Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Paulo A. Magalhães
Uma ponte entre a tradição e a juventude. É isso que o MST da Bahia está construindo na região por meio de experiências agroecológicas em diversos assentamentos e acampamentos. A necessidade de mudar a matriz tecnológica - que depende de insumos e defensivos de alto custo e não dá retorno aos agricultores - se concretiza por meio de cursos e oficinas para a formação em agroecologia e meio ambiente, além de núcleos de produção e manejo de sistemas agro-florestais.
“Estamos fazendo a transição de algumas experiências isoladas de agricultura orgânica para práticas integradas de agroecologia. Nosso desafio é organizar uma produção que seja socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente sustentável”, declara Jovenilton Batista, coordenador do projeto intitulado “Transição agroecológica para jovens e mulheres em áreas da reforma agrária baiana”.
“Iniciamos com um processo de conscientização e aprendemos com as experiências existentes, para então partirmos para a intervenção prática” explica Marcos Nascimento, técnico-agrícola responsável pelos cursos e oficinas. A primeira atividade do intercâmbio ocorreu no assentamento Dandara, em Camamu, onde um grupo de mulheres e jovens desenvolve há sete anos experiências agroecológicas.
“Nosso objetivo é também criar alternativas para a permanência da juventude no campo, inserindo os jovens no processo produtivo. As mulheres já estão inseridas, embora não sejam reconhecidas. São elas que produzem de forma mais natural, porque não estão preocupadas com quantidade, mas com a subsistência de suas famílias”, afirma a jovem coordenadora do Setor de Gênero, Alessandra Almeida. A falta de perspectivas profissionais e a necessidade de estudar na cidade, segundo Alessandra, são alguns dos fatores que contribuem para o desenraizamento do jovem.
Raiz forte, frutos saudáveis
“Temos que resgatar o conhecimento de nossos ancestrais, de viver em harmonia com a terra”, diz Edvaldo de Jesus, do acampamento Nossa Senhora do Socorro. Nos primeiros encontros fica clara a linha de ruptura: avôs e avós que detém conhecimentos tradicionais de cultivo da terra, transmitidos pelas heranças africana e indígena, não conseguiram passar este conhecimento aos seus netos, e agora se preocupam.
“Pra plantar tem que saber obedecer a natureza, não é só sol e chuva, tem que ver a quadra da lua e da maré”, explica José Evangelista da Cruz, o Seu Furinga. Tataraneto de escravos, Seu Furinga aprendeu a plantar com seus pais, e conta que nunca usou agrotóxicos. Caso semelhante ao de Dona Preta, como é conhecida Maria Vitória, do assentamento Bela Vista. “Sempre misturei folha de cajueiro, maniçoba, manacaíba, casca de verdura, cinza, esterco de porco e de galinha, um bocado de coisa. Produzo tudo natural”, diz.
O encontro da ciência com a tradição tem se mostrado produtivo. Até então, as experiências de adubagem se limitavam à compostagem orgânica, mas a introdução do biogel e outros biofertilizantes que funcionam como defensivos naturais vêem incrementando a produção local.
Pra Marcos algumas pessoas desistem porque no início aparecem muitas pragas e doenças, antes da natureza restabelecer seu equilíbrio. Porém, as dificuldades iniciais trazem recompensas posteriores: os produtos orgânicos vêm sendo valorizados e se constituem em um novo nicho de mercado.
Mas nem tudo são rosas. “Às vezes a gente vai pra feira e o povo não compra porque a fruta é pequena, tem uma manchinha. Quem não conhece quer aquela fruta grandona, perfeita, parecendo uma modelo de revista, sem saber o que é que tem por dentro” reclama Seu Furinga.
Contradições à parte, técnicas antigas são revalorizadas e restabelecem um equilíbrio com a natureza, permitindo que o agricultor se liberte do círculo vicioso estabelecido pelo grande capital, que obriga a compra de insumos, fertilizantes, máquinas e sementes, negando a autonomia ao produtor e soberania alimentar ao seu país. A população, que pode consumir alimentos mais saudáveis com um baixo custo, agradece.
