Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
A Coréia do Sul conta com uma população de 48 milhões de habitantes, sendo apenas três milhões de camponeses. O número já foi bem maior. Há dez anos eram mais de seis milhões. A migração intensa do campo para a cidade é reflexo do estrago que a política agrícola da OMC (Organização Mundial do Comércio) está causando no país. A principal característica dessa política é abertura indiscriminada do mercado interno, o que prejudica a pequena produção, que não consegue competir com os produtos estrangeiros.
“A auto-suficiência da Coréia do Sul na produção de alimentos é apenas de 24%, incluindo a produção de arroz. Excluído o arroz, fica só em 5%. Antes da abertura do mercado, ela chegava a 70%”, relata Hyonhgseok Hong, integrante da KPL (Korean Peasants League / Liga Coreana de Camponeses), organização que faz parte da Via Campesina Internacional. Ele veio ao Brasil em novembro para participar da assembléia da OWINFS (Our World is Not For Sale / Nosso Mundo Não Está à Venda), rede internacional contra a OMC e as políticas de livre-comércio. “Depois da abertura do mercado agrícola na Rodada do Uruguai da OMC (em 1993), a importação cresceu muito, especialmente de frutas e vegetais da China. Agora, o preço varia conforme a demanda. Quando algum alimento está em alta, muitos agricultores produzem apenas ele. Isso gerou um endividamento massivo, fazendo com que metade dos pequenos produtores deixasse o campo”, completa Hong. Os números comprovam o relato: enquanto a dívida dos camponeses subiu, a renda diminuiu em cerca de 15%. O índice de jovens no campo também caiu. Apenas 0,2% dos camponeses têm menos de 30 anos.
O combate a esse quadro desolador é a principal luta da KPL. Em 2005, os camponeses fizeram grandes mobilizações e foram duramente reprimidos. A maior delas foi em dezembro, durante a 6ª Conferência Ministerial da OMC, em Hong Kong. Milhares de camponeses de toda a Ásia protestaram contra as políticas das transnacionais. “A princípio, tínhamos planejado a ida de uma delegação de mil pequenos agricultores da KPL. No processo de organização, o número cresceu para 1.300. Mas na véspera do encontro da OMC alguns camponeses foram mortos pela polícia e acabamos enviando 900. Muitos permaneceram na Coréia para continuar a luta”, lembra Hong.
O conflito a que o dirigente se refere ocorreu em novembro de 2005, quando dois trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia durante mobilizações contra o livre-comércio. “A questão central da época era a abertura do mercado de arroz. Todo o resto já tinha sido aberto. Antes da renegociação, liderada pelos Estados Unidos, o arroz importado era usado apenas nas indústrias. Depois, eles puderam entrar no mercado consumidor diretamente e o arroz que nós produzimos não tinha mais como competir porque o vendido por eles é mais barato. Então nós organizamos essa grande mobilização”, diz.
Depois das mortes, os camponeses acamparam durante dois meses em frente ao palácio do governo, em uma estratégia apelidada de “sentar e lutar”. O presidente da república, Roh Moo-hyun, pediu desculpas publicamente pela violência policial e demitiu seu chefe de Polícia. Já as reivindicações de mudanças na política de importação foram ignoradas.
Política externa
A política de aliança e cooperação firmada entre os governos da Coréia do Sul e dos Estados Unidos não se restringe ao campo econômico e é uma das principais preocupações da KPL. Esse ano, um grande embate foi feito na região de Pyeongtaek. Dezenas de famílias camponesas que residem na área estão sendo forçados pelo governo sul-coreano a migrarem para outras regiões para permitir a expansão de uma base militar estadunidense.
Em maio, as famílias resistiram a um despejo forçado pelos militares. “A última vez que o governo usou o Exército para oprimir os civis tinha sido em 1980. Mais de duas mil pessoas de todo o país foram até lá para manter a comunidade. Muitos foram feridos nessa operação. Isso gerou um grande problema na sociedade coreana”, lembra Hong. Segundo ele, a base militar seria utilizada para atacar a China e a Coréia do Norte.
A expansão do espaço dos Estados Unidos no país ocorre em um momento de tensão das relações com os norte-coreanos, que voltaram a realizar testes nucleares. “Em 1994 houve um pacto em Genebra, na Suíça, para que a Coréia do Norte suspendesse a exploração da energia nuclear. Em troca, os Estados Unidos iam contribuir com a expansão da rede elétrica do país. Mas os estadunidenses quebraram o acordo e a Coréia do Norte usou os testes nucleares para pressionar”, diz o camponês.
“Em seguida, os Estados Unidos mobilizaram a ONU (Organização das Nações Unidas) para aprovar uma resolução de sanção econômica, o que na prática é uma guerra contra os civis norte-coreanos”, analisa. Hong apóia o regime norte-coreano, mas a esquerda da Coréia do Sul está dividida sobre o tema. “Uma parte do movimento quer desarmar os norte-coreanos”, explica.
O último ponto da plataforma de fundação da KPL é lutar pela reunificação pacífica dos dois países. “Estamos caminhando nesse sentido, mas isso ainda está muito longe de acontecer”, lamenta Hong.
Esquerda vence eleição no Equador
Nos últimos dez anos, o Equador teve oito presidentes. Boa parte deles foi tirada do poder por levantes populares. A instabilidade, no entanto, parece ter chegado ao fim com a eleição do economista Rafael Correa, que conta com amplo apoio do povo equatoriano. O concorrente derrotado é o empresário milionário Álvaro Noboa, exportador de bananas e representante da direita.
O novo presidente já declarou que não vai assinar nenhum Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos e que quer o fechamento de uma base militar que os estadunidenses mantém no país. Ele se comprometeu em rever os contratos do Estado com as empresas petroleiras instaladas no país, entre elas a Petrobrás. A vitória de Correa no Equador é mais uma importante conquista para a esquerda latino-americana.
