Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
É preciso romper a lógica da força que os grupos econômicos usam para defender seus privilégios
Em entrevista à Revista Sem Terra (nº 41) o uruguaio Ricardo Carrere, técnico florestal e coordenador internacional do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, denunciou o excessivo poder político e econômico que as grandes empresas transnacionais exercem sobre os governos. Essas empresas “transformam-se em governo que não foram eleitos por ninguém, e os governos eleitos estão a seu serviço”, afirma ele.
Outros estudiosos, como o estadunidense Noam Chomski, há tempos nos alerta sobre o poder excessivo, quase irrestrito, destas grandes corporações. Na medida em que os setores populares foram obtendo conquistas nos espaços institucionais – parlamentos e governos – as grandes decisões políticas foram deslocadas para os gabinetes dessas grandes empresas. Estas ainda mais fechadas ao povo.
O parlamento, nessa divisão de poder político, se restringiu à pequena política. A política do conchavo, da troca de favores, da denúncia de corrupção (sem nunca responsabilizar os corruptores). E a grande maioria dos parlamentares, se preocupa mais em ocupar espaços na mídia do que com as grandes questões da política brasileira. A importância de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para esses parlamentares se mede muito mais pela repercussão que terá na mídia do que pelos objetivos que se propõe a alcançar. É nisso que se resumiu o Parlamento
Enquanto isso, nos gabinetes dos grandes grupos econômicos - preocupados em maximizar os lucros do grande capital - toma-se as decisões políticas que trazem graves conseqüências para a sociedade. Por exemplo, foi em um destes gabinetes que se decidiu pela liberação do plantio e comercialização dos produtos transgênicos - sem ainda haver resultados conclusivos sobre seus efeitos ao meio ambiente e ao consumo humano.
São nesses gabinetes que se decide a política de transformar a nossa agricultura em gigantescos monocultivos, seja da cana-de-açúcar, eucaliptos ou soja. E sem se importar com a degradação ambiental, eles se vangloriam dizendo que graças a essa política o governo obtém superávit na balança comercial.
Em busca do lucro, se generaliza a prática do trabalho escravo em todas as regiões do país, inclusive nos grandes centros urbanos. E alguns parlamentares - coniventes com esta situação - se apressam em garantir a impunidade desses criminosos sob o argumento de que é necessário precisar melhor o conceito de trabalho escravo.
Nos canaviais, se impõem aos cortadores de cana uma carga de trabalho tão excessiva que os leva à morte por exaustão física. Isso num dos pólos mais dinâmicos da agricultura, moderno, sofisticadamente chamado de agronegócio.
Esse modelo de desenvolvimento econômico, além de restringir a participação política da população, promove a concentração da riqueza produzida, reduz os direitos trabalhistas, aumenta a exploração da força de trabalho e eleva a degradação ambiental, colocando em risco a vida no planeta.
A mídia trata de desinformar a população sobre os efeitos prejudiciais desse modelo de desenvolvimento. Mas quando necessário, essas grandes empresas não hesitam em recorrer a todas as armas possíveis para impor seus interesses e reprimir os que se opõe a eles. O ataque criminoso da transnacional Syngenta no Paraná, que resultou no assassinato do companheiro Valmir Mota de Oliveira (conhecido como Keno), e no ferimento grave de outras companheiras e companheiros, faz parte de uma prática comum das elites. O assassinato ocorrido no Paraná não é diferente do assassinato da irmã Dorothy, no Pará, ou dos assassinatos dos fiscais do trabalho em Minas Gerais. É a lógica da força e da impunidade que os grupos econômicos usam para defender seus privilégios.
Pensar um novo projeto de desenvolvimento para o país, exigem sim enfrentar o poder das empresas transnacionais. Construir e consolidar a democracia, exige hoje, responsabilizar os grandes grupos econômicos por suas políticas prejudiciais ao meio ambiente e à população. Foi com esse objetivo que promovemos nossa Jornada de Lutas Contras as Transnacionais. E com certeza, outras jornadas de lutas virão. Somente assim romperemos com a lógica predatória e excludente das classes dominantes para a construção de um país socialmente justo e democrático.
