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Nosso Che

“Alguna gente se muere
para volver a nacer.
Y el que tenga alguna duda
que se lo pregunte al Che”.
Atahualpa Yupanqui

Por Claudia Korol*

Tornar a nascer, uma e outra vez, parece ser a maneira de existir do Che em nossas rebeldias. Tornar a nascer é o que vem fazendo desde então. E isso não é o resultado de um milagre místico, e sim da força que tiveram suas palavras, seus atos, sua “entranhável transparência”, sua expandida presença, encarnando de maneira única a projeção daquilo que a humanidade guarda como aposta ao futuro, como confiança em si mesma.

Em que perspectivas poderíamos decifrar esta renovada vigência do Che? Seguramente, há muitos aspectos que os povos projetam naqueles homens e mulheres com os quais se identificam. Mas, apontarei alguns que valem a pena colocar em debate, com a atualidade dos novos desafios.

1. O anti-imperialismo e o internacionalismo revolucionário

Passaram 40 anos desde o momento em que Che cai combatendo na Bolívia. Na Mensagem aos Povos do Mundo por meio da Tricontinental, escrevia: “Toda nossa ação é um grito de guerra contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos contra o grande inimigo do gênero humano: os Estados Unidos da América do Norte”.

Desde então, numerosas mudanças ocorreram no cenário mundial. A experiência socialista desapareceu no leste europeu, o rumo de China se aproxima de um capitalismo de Estado. O capitalismo se mundializou e gerou uma aliança dos círculos de poder de EE.UU., Europa e Japão, com um alto nível de centralização do capital transnacional, que requer - para se reproduzir e ampliar - o acesso ao conjunto do mercado mundial.

Este capitalismo aumenta a agressividade e o saque aos povos do Terceiro Mundo; e desenvolve iniciativas militares de controle de territórios, recursos, povo e de dominação cultural. As guerras contra Afeganistão e Iraque e a ameaça atual ao Irã estão dirigidas a assegurar o controle efetivo dos recursos vitais para a sua hegemonia.

É neste tempo mundial em que a pregação antiimperialista do Che toma nova força. Num momento em que os movimentos populares avançam na criação de redes continentais e mundiais contra a dominação imperialista e as transnacionais, torna-se imprescindível unir as batalhas enredando-as numa trama de rebeldias que podem multiplicar a capacidade de enfrentamento à todas as opressões. Não se trata apenas de coordenar as agendas, mas de dialogar para construir um “nós” coletivo, diverso e rebelde, de caráter internacionalista e antiimperialista. E que sejamos capazes, como pedia o Che, “de sentir o dor em qualquer canto do mundo como próprio, e de sentir-nos felizes quando em qualquer canto do mundo se ergue uma bandeira de liberdade”.

2. Revolução socialista ou caricatura de revolução

Perante as políticas neoliberais e suas conseqüências, multiplicam-se os esforços dos povos por erguer alternativas populares. A Revolução Cubana, já não está só no continente. Um conjunto de nações procura construir a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) – impulsionada especialmente por Fidel, Hugo Chávez e Evo Morales.

As reflexões do Che sobre o período de transição ao socialismo, sobre o risco de construí-lo com armas dentadas do capitalismo, sobre a necessidade de pensar o socialismo como um fato de consciência, passam a ser pontos de partida para novos debates.

Em 1965, escreve o Che em O Socialismo e o homem em Cuba: “... não estamos frente ao período de transição puro, tal como o vira Marx na Crítica do Programa de Gotha, estamos em uma nova fase não prevista por ele; o primeiro período de transição do comunismo ou da construção do socialismo. Este transcorre em meio a violentas lutas de classe e com elementos de capitalismo no seu seio, que obscurecem a compreensão cabal de sua essência. Se a isto se acrescenta o escolasticismo - que freou o desenvolvimento da filosofia marxista e impediu o tratamento sistemático do período, e cuja economia política não se desenvolveu - devemos convir que ainda estamos em fraldas e é preciso dedicar-se a investigar todas as características primordiais do mesmo antes de elaborar uma teoria econômica e política de maior alcance”.

O escolasticismo segue presente em muitas versões do marxismo, e superá-lo exige evitar um atrincheiramento dogmático e experimental, e a maior capacidade criativa, audácia teórica e energia na defesa do projeto popular.

3. A criação do homem novo

A procura do Che pelo homem novo nos coloca a necessidade de uma nova sociedade formada por personalidades cujas motivações não reproduzam os valores que modelam a subjetividade dos homens e mulheres no capitalismo: a competição, a busca do maior lucro, a naturalização da exploração e de distintas formas de opressão, o egoísmo, o consumismo, o individualismo, o salve-se quem puder.

Che, além de teorizar sobre a necessidade de forjar esses homens novos, praticou com sua própria vida, com seu corpo castigado pela asma, e que lhe exigiu o máximo esforço, tanto na guerra revolucionária, como no momento do triunfo.

Homens novos, mulheres novas, são militantes não domesticados, nem domesticadores, que não transformam os papéis de direção em funções de disciplina, renunciando assim toda a sua rebeldia. Que não aceitam ser aliados da dominação, afastando-se do compromisso cotidiano com os oprimidos e oprimidas deste tempo. A criação da nova consciência requer um trabalho sistemático de formação política, que trabalhe simultaneamente na crítica e na recriação dos aspectos que partem da vida cotidiana – esfera na qual se faz mais forte a dominação – até a elaboração coletiva de teorias e práticas subversivas frente à ordem mundial.

A batalha anti-capitalista, antiimperialista, pelo socialismo, nos encontra atualmente com melhores possibilidades. Humanizar nossas relações, nossas organizações, criando sementes da vida nova, multiplicando o internacionalismo, a solidariedade, a criatividade, a capacidade de organização e de combate, é a maneira de renascer o Che, não uma vez somente, mas milhares. Em cada militante que faz de sua vida a possibilidade de seguir sonhando uma vida nova para todas e todos. Sementes “guevariando” o mundo numa terra fertilizada por todas as resistências.

*Claudia Korol é jornalista argentina, Secretária de Redação da revista América Libre.

(Tradução: Daniel S. Pereira)

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