Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Milhares de camponeses de diversos estados brasileiros participaram da IV Festa Nacional das Sementes Crioulas (Fenamic), que aconteceu de 18 a 22 de abril, em Anchieta (SC). O evento, que acontece a cada dois anos, é coordenado pela Via Campesina, Centro de Apoio aos Pequenos agricultores (CAPA), Paróquia Santa Lúcia e o Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Sintraf).
A Fenamic faz parte da campanha internacional "Sementes: Patrimônio dos Povos a Serviço da Humanidade" lançada pela Via Campesina Internacional, durante o Fórum Social Mundial 2003. A campanha defende a preservação das sementes sadias e o combate à manipulação, ao monopólio e à imposição das sementes transgênicas. Além de defender as famílias de agricultores, que por séculos cultivam diversas espécies de sementes.
Para os organizadores, a Fenamic é um espaço de encontro e promoção das sementes e raças animais crioulas, e também das diversas manifestações que caminham na construção de um projeto de desenvolvimento do campo e da sociedade.
De acordo com um dos coordenadores da Fenamic e dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Eloe Schveizier, o objetivo é mostrar à sociedade a cultura camponesa e a importância da agroecologia. "Queremos também criar um contraponto da agricultura camponesa e o agronegócio. Vamos mostrar um outro modelo de agricultura, baseada no respeito ao meio ambiente e ao ser humano”.
A atividade reuniu mais de 50 variedades de sementes crioulas vindas de todo o país. Algumas foram vendidas, outras trocadas e as mais raras expostas. Além da exposição de sementes crioulas, plantas medicinais e artesanato, a festa teve apresentações de dança, teatro e música.
Rosângela Cordeiro, da Via Campesina e Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), explica que o trabalho de resgate e preservação das sementes é milenar e importante. “Nos últimos 40 anos, os brasileiros deixaram de consumir 30 diferentes tipos de cereais e, hoje, consomem, basicamente, cinco: arroz, feijão, milho, trigo e soja. Nossa capacidade de alimentação diminuiu. Isso é preocupante", avalia. Para ela, é preciso continuar lutando contra o atual modelo de agricultura e contra os transgênicos. "Eles são uma ameaça à soberania alimentar, trazem a redução da biodiversidade e das sementes crioulas".
Formação
Antes da festa, o II Encontro de Formação Camponesa, realizado entre 18 e 20 de abril, reuniu dois mil agricultores de todo o país e também da América Latina, Europa e Ásia. Durante os três dias foram debatidos temas como a soberania alimentar, meio ambiente, Reforma Agrária, agroecologia, transgênicos, entre outros. Entre os palestrantes, o geneticista Rubens Nodari; a assessora jurídica da Terra de Direitos, Maria Rita e o professor de agroecologia da Universidade da Flórida, Miguel Altiere (leia box com entrevista).
Para o professor, os camponeses, com o resgate das espécies crioulas, são os únicos que podem deter o avanço dos transgênicos. "A agricultura familiar é muito importante para o mundo. Com apenas 20% das terras, ela é a responsável pela alimentação mundial", explica.
