Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Os frutos da terra que alimentam o povo brasileiro
Durante o 5º Congresso, feira da Reforma Agrária mostrou a diversidade e os produtos da luta pela terra de todos os cantos do país
Por Carla Cobalchini e Marcus Pedroso de Souza
“O objetivo da gente é terra pra trabalhar. Faço artesanato e também trabalho na roça”. A declaração do Mestre Tonho de Sergipe resume o que foi a Feira da Reforma Agrária no 5º Congresso do MST: produção e diversidade. Cada canto do Brasil, representado pelos 24 estados onde o Movimento está organizado, trouxe o cheiro, o sabor e o som do trabalho e da vida dos Sem Terra.
Durante os cinco dias do Congresso, além da exposição permanente de produtos para venda e divulgação, a Feira contou com uma programação cultural intensa marcada por apresentações artísticas e manifestações folclóricas de cada região: era forró, feijão tropeiro, rendas, casa da farinha, camisetas, festa da colheita, licor de jenipapo e muito mais. A celebração do trabalho, da luta e da conquista da terra estava contida em cada produto ou alimento trazido para as tendas das cinco regionais dispostas ao redor do Ginásio Nilson Nelson: sul, sudeste, centro-oeste, nordeste e região amazônica.
A Feira da Reforma Agrária foi uma construção principalmente do setor de produção, cooperação e meio ambiente e do setor de cultura do Movimento. Ela acontece em eventos e espaços nos estados. “A proposta é mostrar para a sociedade que nós estamos produzindo”, afirma Joelma Gomes de Queiroz, da Brigada Teixeirinha do Paraná e coordenadora da Feira no V Congresso. Ela conta que a preparação começou bem antes, com a organização de cada estado reunindo os produtos que traria para comercializar e divulgar. Segundo Joelma, as expectativas foram superadas porque trouxeram mais produtos do que o previsto, o que possibilitou mostrar os diversos tipos de produção dos acampamentos e assentamentos.
A preocupação com a diversidade está relacionada diretamente à questão da soberania alimentar. “A prioridade é produzir primeiro para o consumo, para se alimentar, a outra tarefa é abastecer o mercado interno. Enquanto agricultura familiar, temos condições de abastecer o país. Hoje, no Brasil, 70% do alimento consumido é produzido nas pequenas propriedades”, conta Hermes Cipriano Oliveira, do Rio de Janeiro. Enquanto isso o agronegócio abastece o mercado externo. No caso da soja, 90% da produção é exportada para ser transformada em ração para animais. “Nós não, nós produzimos para colocar aqui, pra vender aqui, então o único que pode garantir a soberania alimentar no Brasil é a agricultura familiar, e ela só existe no Brasil hoje se tiver a Reforma Agrária, não tem outro caminho” conclui Hermes.
Livres de contaminação
Além da diversidade, os alimentos trazidos à Feira tinham outra finalidade: mostrar que é possível produzir, nos assentamentos e acampamentos, alimentos com qualidade através da agroecologia, sem transgênicos, sem agro-químicos e que são, acima de tudo, fruto do trabalho coletivo. Trabalho coletivo, que pôde ser encontrado numa tenda especial, erguida com madeira, coberta de palha e enfeitada com marajoara, o boi, guaraná e castanhas: a tenda amazônica. A paraense Mirian Farias da Silva, do Assentamento 17 de abril, destaca que os produtos foram produzidos coletivamente, como os bombons feitos pelo grupo de mulheres. No Pará, o movimento faz oficinas para qualificar a produção na questão da higiene e do melhoramento do produto.
Produção agroecológica e auto-sustentabilidade são práticas cada vez mais valorizadas nos assentamentos e acampamentos do MST, o que foi possível perceber facilmente na Feira da Reforma Agrária. Os rondonenses Oeliton de Souza e Cláudio dos Santos entendem que o exercício proporcionado pela Feira mostra que na prática é possível um novo modelo de produção e comercialização voltado para as próprias comunidades. O pó de babaçu, trazido para exposição na feira, tem alto valor nutricional e é utilizado na alimentação das crianças Sem Terra em Rondônia. As cooperativas também foram apontadas como estratégicas para inserção do resultado da reforma agrária na sociedade.
No sul, erva-mate, frutas, leite, produtos das cooperativas, espetinhos e muito vaneirão com direito a bombacha e gaiteiro. No sudeste, remédios fitoterápicos, melado, rapadura e demais derivados da cana, resquícios dos quase quinhentos anos de monocultura, assim como o café. Muito samba, rap e variedade. No centro-oeste, farinha, roupas e muito artesanato feito com lixo reciclável. No nordeste a animação, noites culturais marcadas pelo forró, samba de roda, xaxado, biju, acarajé e o licor de jenipapo. Na Amazônia, bumba-meu-boi, cerâmica marajoara e mais de cem quilos de polpa de frutas nativas, como o cupuaçu e o açaí, ajudaram a refrescar os dias quentes de Brasília.
Depois dessa viagem pelo Brasil proporcionada pela Feira da Reforma Agrária, a militância Sem Terra voltou para seus assentamentos e acampamentos repletos de esperança e idéias que potencializem seu trabalho. E no meio de tudo isso cultivam sonhos. Como os sonhos de Mestre Tonho, o artesão alagoano de nascimento e sergipano de criação, que transforma madeira em belas esculturas de personagens nordestinos, tão vivos na sua arte. “Meu sonho é ensinar os Sem Terrinha a fazer artesanato em madeira. E aquele que não obedece nem o pai, nem o professor, eu quero incentivar a aprender a ler, a fazer arte em madeira, para ele viver a vida dele. Aprendi essa arte debaixo de uma lona”, revela emocionado.
