Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Recentemente tem surgido diversas notícias sobre a expansão do modelo produtivo do agronegócio em nosso país. Novos investimentos em fábricas de papel e celulose, que demandam o aumento da área plantada com pinus e eucalipto. Novas usinas de álcool e biodiesel geram um verdadeiro mar de cana e de soja em monoculturas por todo o Brasil. Novas variedades de produtos transgênicos resistentes a herbicidas ou ao ataque de pragas.
Essas notícias são apresentadas pela grande imprensa como se fossem fatos positivos para o povo brasileiro. Prometem maravilhas, mas escondem a sua sujeira embaixo do tapete. Ocultam os interesses do capital e das grandes empresas, que buscam a dominação sobre a classe trabalhadora e a natureza. O capital, além de lucrar com a exploração do trabalho, quer agora expandir seus lucros a qualquer custo, via a exploração destrutiva dos recursos naturais.
Este modelo de agricultura é o mesmo que produziu a exclusão social com a expulsão de milhões de famílias camponesas para as favelas, o que gerou fome e miséria no campo e na cidade, além de promover a destruição da natureza. Este sistema ainda mantém trabalhadores escravos, resultando em mortes por excesso de trabalho nos canaviais e deixando sequelas em operárias com lesão por esforço repetitivo devido às condições desumanas de trabalho nos frigoríficos. Nossos rios estão sendo contaminados e até fontes subterrâneas de água vêm sofrendo com a poluição por agrotóxicos. O desmatamento dos Cerrados e da Amazônia só faz aumentar, contribuindo para o aquecimento global e a perda da biodiversidade. É esse o modelo que dizem ser benéfico para nosso povo.
Alternativa
Precisamos resistir à essa destruição, à exploração dos seres humanos e da natureza pelo capitalismo. Resistir e buscar construir alternativas nas várias frentes de luta. É por isso que há alguns anos o MST desenvolve a agroecologia em seus assentamentos. A agroecologia é uma ciência e uma prática social que desenvolve formas de produzir a agricultura sem destruir a natureza.
Já sabemos que a produção agroecológica é capaz de reduzir os custos de produção, diminuindo os riscos para o pequeno agricultor e para o meio ambiente. Já formamos mais de dez turmas de filhos e filhas de agricultores como técnicos em agropecuária agroecológica. Implantamos experiências de pesquisa participativa gerando conhecimentos ecológicos para solucionar os problemas enfrentados pelas famílias de trabalhadores rurais, sem necessitar do uso de venenos e adubos químicos. Além disso, colocamos à disposição da população dezenas de produtos livres de agrotóxicos e que contribuem para a saúde da população e do meio ambiente: arroz, leite, carne, feijão, erva-mate, farinha de mandioca, hortaliças.
Mas acima de tudo, entendemos que a agroecologia é uma forma de organizar os agricultores em busca da mudança social, que propõe um novo modelo de sociedade onde homem e natureza possam se relacionar sem exploração.
No entanto, o principal desafio que temos pela frente não é tecnológico. Já sabemos que é possível produzir em quantidade e sem o uso de agroquímicos, transgênicos e sem novos desmatamentos. Mas para isso temos que nos unir e nos organizar no enfrentamento ao modelo representado pelo agronegócio. Não há como transformar a agricultura brasileira com base na agroecologia e na justiça social sem derrotar o latifúndio, o agronegócio e o capitalismo.
Direção Nacional do MST
