Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Marcha Sem Terra percorreu Brasília para exigir Reforma Agrária
Por Nina Fideles
O V Congresso realizado em Brasília (DF), entre os dias 11 e 15 de junho, cumpriu seus objetivos. Confraternizou com as mais de 18 mil pessoas de 24 estados do país; apresentou pautas de estudo para um novo projeto para o Brasil e mobilizou. A marcha que saiu da nossa Cidade de Lona - que rodeava o Ginásio Nilson Nelson e o Estádio Mané Garrincha – rumou à Praça dos Três Poderes no dia 14 para cobrar responsabilidades. As bandeiras vermelhas cobriram o chão cinza da via de asfalto que levava os marchantes ao ponto final.
A saída, marcada para o começo da tarde foi pontual. O primeiro estado foi o do Paraná, que organizava o povo em três fileiras. As grandes filas em vermelho formaram quatro quilômetros. Bem no meio das delegações um carro de som animava o pessoal para a caminhada que somaria 15 quilômetros.
No caminho, ambulantes que já estavam no acampamento desde o dia 11 - quando vários militantes já haviam chegado à capital federal - acompanharam a marcha na esperança de vender ainda mais os seus produtos. Principalmente sorvetes e picolés no tempo quente e seco de Brasília.
Um sorveteiro achou ruim quando um motorista no trânsito engarrafado gritou: “Vão trabalhar!”, e admitiu “Antes a mídia mostrava vocês como um bando de desocupados. Hoje eu vejo vocês unidos, completamente simples e educados que investem naquilo que procuram e querem ser reconhecidos. A terra é nossa!”. E Reginaldo Souza, o sorveteiro, filosofa: “Eu pensava uma coisa e aos poucos vejo uma coisa completamente diferente quanto à união de vocês. Eu vejo vocês como formigas. Quando uma formiga solta a folha a outra pega e ajuda, e continua carregando”.
No trajeto...
Uma entrada à direita na pista e depois algumas voltas nos levaram à Embaixada dos Estados Unidos. A casa branca estadunidense no Brasil estava delimitada pela fita de isolamento e cercada por muitos policiais militares e alguns da cavalaria.
Nós passamos pela embaixada em meio às palavras de ordem, mas alguns caixões foram deixados bem em frente. Eles representavam as várias intervenções militares dos Estados Unidos em diversos países do mundo. Cada caixão de madeira levava uma faixa com o nome de um país e o número de mortos pelos militares.
Os policiais, depois da longa passagem de toda a companheirada, vistoriaram os objetos de madeira com substâncias desconhecidas e detectores de metal, para depois serem recolhidos. Na passagem, os militantes foram deixando também garrafas plásticas e lixo na frente da Embaixada.
Seguindo na marcha, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) também foi alvo. Uma faixa dizendo que Vale é Nossa! foi colocada na entrada do prédio para pressionar a decisão favorável à anulação da privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje, a segunda maior mineradora mundial. São mais de 60 ações populares que questionam o leilão da empresa no ano de 1997 , que foi vendida por 3,3 bilhões de reais, quando ela valia, aproximadamente, 100 bilhões de reais. Uma campanha articulada pela Assembléia Popular se prepara para realizar o plebiscito da Vale entre os próximos dias 1 e 7 de setembro.
A culpa é dos três poderes
Ao chegar à praça dos Três Poderes – o nome já diz – estão as representações dos três poderes do país: executivo, judiciário e legislativo. A faixa de 32 metros por cinco - pendurada na fachada de mármore com a frase de Juscelino Kubitschek, ao lado do seu busto coberto por uma bandeira do Che Guevara, dizia: “Acusamos os três poderes de impedir a Reforma Agrária”.
Segundo Gilmar Mauro, integrante da direção nacional do estado de São Paulo, o projeto proposto pelo MST e evidenciado na marcha questiona o caráter do estado brasileiro. “O nosso judiciário decreta as reintegrações de posse no dia seguinte das ocupações, mas depois de onze anos nenhum dos condenados de Carajás está preso. Está em discussão no Congresso, um projeto que determina que todas as áreas onde se encontra o trabalho escravo sejam desapropriadas e destinadas à Reforma Agrária. Este projeto está parado. Por fim, o poder executivo não faz a Reforma Agrária e por meio dos bancos públicos faz investimentos bilionários nas grandes empresas transnacionais e no agronegócio”, afirma ele.
E assim, depois de realizados os protestos durante a marcha e de marcarmos a presença na capital federal, os militantes rumaram de volta à Cidade de Lona, renovados pela mobilização popular para mais vários dias e anos de luta.