No ar, a rádio livre do assentamento 25 de Maio
Marcelo Francisco
Mais uma rádio no ar! No último dia 25, o MST inaugurou sua primeira rádio livre no assentamento 25 de maio, localizado no município de Madalena, no Ceará. A rádio está na sintonia FM 95,3.
A inauguração da rádio, que tem o mesmo nome do assentamento, é um marco simbólico na luta pela democratização da comunicação no estado. É mais uma ocupação de latifúndios, seja da terra, do saber ou do ar. Além disso, a rádio está presente no primeiro e maior assentamento do MST no estado. No local vivem atualmente 424 famílias assentadas e mais de quatro mil pessoas.
Na semana anterior à inauguração, o setor de comunicação realizou uma capacitação com cerca de 50 militantes do assentamento e de outras regiões do estado para preparar a juventude que assumiu o comando da rádio.
Em fase de testes, a rádio já recebeu mais de 200 cartas dos ouvintes do assentamento e das cidades vizinhas. Os assentados já deixaram bem claro que a rádio pertence à comunidade e ninguém vai tirá-la de lá.
A festa de inauguração contou com mais de mil pessoas entre personalidades históricas da luta pela reforma agrária no Ceará, como Dona Maria Lima, que é assentada no 25 de maio e participou do I Congresso do MST. Para ela "a rádio vai nos trazer muitos benefícios, entre eles, a facilidade de comunicação entre nós, além de contribuir para a divulgação da nossa luta”.
Estavam presentes no ato, representantes do poder público local, vice-prefeito, vereadores, secretário de educação e de saúde.
TÍTULO: Movimentos lutam pela suspensão dos leilões do petróleo e do gás
LINHA FINA:
Mariana Duque e Mardônio Barros
Movimentos sociais e entidades sindicais ocuparam no último dia 27, a Agência Nacional do Petróleo (ANP), no Rio de Janeiro. Cerca de 300 pessoas organizadas no Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro), Central Única dos Trabalhadores (CUT), MST e Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), participaram da ocupação.
A manifestação fez parte de uma jornada de lutas para barrar os leilões do petróleo e do gás que o governo federal, por meio da ANP, está promovendo. A 9º Rodada de Leilões do Petróleo e do Gás, ofertou 271 blocos de extração nas bacias de Campos, Espírito Santo, Pará-Maranhão, Parnaíba, Santos, Recôncavo, Rio do Peixe e Potiguar, Pernambuco-Paraíba.
No dia 21, um manifesto abaixo-assinado foi entregue em Brasília, ao presidente Lula, pedindo a suspensão dos leilões do petróleo e do gás e a construção de um projeto alternativo de uso desses recursos. No dia seguinte, diversas entidades se manifestaram pela suspensão dos leilões no centro do Rio, com mais de mil manifestantes.
Os leilões de petróleo fazem parte de uma política do governo para abertura do mercado. “O monopólio estatal é danoso”, como afirma o presidente da ANP, Haroldo Lima. Segundo ele, os leilões fazem parte da estratégia de gestão do setor energético no Brasil, pois “há uma necessidade de incentivar a livre concorrência”.
Essa política, no entanto, não é nova, remonta ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que por meio das privatizações, entregou ao capital privado nacional e internacional boa parte das empresas estratégicas, como a CSN, a Vale do rio Doce, e empresas do setor elétrico, telefonia, estradas, entre outras.
No caso da política energética, a Lei nº. 9478, de agosto de 1997, não só criou o Conselho Nacional de Política Energética e a ANP, como também quebrou o monopólio do petróleo e do gás brasileiros, abrindo o setor ao capital financeiro internacional. Desde a criação, as agências reguladoras têm servido como blindagens, do ponto de vista institucional, das políticas neoliberais. Essas agências cumprem um papel muito importante nos processos de privatização de empresas e serviços públicos.
