Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
O esforço para a realização do trabalho de base, organização e mobilização valeu a pena e o MST fez uma grande jornada de lutas em abril para cobrar a Reforma Agrária e o assentamento das 140 mil famílias em seus acampamentos pelo país. As manifestações também marcaram os 11 anos do Massacre de Eldorado de Carajás, no Pará.
Em 23 estados, a jornada mobilizou mais de 16 mil famílias, que fizeram 81 ocupações de terras, protestos em prédios públicos e rodovias, marchas do campo à cidade e manifestações com setores urbanos para ampliar o diálogo com a sociedade brasileira sobre a ausência de um programa efetivo de democratização do acesso à terra.
Os protestos conseguiram mostrar à população que a questão agrária ainda não está resolvida e mais de 230 mil famílias de diversos movimentos continuam acampadas. O MST defende a implementação de uma série de políticas no meio rural para garantir a resolução dos problemas dos pobres do campo.
“Foi uma das maiores mobilizações que fizemos a nível nacional, tanto pelo volume de atividades quanto pela diversidade de protestos em todas regiões do país. Conseguimos pautar o debate da Reforma Agrária na sociedade”, diz a integrante da coordenação nacional do MST, Marina dos Santos.
As ações questionaram também os efeitos do agronegócio, que desde a metade da década de 90 agrava a situação dos camponeses, com oferecimento dos menores salários da sociedade, abuso da superexploração e uso até trabalhadores em situação de escravidão e destruição da biodiversidade.
A denúncia dos impactos sociais e ambientais da expansão da monocultura de eucalipto, com a ocupação da empresa Suzano Papel e Celulose, no dia 08, no interior de São Paulo, marcou o começo da jornada, que se estendeu até o final do mês por todo o país.
O integrante da direção nacional do MST, Vanderlei Martini, avalia que a posição do Palácio do Planalto diante das ações foi de isenção, mas declarações de integrantes do governo penderam para a criminalização.
“Os chefes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e do Ministério do Desenvolvimento Agrário tiveram um comportamento muito ruim: atacaram as nossas ações e pauta e defenderam um programa inexistente do governo Lula”, critica.
Entre os maiores protestos, está a ocupação por 800 camponeses de nove andares do prédio nacional do Incra, em Brasília. Participaram também do protesto pela lentidão das desapropriações a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais (MTR).
O MST em São Paulo conseguiu mobilizar acampados por todo o estado e fez 19 ocupações de terra, 15 protestos em prédios públicos e agências bancárias, quatro manifestações em rodovias e três marchas para cobrar o assentamento das 3.000 famílias acampadas.
Foi realizado também protesto no Tribunal de Justiça em Ribeirão Preto para denunciar a demora do Judiciário para assinar as imissões de posse das áreas desapropriadas. Sem a autorização, o Incra não pode concluir a criação dos assentamentos.
No Paraná, cerca de 3.000 lavradores liberaram a passagem dos motoristas sem pagamento de pedágio para denunciar os efeitos que a cobrança encarece os produtos agrícolas, prejudicando os produtores no campo e os consumidores nas cidades. De 27 praças de pedágio, 25 foram liberadas em ação que durou dois dias.
Em Santa Catarina, 500 famílias de agricultores denunciaram o avanço do agronegócio sobre terras públicas com a ocupação de 10,5 mil hectares de área do Exército brasileiro, no município de Papanduva, onde estão as terras mais férteis do estado.
Apesar de alegar que usa o espaço para treinamento, parte das terras da fazenda foi arrendada para o agronegócio da soja e o restante está improdutivo. Com a ocupação, o MST conseguiu abrir negociação com o Ministério da Defesa e com o Ministério da Secretaria-Geral da Presidência da República.
Na Bahia, 5.000 pessoas caminharam 110 quilômetros em grande marcha de Feira de Santana até Salvador. Durante uma semana de caminhada, os Sem Terra baianos denunciaram a impunidade no campo e pediram Reforma Agrária aos governos estadual e federal. No dia 17, foram recebidos em audiência pelo governador Jaques Wagner, que colocou o boné de MST em ato público em Salvador.
Mais de 1000 trabalhadores do MST do Maranhão e do Piauí, junto com outros movimentos da Via Campesina, ocuparam o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica no município de Estreito (MA), em protesto contra a expulsão de camponeses e indígenas da região e os impactos ambientais da obra.
Com a resistência do acampamento por 10 dias, as obras da usina ficaram paradas até o fechamento desta edição. A ação recebeu apoio de sindicatos, estudantes, Igreja e políticos locais. Até fazendeiros e empresários declararam solidariedade aos manifestantes.
Segundo dados oficiais, a obra vai atingir a população de 11 municípios, dos dois estados mobilizados, e obrigar o deslocamento de 5.000 pessoas. Os indígenas de terras situadas na bacia do rio Tocantins também serão prejudicados.
Governadora indeniza vítimas do massacre em Carajás
Em ato público, a governadora do Pará Ana Júlia Carepa (PT) reconheceu a responsabilidade do Estado e assinou decreto que indeniza as vítimas do Massacre de Eldorado de Carajás, que deixou 19 mortos em 17 de Abril de 1996.
As famílias dos mortos e 36 sobreviventes poderão receber pensões mensais vitalícias, que serão de até R$ 570. “Reparo uma injustiça, reconhecendo a responsabilidade do governo do Estado”, disse Ana Júlia.
No Pará, os lavradores fizeram ato em Eldorado de Carajás e montaram acampamento com mais de 1000 pessoas na cidade de Belém. Com diversas místicas, os agricultores protestaram contra a violência no campo e exigiram a punição dos acusados do massacre.
No massacre que chocou o Brasil, foram indiciados 144 policiais. Até agora, ninguém está preso. O processo do major José Maria Pereira (154 anos de prisão) e o coronel Mário Collares Pantoja (228 anos), comandantes da operação policial, está parado nos tribunais superiores e ambos continuam em liberdade.
Na luta por uma nova sociedade
Pedro Martins da Silva, de 77 anos, foi um dos participantes da jornada de lutas de abril do MST. Nascido em Canavieiras, no litoral sul da Bahia, saiu da terra natal junto com dois primos para conhecer a cidade de Santos, no litoral de São Paulo.
Junto com 250 famílias, participou da ocupação de área de 2.000 hectares de monocultura de cana em Limeira, no interior de São Paulo. Como recebe um salário mínimo de aposentadoria, aposta que a vida vai melhorar no assentamento.
Depois que saiu da Bahia ainda jovem, viveu um tempo no Rio de Janeiro e seguiu com o sonho de pisar na areias de Santos, que conseguiu concretizar depois de muita insistência.
Sem condições de voltar para casa, passou a trabalhar de pedreiro no começo da década de 60. Conheceu a sua mulher e mudou para a região de Campinas, onde vive até hoje. Levou a vida pesada nas obras até o ano passado, quando se aposentou.
O tempo passou, mas ainda guarda as lembranças de Canavieiras. Segundo ele, “uma terra onde tudo dá”: coco, laranja, abacaxi, mandioca, milho, banana... Pedro tem agora na cabeça o plano de voltar às origens rurais e viver em um assentamento.
"Quero plantar laranja, maracujá e mandioca", diz. A teimosia já o levou à ocupação de um latifúndio. A partir de agora, pelo histórico, pode-se esperar que o obstinado Pedro continue na luta até realizar o seu sonho: conquistar a terra para produzir alimentos.
