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O agronegócio está no meio de nós

Por Christiane Campos e Daniel Cassol

O agronegócio não é um ente supremo, mas está encravado em todos os países pobres do mundo, esgotando os recursos naturais e explorando os camponeses. É assim no México, onde os sucessivos governos agem em benefício das grandes transnacionais, terra natal de Plutarco Emílio García, dirigente da Coordenadora Nacional Plan de Ayala (CNPA). Este mesmo modelo se repete em todos os países da América Latina.

Nesta entrevista ao Jornal Sem Terra, García analisa a disputa entre o agronegócio e a agricultura camponesa no mundo inteiro. “Nossa alternativa é fortalecer a agricultura camponesa, para garantir a soberania alimentar e evitar a fome”, diz.

Ele fez um pronunciamento, em nome da Via Campesina Internacional, na abertura do 5º Congresso Nacional do MST, em Brasília. “O tamanho do Congresso e o que ele representou politicamente é algo que se aproxima da utopia, que pode construir um movimento suficientemente forte, capaz de por as bases da sociedade que nós queremos”, afirma entusiasmado.

Leia à seguir a entrevista:

Jornal Sem Terra - De que forma o agronegócio está inserido no México?

Plutarco Emílio Garcia- As grandes empresas transnacionais têm sua vida facilitada pelo governo, que aprova ou implementa leis que, entre outras coisas, facilitam a privatização de empresas que estão na mão do Estado ou as compram de empresas mexicanas. Facilitam a privatização da terra, através de reformas constitucionais, além de conceder isenções fiscais às transnacionais para que invistam no México. Cada vez que o presidente da República viaja ao estrangeiro, primeiro visita os grandes países capitalistas. O chamado que faz é para que invistam no país, onde encontrarão todas as facilidades por parte do governo, matérias-primas e mão-de-obra barata e isenções fiscais. Este é o discurso levado pelos presidentes mexicanos.

JST - Em quais áreas do agronegócio as transacionais atuam mais fortemente no México?

PEG - Uma das facilidades oferecidas pelo governo mexicano é disponibilizar os recursos naturais ao menor custo possível. Um destes recursos é a água. Por isso, não é casual que a venda de água para o consumo humano esteja monopolizada por poucas transnacionais, como a Coca-Cola. Ela distribui maior quantidade de água engarrafada no país. Grandes fontes de águas minerais estão sendo exploradas pela Coca-Cola. O mesmo acontece com os minerais. Existem grandes empresas mineiras transnacionais, que estão explorando os recursos minerais ao mais baixo custo. Em relação às sementes, 40% do milho que consumimos no México - a maioria importada dos Estados Unidos - já é contaminado. O país aprovou uma lei sobre transgênicos, que permite às transnacionais cultivarem, experimental e comercialmente, sementes transgênicas. Isso é grave, houve muita oposição e debates no Congresso, mas a maioria, ligada ao Partido da Ação Nacional (PAN), em aliança com parte do Partido Revolucionário Institucional (PRI), impuseram essa lei. No meu país, já temos problemas graves de contaminação de milho transgênico, principalmente nos estados de Oaxaca e Puebla, mas as instâncias governamentais não fizeram nada para investigar o grau de impacto desta contaminação, em áreas tradicionais de cultivo de milho crioulo. Ao governo, não importa.

JST - Como os camponeses mexicanos estão reagindo?

PEG - Há movimentos por parte de organizações não governamentais e organizações camponesas, para denunciar e vigiar a introdução deste tipo de sementes. O que estamos fazendo é declarar alguns municípios mexicanos como áreas livres de transgênicos. É uma campanha que estamos desenvolvendo, mas tudo isso ainda é pouco. É preciso uma resposta mais forte, de mais impacto, porque de todas as maneiras a importação de milho transgênico vai continuar. O governo não vai se preocupar em reduzir a entrada deste milho no país. E agora, com o incentivo à produção de etanol a partir do milho, a situação pode piorar. As transnacionais já estão falando em instalar empresas produtoras de etanol no México. Por isso, vai se introduzir maior quantidade de milho, para atender estas empresas. Diziam que os camponeses teriam o grão por melhor preço, mas o preço das tortillas vem aumentando desde o ano passado. Por isso, a questão que se enfrenta hoje no México é a oposição entre produzir alimentos e produzir agrocombustíveis. E nossa luta vai ser dar prioridade à produção de alimentos.

JST - O caso do México, em que o governo beneficia as grandes indústrias, se repete em outros países pobres. Qual é o papel dos camponeses nesta situação?

PEG - Neste caso, a grande questão também está na disputa entre o agronegócio e a agricultura camponesa. Para nós, não há duvida, porque discutimos há muitos anos na Via Campesina e na Coordenação Latino-Americana das Organizações do Campo (CLOC) que a alternativa é fortalecer a agricultura camponesa, para garantir a soberania alimentar e evitar a fome. Neste sentido, acreditamos que a nossa tarefa é impulsionar a agricultura camponesa, como forma de sustentabilidade, de defesa da soberania alimentar e de construir na sociedade o tipo de produção e de alimentação que, de acordo com a nossa cultura, necessitamos. Assim como no Brasil isso está acontecendo, no México e em outros países da América Latina. Isso é importante para dar-nos base para um futuro intercâmbio, em termos de cooperação. No México, estamos procurando fortalecer os intercâmbios locais, nas comunidades. Como já disseram alguns intelectuais, a alimentação é um fenômeno local e, como tal, temos que partir do comunitário, para daí avançar.

