Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Se precisássemos de uma imagem para representar a atual conjuntura, poderíamos dizer que caminhamos numa longa noite escura. Uma noite longa em que parece que só o capitalismo tem conquistas. As empresas continuam concentrando capital, controladas por bancos internacionais que dirigem toda a cadeia produtiva - da semente à agroindústria. A noite é de descenso dos movimentos de massas e das lutas populares. E sem pressão pela esquerda e com a ofensiva pela direita, o governo federal abre mão de todas as possibilidades de um projeto nacional e soberano, pois está mais preocupado em construir sua coalizão com 12 partidos conservadores e em trazer para seus ministérios sete ex-ministros do governo Fernando Henrique. Pressionado pelos meios de comunicação, o governo se contenta em oferecer à população apenas políticas compensatórias, como o bolsa-família. É por isso que a Reforma Agrária parece não ter espaço nesta conjuntura, porque não atende aos interesses do capital e porque exige mais do que esmolas mensais.
A luz que falta nesta noite escura é a luz de um Projeto Popular, de um conjunto de propostas que seja capaz de reunir as esquerdas, de combater o capital e de estimular novas mobilizações. Que seja capaz de construir uma alternativa de desenvolvimento que não destrua o meio ambiente, que não enriqueça apenas banqueiros internacionais, que enfrente o discurso ideológico dos meios de comunicação. Nós sentimos que nossa caminhada será ainda longa e árdua por dentro desta noite, onde não se avista mudanças nem conquistas.
Porém, são nas noites longas e escuras que temos feito, por toda nossa história, nossas ocupações de terra. Entrado sem pedir licença nos latifúndios, derrubado as cercas. E quando o dia amanhece, clareia com a perspectiva de mais um assentamento. Assim, é também na noite da conjuntura. Não é tempo de esmorecer, mas sim de juntar forças, juntar gente, com trabalho de base, de fazer formação, de propor lutas e construir unidade. E nesta noite longa, já podemos ver sinais de que o dia amanhece também.
Como no Espírito Santo em que depois de anos de luta, enfrentando os interesses da Aracruz Celulose – e, portanto, dos bancos Safra, Votorantim e BNDES – que os indígenas capixabas finalmente retomaram suas terras que a empresa havia roubado há décadas. A demarcação das terras indígenas é um sinal de que as conquistas são possíveis e de que o agronegócio não é indestrutível.
Assim também foi o nosso Plebiscito pela anulação do leilão da Vale do Rio Doce. Mais de seis milhões de pessoas participaram, e enfrentaram a propaganda da empresa nos meios de comunicação, o desdém do governo e os interesses do Banco Bradesco - um dos proprietários ilegais da empresa.
As conquistas são possíveis, quando frutos de organização e mobilização e quando um projeto aponta o caminho. O Plebiscito da Vale, os milhares que participaram do Grito dos Excluídos e a derrota da Aracruz para os indígenas, são sinais de que elas são possíveis. E elas devem servir para nos motivar nas próximas lutas e embates: na renegociação das dívidas, no assentamento das famílias acampadas, na mudança do modelo econômico, no debate sobre as concessões de rádio e TVs dos grandes grupos empresarias. Portanto, seguimos em busca destas novas conquistas e das transformações necessárias. Nestes momentos, nos lembremos do poema de Bertold Brecht: “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”.
