Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Christiane Campos *
De Nairobi, Quênia
Para que e para quem estamos realizando o Fórum Social Mundial? Estas foram algumas das perguntas que ficaram na cabeça de quem participou do VII FSM, realizado em Nairobi, capital do Quênia, país do leste da África, entre os dias 20 e 25 de janeiro.
Quando se iniciou o Fórum em 2001 no Brasil, em Porto Alegre, um dos objetivos era mostrar que a maior parte da população mundial vive insatisfeita com o sistema capitalista e acredita em transformações. Outro grande objetivo era ser um espaço para articulações entre as várias forças sociais criando uma agenda internacional de lutas.
Não há dúvida que foi fundamental realizar o Fórum Social na África, um dos continentes onde o imperialismo se manifesta das formas mais cruéis. Mas, infelizmente nenhum dos objetivos iniciais foi atingido em Nairobi. Foi um Fórum esvaziado, com poucos participantes de países pobres, especialmente africanos. As maiores delegações internacionais vinham dos Estados Unidos e França. Segundo o comitê organizador, havia 46 mil inscritos, mas a imprensa divulgava entre 15 e 20 mil participantes, e de fato quem estava lá viu que, neste caso, a mídia divulgou números reais.
A Assembléia dos Movimentos Sociais, que ocorreu em 24 de janeiro, avaliou que o Fórum teve um caráter mercantilista e excludente, pois foi “a portas fechadas”. Os preços de ingressos, alimentação e transporte para chegar ao local eram muito elevados, especialmente para a população queniana. Os movimentos também criticaram a excessiva presença de policiais fortemente armados e o fato do Fórum ter recebido financiamento da maior empresa de celular do país, a Certel.
Alguns membros do comitê organizador avaliam que o Fórum foi vitorioso só de ter ocorrido na África. Entretanto, do jeito que está, o FSM tende a ser um espaço para se discutir a pobreza sem a presença dos pobres. Para evitar isso, a Via Campesina propõe que o FSM seja realizado a cada 3 anos e nesse intervalo de tempo ocorram reuniões continentais e jornadas de luta internacionais, pois é nos processos de luta que se constrói as transformações sociais e se forjam as lideranças populares.
Sobre o Quênia
O cenário do Fórum era extremamente adequado para debater as conseqüências do capitalismo e reafirmar a necessidade de se lutar por um outro mundo. O Quênia é um país que foi colonizado pelo império britânico no fim do século 19 e só se tornou independente em 1963 após sangrentas lutas. Depois da independência o país conviveu com governos ditatoriais, corrupção das elites e dominação da economia por grupos estrangeiros. O resultado desta combinação: muita desigualdade social, econômica e dominação cultural.
O país tem cerca de 40 milhões de pessoas, quase 60% vivendo abaixo da linha de pobreza, com uma renda de menos de 1 dólar (2 reais) por dia. Nessas condições, chegar aos 60 anos de idade é privilégio de poucos. Assim como em outros países africanos, junto com a pobreza cresce os casos de AIDS. Estima-se que 15% da população adulta tenha o vírus HIV. Mas as crianças não estão imunes. Uma grande quantidade delas nasce com o vírus, pois são filhos de pais e mães infectados. A prevenção da AIDS é dificultada pela precariedade dos serviços de saúde, pela falta de informação das pessoas, pelo analfabetismo, pelo moralismo religioso e pelo preconceito. Para se ter idéia, no Quênia, como em outros países africanos, a homossexualidade é punida com prisão.
Nairobi, a capital, é um dos lugares onde a desigualdade se manifesta de forma mais explícita. Enquanto poucos vivem em bairros nobres em grandes e luxuosas, a maioria da população se espreme nas favelas. O exemplo mais dramático é Kibera, a maior favela do país onde vive, ou melhor, sobrevive quase 1 milhão de pessoas em uma área de 1 quilômetro quadrado. (CC)
Via Campesina lança campanha na África
Por Suzane Durães
De Nairobi, Quênia
A Via Campesina Internacional lançou no FSM, a Campanha Africana pela Reforma Agrária. A Campanha teve inicio em 2006, em Porto Alegre, durante a Conferência sobre Reforma Agrária da Organização da Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO). “Inicialmente a ação envolveu os latino-americanos e agora é a vez de envolver os africanos. Brevemente serão os asiáticos”, contou o coordenador da Campanha, o hondurenho Rafael Alegria.
De acordo com Alegria, o foco principal é o combate à fome no continente africano. “Estamos convencidos que avançamos na América Latina e agora esse exemplo pode ser seguido na África. Temos que avançar neste continente e uma das primeiras coisas a fazer para combater essa miséria é a recuperação dos recursos naturais (água, terra, sementes, minas) a favor do povo”.
Segundo os dados da Via Campesina, só na África do Sul existe cerca de 15 milhões de sem terra. Cerca de 70% da população são agricultores. “A Reforma Agrária é um dos únicos meios para acabar com a pobreza e com a fome no continente.", afirma o coordenador.
A Via Campesina defende que os conceitos de reforma agrária e soberania alimentar são de todos, não só de indígenas e camponeses. Dessa forma, a organização tem buscado alianças com outras organizações e movimentos sociais para a construção de um grande e poderoso movimento popular na América Latina, África e Ásia.
Para o coordenador da Via Campesina na África e dirigente da União Nacional dos Camponeses de Moçambique (Unac), Diamantino Nhampossa, a Campanha também tem como objetivo resistir aos efeitos das diretrizes do Consenso de Washington com sua política de privatizações de setores essenciais como o de água, energia e terra. “Nos últimos 15 anos, o processo de privatização e de implantação do modelo de monocultura tem se acelerado, o que tem levado os movimentos do campo a debater sobre formas de resistência à implantação do modelo agroexportador e privatizador da terra”, defende Nhampossa. Ele destaca que é preciso mobilizar e incentivar o povo a lutar por seus direitos e lembra da crueldade da colonização e a luta pela libertação do povo africano. No encerramento do evento, houve a entrega de sementes crioulas de milho maia enviadas pelos zapatistas do México para camponeses e camponesas da África.
