Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
As conseqüências do agronegócio e da monocultura já são velhas conhecidas das famílias camponesas que lutam diariamente para tirar seu sustento da terra. O avanço do capitalismo no campo, além de expulsar os trabalhadores da terra, degrada o solo, contamina rios e espalha desemprego e pobreza para a população rural.
Entretanto, as famílias assentadas resistem e estão, cada vez mais, mostrando que existe uma possibilidade viável de produção que traga ao mesmo tempo, auto-sustentação e venda das famílias sem prejudicar o meio ambiente e, em muitos casos, recuperando o que a monocultura e o agronegócio destruíram por longos anos.
Esta é a melhor maneira de mostrar para a sociedade que os sistemas agroecológicos devem ser defendidos sempre. Nesta edição, o Jornal Sem Terra destaca algumas destas experiências que estão se desenvolvendo na região do Pontal do Paranapanema, região oeste de São Paulo, e no Paraná. São exemplos que podem e devem ser aplicados em todo o país, como uma forma de levar dignidade à população rural, com respeito à natureza. Afinal sem ela, nenhum tipo de vida será possível.
O resgate da biodiversidade no Pontal
A partir do processo de desapropriação das terras na região do Pontal do Paranapanema os assentados se depararam com um alto grau de degradação do solo, o que dificultou obter bons índices de produtividade no início. Foi daí que começou a luta dessas famílias para produzir e recuperar, gradativamente, essas terras.
Diante dessa realidade o MST na região do Pontal do Paranapanema tem buscado parcerias com universidades, instituto de pesquisas e associações da sociedade civil da região, para estimular o desenvolvimento de projetos que tenham como enfoque o resgate da agrobiodiversidade.
Nasce com isso as experiências de resgate da agrobiodiversidade através da implantação de
doze unidades de áreas demonstrativas em sistemas agroflorestais. O que inclui o maior número de plantas condimentares, medicinais, frutíferas tropicais e nativas, café, arvores exóticas e nativas para utilização da madeira, lenha e principalmente a segurança alimentar.
Esses projetos estão contribuindo para uma crescente mobilização social das famílias assentadas, principalmente na capacidade da inserção de mulheres, jovens e crianças, que contribuem com a reestruturação da biodiversidade na região, mudando a paisagem através da reposição da flora e da fauna, garantindo alimentos para a segurança alimentar, produzidos ecologicamente e ambientalmente sustentáveis. “Estamos criando nossos filhos com base no respeito à biodiversidade, à terra. Este trabalho também nos ajuda na organização das mulheres. Além disso, consumimos alimentos saudáveis”, afirma a camponesa Claudete Aparecida de Lima, do assentamento Laudenor de Souza.
Sustento e qualidade de vida nos assentamentos
Buscando conciliar sistemas agroflorestais com a produção de alimentos e sustento familiar, as familías assentadas da Cooperativa Central de Reforma Agrária (CCA), do Paraná estão desenvolvendo várias iniciativas voltadas à agroecologia, no município de São Jerônimo da Serra, na região norte do estado.
As famílias camponesas implantaram experiências em sistemas agroflorestais, café sombreado, viveiros de produção de mudas, entre outros. Os agricultores contam com o Centro de Formação Popular em Agroecologia, um espaço didático e pedagógico, que funciona como referência para a implantação de unidades demonstrativas em agroecologia. O centro está localizado no assentamento Paulo Freire, dentro do município.
No local foi construído um viveiro de mudas, com capacidade de produção de 100 mil mudas por ano. O trabalho, parceria com o Projeto Iguatu e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), já produziu cerca de 30 mil mudas, distribuídas para implantação de sistemas agroflorestais nas unidades familiares. “O viveiro é um espaço onde as pessoas aprendem a fazer suas próprias mudas. Os próprios assentados que trabalham com a produção delas”, comemora a engenheira florestal, Priscila Monerat de São Jerônimo da Serra.
Os assentados também trabalham com experiências de café sombreado e adubação verde. Uma unidade demonstrativa está em fase de implantação no Centro e outras já foram implantadas em alguns lotes. A assentada Rosane Fátima de Ramos, do assentamento Paulo Freire, explica que a família também trabalha com campos de adubação verde para melhorar a terra e produz tudo de forma agroecológica. “A adubação verde ajudou a corrigir a erosão, melhorou bastante a umidade na terra, conservando, produzindo melhor e segurando bem o mato. Quando não plantamos, a terra está sempre coberta com algum tipo de adubação verde”.
O agricultor Lazir dos Santos, do assentamento Paulo Freire, de São Jerônimo da Serra, que também usa a adubação verde, aponta outras vantagens desta prática. “A adubação verde trata a terra, capta nitrogênio e elimina os gastos. Você colhe um alimento com mais qualidade e os bichinhos da terra voltam a conviver com a planta”, ensina.
A parceria conta também com a capacitação de assentados e assentadas que se tornam agentes multiplicadores e repassam o conhecimento da agroecologia à outras famílias. A agricultora Rosa Soares, do assentamento Arixiguana, conta que no início não entendia muito bem o trabalho de multiplicadora, mas logo percebeu a importância de cuidar da terra e da natureza. “Quando comecei a trabalhar como multiplicadora, não sabia o que era isso. Mas daí vim a saber que a multiplicação é a troca de sementes, o cuidado com a árvore, com a água. Hoje é muito bom a gente cuidar da natureza, proteger o solo, e tirar o sustento da terra”, afirma.
