Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Alexandre Camboim*
O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) surgiu da articulação de centenas de grupos de catadores em todo o Brasil. É formado por milhares de famílias excluídas dos direitos mais elementares como trabalho, moradia, saúde e educação.
O MNCR tem dentre seus objetivos estratégicos o controle do ciclo da cadeia produtiva dos recicláveis pe¬los catadores. Ou seja, a to¬mada e controle por via da ação direta dos trabalhadores de todo o ciclo da cadeia pro¬dutiva, a fim de auto-ges¬tio¬nar social e economica¬mente os serviços e a indús¬tria através do poder popular. Po¬rém, são nas primeiras eta¬pas deste longo ciclo que nos en¬contramos hoje, que en¬fren¬tamos as maiores dificuldades.
Estando a maior parte dos ca¬tadores sob o domínio dos suca¬teiros - donos de ferros velhos - ligados aos grandes aparistas e indústrias de celulose, plásticos, metais e vidros (que mantêm os preços dos materiais sempre baixo para os catadores), permanecemos em uma situação de escravidão.
Dependemos dos sucateiros para tudo: carrinho para trabalhar, barraco para morar, crédito no armazém, depósito para vender. Um catador coleta em média 600 quilos de materiais recicláveis por dia, o que gera uma renda mensal de 140 reais em média. As empreiteiras pagas pelos municípios recebem milhões por ano para fazer a coleta comum, pagando salários miseráveis e superlotando os aterros sanitários.
Criminalização
Lutamos para garantir o direito de continuar traba¬lhando e coletando materiais recicláveis, que são a fonte de nossa sobrevivência. Contra este simples fato, levantam-se diversos inimigos, que fazem causa co¬mum contra os catadores. Aí estão as prefeituras liga¬das aos interesses imobiliários dos comerciantes ricos, que tentam promover as chamadas revitalizações dos centros urbanos, varrendo para a periferia toda a po¬breza; as mega-empreiteiras ligadas às máfias do lixo que tentam privatizar os serviços de coleta; os falsos ecologis¬tas, que gritam pelo fecha¬mento dos lixões sem garan¬tir estrutura de trabalho ou coleta para as famí¬lias que ali tiram trabalham; e a proibição de veículos de tra¬ção animal (carroças) utiliza¬das para coletar materiais.
Talvez o maior desafio do MNCR no momento seja o de romper a maldita frag¬men¬tação que divide os opri¬midos e oprimidas atualmente, que mantém o isola¬men¬to das lutas e cultiva valores de ganância, indivi¬dualismo. No MNCR busca¬mos cultivar a solidariedade de classe para que junto com outros movimentos e organizações populares, possamos construir um novo projeto político protagonizado pelo próprio povo.
* Alexandre Camboim é integrante da Equipe de Articulação Nacional do MNCR.
Mais informações sobre o movimento na página www.movimentodoscatadores.org.br
História e organização
O Movimento Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis (MNCR) surgiu em meados de 1999 com o I Encontro Nacional de Catadores de Papel. Em junho de 2001, ocorreu I Congresso Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis em Brasília. O evento reuniu mais de 1.700 catadores e catadoras.
Antes mesmo do congresso os catadores já impulsionavam a luta por seus direitos em diversas regiões do Brasil. No congresso, foi lançada a Carta de Brasília, documento que expressa as necessidades do povo que sobrevive da coleta de materiais como papel, plástico e vidro.
Em 2003 a organização se fortaleceu ainda mais com a realização do I Congresso Latino-americano de Catadores, em Caxias do Sul (RS), que reuniu trabalhadores de diversos países da América Latina.
A atividade divulgou a Carta de Caxias que difunde a situação dos catadores e catadoras latino-americanas, unificando a luta entre os países. Nesse momento, o MNCR começa a mostrar sua força nacionalmente com as articulações regionais. Muitas lutas foram travadas em todo o Brasil e muitas conquistas alcançadas. Com o surgimento do MNCR ampliou-se a luta dos catadores(as) por uma vida digna. A categoria é historicamente excluída da sociedade e muitos ainda sobrevivem de forma precária em lixões e nas ruas. O trabalho de coleta de materiais recicláveis significa garantir alimentação, moradia e condições mínimas de sobrevivência para uma parcela significativa do povo brasileiro.
O MNCR tem como prática a democracia direta, na qual os espaços deliberativos do movimento são as bases orgânicas e os comitês regionais. Dessa forma, os debates possibilitam a participação de todos os catadores. Cada comitê regional indica dois representantes para a coordenação estadual, que por sua vez indica dois delegados ou delegadas para a Comissão Nacional.
Para a execução de tarefas em nível nacional existe a equipe de articulação nacional. Sua tarefa é agilizar a execução de ações e articulações. A equipe é composta por cinco trabalhadores das regiões: sul, sudeste, centro-oeste e nordeste.
Para fazer parte de qualquer instância do movimento o catador ou catadora têm que estar ligado(a) à uma base orgânica do movimento e à um comitê regional.
