Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Cássia Bechara
Enviada especial a Fortaleza
A comunidade de Vila Velha 4 é uma ocupação urbana em uma região de preservação ambiental, na periferia de Fortaleza. Durante as chuvas, a área coberta de mangues sofre com enchentes e alagamentos. Cerca de doze mil pessoas vivem na comunidade onde não há praticamente a presença de nenhum serviço público. Mas que hoje, chegam os médicos do MST formados em Cuba.
Cerca de quatro mil pessoas recebem atendimento de saúde nessa comunidade pobre do Ceará, que é uma das sete em que estes médicos atuam. Ao todo, 23 profissionais da saúde graduados pela Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), estão fazendo residência no estado nordestino.
Em Fortaleza, nas comunidades de Vila Velha 4, Padre Palhano e Barra do Ceará, há oito médicos Sem Terra e quatro de outras entidades; no município de Sobral, interior do Estado, são 12, dos quais sete do Movimento.
As atividades se dividem em atendimento nos postos municipais e visitas às famílias, além de plantões, ambulatórios e aulas da residência médica. No caso de Sobral, as visitas são feitas em áreas rurais onde não existe atendimento médico e em áreas de Reforma Agrária.
“Na época em que eu cheguei aqui não tinha nada. Nem casa”, diz Seu Raimundo, que tem 13 filhos e é um dos primeiros moradores de Vila Velha. “Sou analfabeto e não me sinto cidadão. Me sinto um escravo. Cidadão tem que ter estudo, trabalho e moradia digna. Eu não tenho nada disso, só nossos médicos maravilhosos”.
Medicina humanista
A concepção médica de Cuba faz diferença no atendimento no posto de saúde João Medeiros. “Os médicos têm transformado a realidade da comunidade. Atendem pelo menos 40 a 50 pessoas. Eles são médicos não só da dor física, mas da dor humana também”, diz Airton, de uma organização não-governamental da comunidade.
Para Saulo Rodrigues médico do MST na comunidade de Vila Velha 4, “A medicina hegemônica exercida no Brasil, mercantilista e capitalista, nasce como modelo importado dos Estados Unidos no período da ditadura e se caracteriza por ser supra-especializada, positivista e biologicista, negando o modo como as pessoas vivem”.
A qualidade da medicina cubana tem reconhecimento internacional, até mesmo pelos maiores inimigos da ilha. A prioridade é o paciente e rompe com a lógica elitista em que quem tem dinheiro vive e quem não tem morre. Por isso, os médicos Sem Terra querem exercer a profissão de medicina no Brasil com base nos valores socialistas e humanistas. Não basta atender o paciente que está doente, mas também conhecer sofrimentos e misérias humanas.
Para Maria Antonia, representante da Embaixada de Cuba no Brasil, são em comunidades pobres como Vila Velha 4 que os médicos vindos da ilha devem atuar. “É motivo de satisfação para qualquer revolucionário ver jovens formados em Cuba em comunidades como essa, onde realmente deveriam estar”.
Apesar de toda a formação acadêmica, experiência prática e vontade de atender às comunidades da cidade e do campo esquecidas pelo sistema de saúde, eles têm enfrentado muitas dificuldades para regularizar o diploma para atuar no Brasil (veja box).
Enquanto isso, os médicos jovens de movimentos sociais que, de outro modo, raramente teriam a chance de estudar medicina aqui no país, tentam trabalhar por meio de acordos com governos estaduais e municipais, como é o caso das Prefeituras de Fortaleza e de Sobral, no Ceará. E pessoas como Seu Raimundo, da comunidade de Vila Velha 4, podem enfim receber o atendimento medico que até então era negado.
Regularização do diploma está na Câmara
Os diplomas dos médicos formados em Cuba não são reconhecidos pelas faculdades brasileiras e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que alegam incompatibilidade da grade curricular.
A Comissão de Relação Exteriores da Câmara dos Deputados aprovou, em setembro, um projeto que torna automática a validação de diplomas de brasileiros formados na Elam. No entanto, o projeto precisa passar por mais três comissões antes de seguir para o Senado.
Segundo os médicos do MST, a compatibilidade curricular passa de 75%, dependendo da faculdade, e o Conselho atua para impedir que os formados em Cuba ocupem o lugar dos brasileiros no mercado de trabalho.
Os dados do Ministério da Saúde mostram que existem mais de mil municípios brasileiros sem nenhum médico. O próprio governo reconhece a contribuição que os médicos formados em Cuba podem dar ao atendimento de saúde no Brasil, integrados ao Programa de Saúde da Família (PSF).
Inspirado na experiência da ilha - que tem sistema de saúde universal e gratuito, mesmo em vilarejos mais remotos - os médicos formados em Cuba são especialistas em PSF. Na ilha socialista há, em média, um médico para cada 170 pacientes, sendo um número superior ao dos Estados Unidos, que tem um para 188 pacientes, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Os profissionais da saúde vindos de Cuba sofrem também pressão da indústria farmacêutica por causa da prática de medicina baseada na prevenção e não na mercantilização.
