodiversidade e contra o Deserto Verde”.
Mato Grosso do Sul
Mais de 300 Sem Terra realizaram um protesto em frente à transnacional Cargil, na cidade de Dourados, e pararam a fábrica por algumas horas para protestar contra o avanço do agronegócio, que penaliza o trabalho de camponeses da região e em todo o país.
Mato Grosso
Dois encontros foram realizados simultaneamente nos municípios de Cáceres e Sinop, onde as mulheres discutiram as conseqüências do avanço do agronegócio sob a perspectiva feminista.
As mulheres do estado realizaram o primeiro acampamento e participaram de uma marcha na capital.
Pará
Cerca de 600 mulheres da Via Campesina e entidades urbanas acamparam no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Marabá, com o objetivo de discutir temas relacionados à luta das mulheres, sob o lema “Mulheres contra o imperialismo e pela igualdade de gênero”.
Alagoas
Cerca de três mil trabalhadoras chegaram à capital, Maceió, no dia 5, para realizar uma grande marcha pela Reforma Agrária e contra a criminalização do MST. Além de denunciar a ofensiva que o agronegócio tem causado no campo, gerando miséria e violência. Uma pauta de reivindicações foi entregue ao Incra e também ao governo do estado.
Maranhão
900 pessoas, em sua maioria mulheres, realizaram um protesto nas instalações da carvoaria industrial da Vale para denunciar que a queima de eucalipto plantado na área está causando problemas respiratórios nos trabalhadores do assentamento Califórnia, no município de Açailândia. Há três anos em atividade, a carvoaria foi instalada a cerca de 800 metros da agrovila do assentamento onde vivem mais de 1,8 mil pessoas.
Ceará
As mulheres realizaram um encontro estadual em Limoeiro do Norte e trancaram a “estrada do agronegócio” para denunciar o uso de agrotóxicos por empresas instaladas na região. Participaram também de um protesto em frente ao aeroporto, na capital, para denunciar a exploração sexual de
mulheres. No município de Madalena, mais de 600 mulheres fecharam por duas horas a BR – 020.
Rio de Janeiro
As mulheres da Via Campesina realizaram um ato contra a transnacional Syngenta Seeds, no consulado da Suíça. Depois elas ocuparam a Superintendência Regional de Agricultura do estado. A ocupação teve como objetivo denunciar a decisão do governo em liberar o milho transgênico.
Rio Grande do Norte
No dia 5, 300 mulheres Sem Terra ocuparam a Governadoria em Natal, para cobrar do governo
ações em relação à educação de crianças de acampamentos e assentamentos, convênios de capacitação profissional de jovens e mulheres, instalação de poços em assentamentos e liberação de engenheiros para construção de casas.
Minas Gerais
Mais de mil mulheres ocuparam os trilhos de uma das principais ferrovias da mineradora Vale (antiga Vale do Rio Doce) , que corta o município de Resplendor, na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. A atividade denuncia que a construção da Barragem de Aimorés, pela Vale e Cemig(Companhia Energética de Minas Gerais), inviabiliza o sistema de esgoto da cidade, inundando dois mil hectares de terra. A Vale é uma das principais responsáveis pela destruição do meio ambiente em Minas e pela concentração de terras, por meio do plantio de eucalipto em larga escala que alimenta as usinas associadas.
São Paulo
Na madrugada do dia 07, mulheres da Via Campesina ocuparam uma unidade de pesquisa biotecnológica da empresa estadunidense Monsanto e destruíram um viveiro e o campo experimental de milho transgênico, em Santa Cruz das Palmeiras, no interior do estado. As mulheres protestaram contra a liberação de duas variedades de milho transgênico pelo Conselho Nacional de
Biossegurança (CNBS). A expansão dos transgênicos por todo o país tira o controle das sementes dos trabalhadores rurais, passa para as empresas transnacionais e pode inviabilizar a produção de
alimentos orgânicos. Também não existem estudos científicos que garantam que os alimentos transgênicos não tenham efeitos negativos para a saúde humana e para a natureza. As dúvidas em
relação aos alimentos modificados em laboratórios levam 81,9% do povo brasileiro a rejeitar o plantio de OGMs, de acordo com pesquisa realizada a pedido do Greenpeace.