JST - Da forma como está sendo incentivada a produção de agrocombustíveis, qual será o impacto para a agricultura camponesa?

PEG - Eu creio que um dos principais impactos está justamente na produção de alimentos. O processo de produção de agro-combustíveis não pode nos levar, novamente, aos monocultivos. Está sendo plantado milho, cana-de-açúcar e outros cultivos que são impulsionados pelas grandes empresas, induzindo as famílias camponesas a seguirem o caminho dos monocultivos. Isso vai prejudicar a soberania alimentar. Frente a esse impacto, temos que insistir na filosofia da agricultura camponesa, através dos policultivos, da produção de alimentos saudáveis, sem agrotóxicos. Já estamos fazendo isso. O desafio é não retroceder no que já estamos fazendo em alguns países.

JST - É possível pensar numa forma diferente de produção de energia, conciliada com a produção de alimentos?

PEG - Se as grandes empresas não monopolizarem a produção de agrocombustíveis, ou de qualquer outro tipo de energia, creio que o impacto não será tão prejudicial para os camponeses e para a população. Não se trata de uma posição fechada contra os agro-combustíveis. Eu creio que as organizações alternativas estão buscando formas de produzir energia que não afetem o meio-ambiente nem a nossa cultura alimentar. As novas formas de produção de energia, ecologicamente corretas, precisam ser incentivadas. Temos que explorar as possibilidades, mas não podemos aceitar que as transnacionais voltem a nos escravizar com os monocultivos, beneficiando o grande capital. Muitas empresas estão propondo se tornar sócias dos pequenos agricultores, mas sabemos que isso não acontece. As grandes empresas querem crescer e acumular com base na exploração dos camponeses.

JST - Qual será a estratégia de luta da Via Campesina Internacional para o próximo período?

PEG - Em primeiro lugar, uma das tarefas na qual a Via Campesina vai se fixar é estudar mais profundamente o caráter atual do capitalismo, a estratégia das grandes empresas transnacionais e como se comporta o capital em nível mundial. Isso vai definir a estratégia que a Via Campesina vai implementar frente aos agronegócio em nível mundial. Por enquanto, o que está claro é que precisamos seguir combatendo os cultivos transgênicos, denunciar os grandes monopólios que estão privatizando a água e esgotando os recursos naturais da terra. Outra linha das organizações camponesas do mundo inteiro será a defesa dos seus territórios, com tudo o que eles contêm. As comunidades indígenas e os camponesas, terão que defender o seu território, frente a projetos como o Plano Puebla-Panamá, cujo objetivo é se apropriar dos recursos naturais da América Central. Nós, da Via Campesina, precisamos defender a biodiversidade da América Latina.

JST - Existe dificuldade, entre os camponeses, de identificar quem é o nosso inimigo?

PEG - Eu creio que, de forma geral, são identificadas as grandes transnacionais e os governos que facilitam sua expansão. Porém, muitas vezes, os movimentos sociais não têm completo conhecimento de que empresas transnacionais estão nos seus países e em que ramos da produção estão atuando. Se estão atuando, por exemplo, na exploração de grãos, na transformação de produtos primários, em que partes, em que amplitude. Isso não conhecemos, muitas vezes porque as transnacionais estão disfarçadas de empresas menores, sem nos darmos conta de que estas empresas são seus tentáculos. Esta é uma tarefa de investigação que precisamos empreender.

JST - O agronegócio utiliza o discurso do desenvolvimento, do progresso, e com isso consegue inserção nas universidades, nos meios urbanos. Os camponeses seguirão sozinhos nesta luta?

PEG - A luta contra as transnacionais deve ser feita desde a perspectiva dos produtores, mas também na perspectiva dos consumidores. Isso é muito importante. Mas as empresas são muito hábeis, usam muitos artifícios para se inserirem na sociedade. Por isso é fundamental a investigação. Há uma empresa que distribui, supostamente, alimentos dos camponeses do mundo inteiro, a Starbucks. É uma transnacional, mas suas promoções falam que os produtos vêm dos camponeses de Chiapas, dos cooperativistas, do Brasil, da Colômbia. Isso é um grande engodo. É uma forma hábil de aparecer como uma empresa que apóia os pequenos agricultores e comercializa produtos sadios. Mas não podemos crer no que eles dizem, afinal, como eles conseguiram estar em todo o mundo?

JST - Em questões como os transgênicos, que avançam a cada dia, será possível reverter esta situação?

PEG - Já fui questionado se não era ingênuo combater os transgênicos e trabalhar pela sustentabilidade, frente a este sistema mundo, que nos sufoca. Mas temos que fazer algo, com a consciência de que temos a capacidade de criar o novo, de construir uma nova agricultura. Somos mais, mas temos que ter consciência de nos organizarmos, desde o local até o internacional. Aí que reside a esperança.

"Não podemos aceitar que as transnacionais voltem a nos escravizar com as monoculturas."

Quem é:
Educador e historiador, Plutarco Emílio García atua no estado de Morelos, na região central do México. Integra a Via Campesina Internacional como dirigente da Coordenadora Nacional Plan de Ayala, entidade quee congrega dezenas de organizações camponesas mexicanas. Também contribui no conselho consultivo da Universidade Camponesa do Sul (UniCam – Sul), criada pelos movimentos sociais do países para a formação técnica e política dos camponeses.

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