Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
A valorização da cultura caipira na construção de um projeto popular para o país
A centenária figueira, símbolo do Sítio Pau D´Alho, em Ribeirão Preto, interior paulista, serviu de inspiração há quatro anos, quando abrigava mais uma roda de viola, para a idealização de um encontro de violeiros. Mas deveria ser um encontro diferente. Um espaço onde violeiros e violeiras pudessem tocar e trocar experiências e conhecimento, sem competição ou cachê. Não seria um festival, mas um encontro entre amigos e amigas, que se reconhecem na arte de tocar viola e de levar adiante a cultura caipira brasileira. Estava definido o formato do Encontro Nacional de Violeiros.
No ano seguinte, em 2003, aconteceu a primeira versão do encontro, com cerca de trinta apresentações em apenas um dia de festa. Em 2004, na segunda edição, mais artistas. Um dia foi pouco para tantas apresentações, o que fez com que a organização optasse por dois dias de festa na terceira edição, em 2005.
Este ano, confirmando as expectativas, mais de 100 violeiros, violeiras, duplas, orquestras e grupos de folias de reis passaram pelo palco montado em frente à grande figueira. Apesar da chuva no primeiro dia, o IV Encontro Nacional de Violeiros foi prestigiado por cerca de 15 mil pessoas, entre militantes do MST e apreciadores de boa música de todos os cantos do Brasil.
Construção
Uma forma diferente de construção do Encontro dos Violeiros foi colocada em prática este ano. Militantes vindos de todas as regionais do MST no estado de São Paulo participaram de oficinas com o objetivo de contribuir em alguma área. A oficina de expressão corporal preparou os participantes da mística de abertura, que contou com uma apresentação de dança e percussão, comandada pelos participantes da oficina de tambor. A ornamentação ficou por conta da oficina de bonecos, que construiu um modelo de São Francisco de Assis, homenageado na festa. Os instrumentos construídos pelos participantes da oficina de fabricação de viola ficaram expostos na galeria de arte, junto com os quadros de Blanco Castro, autor do desenho do cartaz do encontro. A oficina de comunicação ficou responsável pela produção de fotos e vídeos, documentando as oficinas e as apresentações.
Apresentar as milhares de maneiras possíveis de lidar com a viola sempre foi uma preocupação da organização do encontro. Cada violeiro tem a sua mão e, claro, seu estilo. Tudo cabe na proposta do Encontro, desde as tradicionais duplas, passando por violeiros e violeiras solo, orquestras e grupos modernos. Toda esta diversidade prova que existe cada vez mais gente tocando viola no Brasil. E como nem só de viola vive a cultura caipira, o Encontro abriu espaço para manifestações populares de música e dança, como a Folia de Reis e a Capina.
Apresentada por um grupo de senhores vindos de Jequitibá, em Minas Gerais, a Capina chamou a atenção do público por usar enxadas em sua dança e também pelo discurso do líder do grupo. Nelson Jacó afirmou que seu grupo é o último que ensaia e apresenta a dança em sua região. Para ele, a dispersão das manifestações culturais dos camponeses se dá pelo avanço implacável do latifúndio, realidade em todos os cantos do Brasil. “Se nós não dançarmos, ninguém mais dança”.
Trincheira
Para Edvar Lavratti, da direção estadual do Movimento em São Paulo, realizar o Encontro Nacional de Violeiros em Ribeirão Preto é também um posicionamento político. Capital do agronegócio, a cidade e arredores estão tomados pelas grandes propriedades monocultoras de cana-de-açúcar. A cidade é também rota de passagem do gênero conhecido como country, com suas roupas de cowboy e músicas pasteurizadas no estilo dos grandes rodeios, como a festa do peão de Barretos. “Nada disso é nosso”, defendeu Lavratti.
O violeiro e professor Ivan Vilella se diz preocupado quando afirma que antigamente, todas as manifestações culturais estrangeiras que chegavam ao Brasil não eram puramente assimiladas, mas se fundiam com nosso repertório. A diferença é que hoje está cada vez mais difícil que a mistura aconteça, pois essas referências nacionais estão se perdendo. A missão de quem procura preservar as raízes culturais brasileiras hoje vai além de uma atitude puramente xenófoba, de negar o que vem de fora, mas sim garantir que não haja apenas assimilação, mas uma fusão com nossos elementos.
Para Vilella, por mais que a cultura country esteja presente na região, muita gente faz questão de ir ao encontro e assistir às apresentações, o que explica o grande público. O violeiro afirma que apesar de ter sido trazida para o Brasil durante a colonização portuguesa, a viola é um instrumento essencialmente brasileiro, já que foi em terras brasileiras que suas potencialidades foram ampliadas e diversificadas.
João Ba, artista de 74 anos e 53 de estrada, concorda e defende que sua música é inspirada pelos pequenos elementos da natureza, como o trabalho do bicho da seda, por exemplo. João, que não é propriamente violeiro (seu instrumento é o violão) mas sim um cantador, participou do Encontro pela primeira vez, trazido por parceiros que já conheciam a festa.
Para o ano seguinte, fica a certeza de que o V Encontro Nacional dos Violeiros será ainda maior em 2007, com a presença de mais violeiros, ansiosos por apresentar sua arte em um espaço bonito e festivo. Fica também a certeza, de que apesar de não estar presente nos grandes meios de comunicação, a arte da viola sobrevive na beleza do trabalho de velhos e novos violeiros. O que prova que a valorização da cultura popular está estritamente ligada à construção de um projeto popular para o Brasil.