Segundo Abílio Tozini, diretor do Sindicato dos Petroleiros e da CUT-RJ, após nove anos de iniciado os leilões, 50% das áreas já leiloadas estão sob controle de empresas estrangeiras, 25% sob controle parcial de multinacionais em parceria com a Petrobrás e apenas 25% sob real controle da Petrobrás. “Se todas essas áreas tiverem o mesmo sucesso em produção de petróleo, daqui a dez anos, mais da metade do petróleo e gás produzidos estarão sob controle de multinacionais, e se quisermos o nosso petróleo e gás, teremos que comprar das multinacionais a preços do mercado internacional, nossa proclamada auto-suficiência estará arruinada”, conclui.
O caminho da soberania alimentar e energética
Por Rui Kureda
Enviado especial ao Paraná
O mundo está sendo destruído pelo capitalismo, que destrói incessantemente a natureza para produzir mercadorias e garantir os lucros dos capitalistas. Este é o ponto de partida do documento elaborado ao final da I Conferência Nacional Popular sobre Agroenergia, realizado em Curitiba (PR). A atividade reuniu entre os dias 29 e 31 de outubro, mais de 500 militantes da Via Campesina e outros movimentos sociais do país e da América Latina.
A Conferência criticou a atual política de produção de agroenergia, que é determinada pela lógica do mercado e não pelas necessidades sociais. Um dos maiores problemas causados por essa política insustentável é a ameaça à soberania alimentar.
O documento final deixa claro que os agrocombustíveis não podem ser vistos como a solução de todos os problemas ou na substituição dos combustíveis derivados do petróleo. O documento afirma que “a agroenergia é uma das alternativas ao lado de medidas de eficiência e outras fontes de energia renovável e sustentável”. E isso nos leva, segundo o texto, à necessidade de uma “reforma agrária popular e de um processo de democratização de acesso à terra como via para garantir a soberania alimentar e a soberania energética”.
Ribeirão Preto celebra “Encontro com Saci”
Com o objetivo de reafirmar a identidade camponesa por meio da valorização da cultura popular, o MST realizou no Centro de Formação “Dom Hélder Câmara”, em Ribeirão Preto, o primeiro “Encontro com o Saci: o guardião das matas e do saber popular”, entre os dias 19 e 25 de novembro. O encontro teve diversas atividades, entre elas oficinas culturais e um seminário, cuja finalidade foi refletir sobre a cultura brasileira.
Como explica Guê de Oliveria, do setor de cultura do MST, a idéia era fazer um diálogo da cultura com outras áreas. “Não há como falar de Saci sem falar de meio ambiente, biodiversidade, saber popular. Não apenas no inconsciente, mas vivo no consciente do camponês”, explica. Na mesma linha, Sidnei Niederle, do Centro de Formação, acredita que não se trata de fazer um “resgate”, já que o Saci, assim como outras manifestações da cultura e saberes populares estão muito presentes na vida do povo.
O Saci-Pererê
É um personagem bastante conhecido da mitologia brasileira, que teve sua origem entre os indígenas da região de Missões, no Sul do país. Era retratado como um endiabrado, uma criança indígena, com uma perna só e um rabo. Na região Norte do Brasil, a mitologia africana o transformou em uma criança negra que perdeu a perna lutando capoeira, imagem que prevalece até os dias atuais.
Herdou também da cultura africana, o pito, uma espécie de cachimbo, e da mitologia européia, o píleo, seu gorrinho vermelho. É considerado uma figura brincalhona que diverte-se com os animais e pessoas e assuta viajantes noturnos com seus assobios. A ele também é atribuído o domínio das matas. Costumava confundir as pessoas que não pediam a ele a autorização para a coleta de ervas medicinais
Resistência ao Halloween
Em 2005 foi instituído no Brasil o Dia do Saci (Lei nº. 11.669). A idéia é fortalecer e valorizar a cultura popular brasileira. O Dia do Saci é comemorado em 31 de outubro, em contraposição ao “Halloween”, ou Dia das Bruxas, que teve sua origem na Irlanda, mas foi massificado pela indústria cultural norte-americana.
