Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
País do Caribe tem Estado desestruturado e ausência de serviços públicos básicos
Por Igor Felippe Santos
Enviado especial a Porto Príncipe
A visita a um país como o Haiti chama a atenção para as diferenças entre um país pobre não desenvolvido e outro rico e subdesenvolvido. O Brasil, embora seja um país extremamente desigual e não tenha resolvido a maioria dos problemas do povo, tem a 13ª economia do mundo. Já o país do Caribe não avançou no processo de industrialização, tem um Estado desestruturado e não construiu uma rede de serviços públicos básicos. Até mesmo os 10% mais ricos - que acumulam 50% da riqueza nacional - usam recursos próprios para atender necessidades primárias.
Na parte inferior da pirâmide social, lutam para sobreviver os trabalhadores pobres e os mais de 60% desempregados do país. Com isso, grande parte da população é comerciante. Pelas ruas de Porto Príncipe, vende-se de tudo. Em qualquer ponto de concentração, se forma uma feira livre que comercializa água e produtos agrícolas, passando por toras de madeira, artesanato e roupas, até produtos eletrônicos e gasolina.
O fluxo de gente e o trânsito de carros são uma loucura. O consenso geral: não bater nem atropelar ninguém. De resto, tudo é liberado. E como tem carros na capital! A maioria são antigos, e os mais novos trazem na lataria a inscrição UN (Nações Unidas).
O transporte coletivo é por meio das “tap tap”, que são camionetes com a parte da carroceria coberta com um toldo com pinturas coloridas feitas a mão. Entre os temas, futebol e Brasil, paixões nacionais. Não é difícil ver uma delas toda verde e amarela.
As escolas e hospitais não conseguem atender a maioria da população e metade das crianças não estudam. Não existe sistema de água e saneamento básico. As classes altas têm caixas d’água e contratam caminhões pipas para o abastecimento. Os pobres compram água no comércio informal pelas ruas. Inclusive a água potável para consumo.
O sistema de fornecimento de energia elétrica e telefone não funcionam. Quem tem dinheiro, compra geradores com base em combustíveis. Aqueles que não têm, vivem no ritmo do sol, que já está forte antes mesmo das seis horas da manhã. A escuridão é total nas ruas de Porto Príncipe à noite, pois não existem postes de luz.
Para o acesso ao telefone, tem a opção dos aparelhos de celular. Segundo estimativas, há mais de dois milhões na região metropolitana da capital. Aí se encontra a ponta de lança da propaganda privatista do capitalismo no Haiti: a empresa de telefonia Digicel.
Atualmente, ela é a maior empresa do país e faz uma campanha publicitária agressiva. Na página na internet, não há informações sobre a origem do seu capital, mas a direitoria é controlada por irlandeses. Nas ruas, outdoor com jogadores da seleção de futebol e artistas famosos. Muita gente usa a camiseta da empresa - distribuída quando se recarrega o celular. Nas praças, promoção de shows com grupos musicais de graça. No esporte, patrocínio à seleção de futebol do Haiti.
Na zona rural, onde está 61% da população, além desses problemas se somam a ausência de programas de fortalecimento da agricultura - como crédito, assistência técnica e meios de comercialização – além da importação de alimentos, que desvaloriza a produção interna.
No final das contas, o Haiti é a realização do projeto neoliberal, que aponta para a internacionalização econômica e política, sucateamento dos serviços públicos e enfraquecimento da indústria e agricultura nacional. O Haiti ainda não é aqui, mas com o avanço do neoliberalismo, pode-se vislumbrar um horizonte para as próximas gerações de brasileiros.
País segue ocupado por tropas da ONU
As tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) completaram três anos em junho e devem permanecer pelo menos até 2008. Elas atuam principalmente nas grandes favelas da capital, como City Soleil e Bel Air. Nas outras partes de Porto Príncipe e do país, a presença é residual.
O Haiti não se encontra em guerra civil declarada, mas em uma situação parecida com o Rio de Janeiro, com ilhas populosas de conflito. Na prática, a missão cumpre o papel de polícia no combate ao tráfico de armas e drogas. O maior problema do Haiti, no entanto, é o desemprego e a ausência de serviços públicos. O problema da violência caiu bastante, apesar do surgimento da prática do seqüestro.
A Minustah tem 8.800 funcionários efetivos no país, sendo 6.800 soldados. O Brasil, que lidera a missão, tem o maior contingente com 1.200 soldados. Outros 15 países participam da operação.
Marc Arthur Fils-Aime, diretor do Instituto Cultural Karl Levéque, analisa que é possível formar uma polícia haitiana com o investimento realizado na Minustah para garantir a segurança no país. No entanto, segundo ele, o objetivo é bloquear as reivindicações populares contra a política neoliberal.
O HAITI
Presidente - René Préval
Moeda - Gourde
Área - 27,750 km² (do mesmo tamanha que Alagoas)
População - 8,53 milhões (2005), sendo negros 95%; brancos e mestiços, 5%
Densidade demográfica 307 hab./km2
Idiomas -Crioulo e francês
Religião - Católica romana (80%), batista (10%), pentecostal (4%). O vodu,
um sincretismo religioso de religiões africanas com o cristianismo, é
praticada por quase a totalidade da população..
Expectativa de vida - 51,5 anos
Analfabetismo - 45,2% (2005)
Produto Interno Bruto – PIB - US$3,63 bilhões de dólares
Crescimento do PIB - -1,7% ao ano (1990-1998).
Saldo comercial -US$ 808 milhões (2004)
