Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Com o fim de ano se aproximando, a hora é de avaliação, análise e reflexão do processo que enfrentamos no último período para termos clareza dos desafios políticos e perspectivas para o futuro. Mas antes é necessário fazer uma retrospectiva conjuntural e estrutural da história, da política, dos aspectos sociais, culturais, ideológicos e econômicos que nos levou para a situação que estamos vivendo hoje. É importante identificar os erros e acertos para aprendermos cada vez mais com a luta que estamos empreendendo no Brasil.
Sabemos que impera a hegemonia do capital financeiro e internacional. Em contrapartida a esquerda, de uma maneira geral, vive uma crise política e ideológica, o que provoca também um refluxo dos movimentos de massa.
Do ponto de vista governamental, o primeiro mandato do presidente Lula não teve força e coragem para enfrentar o avanço do neoliberalismo, preferindo adotar uma política de composição de classes entre o centro, a direita e a esquerda. Mesmo assim, enfrentou uma grave crise política, desencadeada com o auxílio da mídia burguesa, a partir de maio de 2005.
Entretanto, Lula se reelegeu com uma votação expressiva. Isso aconteceu por vários fatores que merecem ser analisados. Citamos alguns exemplos: a conjuntura política internacional serviu aos interesses das transnacionais, mantendo a taxa de câmbio fixa, trazendo investimentos e dólares. Aliado à isso, a burguesia assimilou o PT e o governo, que preferiu a tática da composição e não o enfrentamento direto, como acontece na Venezuela e Bolívia. Por isso, algumas empresas transnacionais, como Bunge, Votorantin e bancos como Itaú e Unibanco investiram milhões de dólares na campanha petista. Outro fator importante foram as políticas assistencialistas, como o Bolsa Família e o ProUni, que criaram uma base social para Lula.
Resultado eleitoral
Mas não tivemos eleições apenas para a presidência. É necessário levar em consideração o resultado no Congresso e nos estados. Parte da oligarquia rural representada por ACM, José Sarney e Almir Gabriel foi derrotada. Em contrapartida, a burguesia agrária e o agronegócio ganhou espaço em SP, MT, RS, GO, MS. No Congresso, a elite brasileira, atrelada ao capital internacional, formou uma bancada poderosa.
A esquerda social não foi derrotada, mas também não avançou. Já a esquerda radical, representada por PSTU e PSOL se desgastou, pois não conseguiu expressar suas idéias na sociedade. Outro ponto é que nenhuma alternativa real ao neoliberalismo surgiu no debate eleitoral, fosse ela de cunho nacionalista ou popular.
Feita a análise deste cenário, precisamos pensar as estratégias que a classe dominante irá usar para, mais uma vez, garantir seus interesses e enfraquecer a mobilização do povo. Algumas destas medidas será pressionar o governo através da mídia a compor um ministério a seu gosto; manter a política do superávit primário e defender a continuidade da política econômica; pautar as reformas trabalhista e tributária de forma a diminuir custos de mão-de-obra e aumentar seus lucros; diminuir os gastos públicos sociais; e preparar a sucessão de 2010.
Correlação de forças
Para nós do MST e demais movimentos e organizações sociais o momento é de mobilização, organização do povo, estudo e de muita luta. Não devemos ficar assistindo passivamente às ações do governo. Estimular todas as formas de lutas sociais e construir mobilizações unitárias, são algumas das tarefas. Na Assembléia Popular realizada em novembro, em Brasília, tiramos algumas bandeiras comuns, como a luta contra as transnacionais, a reestatização da Vale do Rio Doce, a luta pela redução da energia elétrica, educação pública e Reforma Agrária.
Por falar em Reforma Agrária, durante o debate eleitoral nada se propôs com relação à democratização das áreas rurais, nem do lado petista, muito menos do lado tucano. Como se ela não fosse fundamental para o desenvolvimento do país. Com relação ao compromisso de revisão dos índices de produtividade, também nenhuma ação por parte do governo foi realizada.
O segundo mandato de Lula vai depender da conjugação da luta de classes que se estabelecer e da pressão social. É por isso que nós, representantes da classe trabalhadora do campo e da cidade devemos nos mobilizar e nos unir em torno de estratégias comuns para pressionar o governo a adotar políticas que de fato possam mudar a vida do povo, desenvolver a soberania e construir um Projeto Popular para o Brasil.
É importante debatermos todos estes assuntos nos nossos encontros estaduais que acontecem em dezembro e em janeiro para que possamos ter clareza e planejamento das nossas ações para 2007, ano em que iremos realizar o nosso V Congresso Nacional.
Direção Nacional do MST
