Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Ana Cláudia Mielki e Ana Chã
Trabalhadores de todo o Mundo uni-vos. Esta era a palavra de ordem que se podia ler numa das faixas de maior destaque pendurada dentro da grande plenária do 5º Congresso. A frase remete para um dos princípios fundamentais que norteia o MST desde a sua fundação: a unidade e solidariedade entre os povos. Mas este lema foi também, junto com a bandeira permanentemente hasteada da Via Campesina Internacional, o símbolo da participação ativa dos cerca de 180 delegados, de mais de 31 países, de quatro continentes neste Congresso.
Hoje, talvez mais do que nunca, as alternativas ao modo de produção capitalista passam pela articulação cada vez maior da resistência e das lutas dos povos em todos os continentes. A Via Campesina Internacional entende que os inimigos do povo são os mesmo no mundo inteiro. Por isso, a luta passa pela solidariedade, só restando aos camponeses a formação, a mobilização permanente e a integração.
Uma delegação internacional, além de conhecer a realidade do povo brasileiro e captar experiências na luta pela terra, mostrou que mesmo muito longe do Brasil, é cada vez maior o número de movimentos populares que se organizam pela garantia da soberania alimentar, justiça social e contra o avanço do imperialismo.
Hajasoanirina Rakotomanndimby, membro da Coalition Paysanne de Madagascar (CPM), na África, se impressionou com o tamanho e a organização da atividade. “É incrível um Congresso tão grandioso, com a participação das pessoas, o compromisso, o trabalho voluntário, a participação de cada um em prol de um mesmo ideal, que é a Reforma Agrária”, afirma.
Madagascar é um país cuja população é predominantemente rural. O país realizou a Reforma Agrária logo na primeira república, instaurada após a independência da França, que aconteceu em 1960. Desde então, as terras pertencem ao Estado. Lá nenhum camponês tem título de posse. Em 2006 os movimentos sociais do campo elaboraram o Programa Nacional Fundiário, em que traçaram um panorama da situação da terra no país e estabeleceram as diretrizes para a regularização fundiária, a principal reivindicação dos campesinos da região atualmente.
Intercâmbio
Durante debate na Tenda Internacional o africano falou da realidade de Madagascar para alguns jovens que participavam do Congresso. “Nós fizemos uma comunicação com cerca de 100 jovens do MST falando um pouco da nossa realidade, na qual nós afirmamos que é preciso fazer uma cooperação, discutir, conversar para tentar encontrar um espaço com as pessoas políticas que apóiam o Movimento, para não aceitar desenvolvimento se os camponeses não têm terra”, afirmou.
Para João Palate, agricultor do sul de Moçambique e membro da União Nacional de Camponeses (Unac), participar do 5° Congresso Nacional no Brasil foi uma oportunidade maior de trocar experiências sobre formas de resistência. “Precisamos aprender mais dos conteúdos e das estratégias do imperialismo”.
No entanto, ao contrário de Madagascar, em Moçambique já houve a perda total do controle das sementes. “Temos sofrido calamidades climáticas como secas e então passamos a receber doações de sementes que não são nossas. Recebemos sementes que não se reproduzem”, conta.
Articulação Internacional
Assim como os africanos, que se articulam na luta pela terra, os europeus que participaram do 5° Congresso também trocaram experiências de resistência. É o caso, de Thomaz Schmidt*, que veio da Alemanha para participar da atividade. Sua relação com o Brasil, no entanto, é antiga. Ele esteve no país no início da década de 80 para formar-se em teologia, tendo estudado com nomes como Leonardo Boff.
Como padre, atua nas pastorais sociais da cidade onde reside na Alemanha. Também é sindicalista da sua categoria de metalúrgicos. O padre-operário, como ele mesmo se identifica, acostumou a viver em vários mundos e a dialogar com diversos segmentos. Atualmente ele organiza um grupo de amigos do MST na Alemanha que realiza, entre outras coisas, trabalho de divulgação, intercâmbios e atividades de solidariedade ao Movimento.
Schmidt conheceu a realidade do campo brasileiro devido aos diversos intercâmbios que fez para o Brasil, convidado pelos sindicalistas. “Nossos companheiros daqui falavam, que, para conhecer o Brasil, precisávamos conhecer o campo”. Uma experiência que para ele foi bastante diferente já que na Alemanha, a agricultura representa menos de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e, por conseguinte, menos de 1% dos postos de trabalho, se concentra na agricultura.
“Eu estaria muito contente se nós na Alemanha conseguíssemos realizar um congresso de 20 mil militantes de esquerda. O MST é um exemplo de capacidade de organizar os excluídos. É uma coisa fantástica, porque todo mundo sabe como atualmente está complicado organizar gente que está muito longe da política, desacreditada, não esperando mais nada de ninguém”, afirma o padre-operário.
Para Schmidt há um processo de rearticulação da esquerda e dos movimentos populares em todo o mundo. “Acabamos de voltar dos protestos de Rostock, do encontro do G8 vejo que esses processos paralelos aos grandes encontros dos políticos estão acumulando forças. A gente não espera que amanhã vamos começar a revolução, mas pelo menos, a gente existe e vai começar a formular, talvez melhor, o que a gente quer política, econômica, ecológica e socialmente, na Europa e no mundo”, completou.
* Veja entrevista completa com Thomaz Schmidt na sessão de entrevistas da página do principal do MST.
