Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Para o jornalista Sérgio de Souza, atuação da grande mídia serve apenas aos interesses da pequena elite
A mídia não pode ser considerada inocente pelo trabalho realizado durante o processo eleitoral neste ano. A inocência está descartada nos dois sentidos da palavra: tanto com relação a isenção de culpa quanto a ingenuidade. A cobertura da imprensa em relação ao caso da compra de um suposto dossiê contra tucanos, que envolveu diretamente dois filiados do PT, e a divulgação das fotos da pilha com 1 milhão e 700 mil reais não deixa sombra de dúvidas.
O conteúdo do dossiê foi em grande parte ignorado pela mídia hegemônica, que deu atenção principalmente à operação de petistas para adquirir o dinheiro para comprar o material dos corruptos do escândalo das ambulâncias. Depois, às vésperas do 1º turno, um delegado da Polícia Federal ofereceu ilegalmente a grandes meios de comunicação as fotos do dinheiro apreendidos com os petistas.
“Toda a carga emocional que pudesse ser extraída do episódio foi aproveitada até a última gota. Prisões, fotos do dinheiro apreendido, acusações dos partidos de oposição, páginas e páginas, artigos e artigos. E nada a respeito do próprio dossiê”, questiona o editor da revista Caros Amigos, Sérgio de Souza.
Na articulação com jornalistas, que foi gravada e divulgada na internet, o delegado não escondeu o interesse de atrapalhar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e, para isso, usaria a força dos meios de comunicação. Sabendo disso, os jornais e televisões fizeram seu papel na trama e divulgaram as fotos, a menos de três dias das eleições.
Em entrevista ao Jornal Sem Terra, Souza classifica a atuação da imprensa durante o governo Lula e nas eleições como adequada, mas aos interesses da direita. Por isso, foi dada tanta ênfase nos desvios éticos no período. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os casos de corrupção não ganharam tanto espaço nos jornais e nas televisões. “É só analisar a diferença de volume e tons das coberturas, comentários, artigos e editoriais. No governo Lula, os donos de veículos e seus contratados de confiança deitaram e rolaram na condenação de tudo”, compara.
Mesmo assim, Lula conseguiu vencer a eleição no 2º turno, com 58 milhões de votos. A vitória do candidato do PT deixa evidente que os meios de comunicação caminham em um sentido diferente da maioria da população. “Os donos da mídia acreditam que o povo seja estúpido ou permaneça tão desinformado como no tempo dos coronéis e seus currais eleitorais. Não conseguem captar a percepção popular, porque vivem num mundo só deles, restrito. São unha e carne com a elite, são da elite”, acredita. Leia a seguir a entrevista completa com o jornalista.
Jornal Sem Terra - Em um artigo recente, você sustenta que o caso do dossiê contra os políticos tucanos foi aproveitado pelos "patrões do jornalismo e seus contratados de confiança". Como você avalia a cobertura do caso?
Sérgio de Souza - Foi claramente tendenciosa. O que não seria estranho se os donos dos veículos e seus contratados de confiança não tentassem posar de imparciais. Não há razão para não declararem abertamente seu apoio ao candidato da direita [referência a Geraldo Alckmin, da coligação PSDB-PFL] nas eleições presidenciais. Isso faz parte do exercício democrático, mas eles preferem a dissimulação. É o que aconteceu nesse caso do suposto dossiê. Toda a carga emocional que pudesse ser extraída do episódio foi aproveitada até a última gota. Prisões, fotos do dinheiro apreendido, acusações dos partidos de oposição, páginas e páginas, artigos e artigos. E nada a respeito do próprio dossiê. Foi como se não tivesse a menor importância o fato de ele existir ou não, e, se existiu, qual seria o seu conteúdo. A hipótese de uma esperta armação nem foi aventada. O importante mesmo era lançar a suspeita sobre a origem do dinheiro. Mesmo que tal dinheiro não tivesse comprado nada.
JST - Quais as técnicas usadas pela imprensa televisiva e impressa para selecionar os melhores assuntos para os candidatos conservadores?
SS - Os meios de comunicação mais ricos no Brasil atingiram tal ponto de hegemonia, que nem se preocupam em aplicar determinadas técnicas de persuasão junto ao público, principalmente quando tratam de questões políticas. Não precisa ir longe. Quantas entrevistas com personagens declaradamente de esquerda são publicadas em jornais e revistas, ou mostradas nos aparelhos de televisão, seja em canais abertos ou fechados? E comentaristas? Em qual jornal ou revista o público tem a oportunidade de ler ou ver alguém de esquerda expondo idéias, salvo uma ou outra exceção? Se em tempos comuns não se vê tal coisa, imagine em tempos eleitorais.
JST - Nenhuma publicação investigou de fato as informações do dossiê, que teriam denúncias contra tucanos. Como se explica a diferença de procedimento?
SS - A imprensa mais rica entrou em conluio com as lideranças políticas de direita que não admitem a derrota de seu candidato. Então não interessa ir atrás do conteúdo do suposto dossiê nem investigar se ele de fato existe. O que interessava e acabou rendendo dividendos eleitorais para o seu candidato ao final do primeiro turno foi a “goebeliana” repetição do mote “de onde veio o dinheiro?”. No fundo, isso não funcionou, mais passado o primeiro momento da burrada praticada por aquela meia dúzia de otários petistas que caíram no conto do bilhete premiado urdido no ninho dos Vedoin e seus sanguessugas.
JST - Durante o governo Lula, aconteceram desvios éticos que ganharam bastante espaço na imprensa. O que você acha da cobertura específica desses casos?
SS - A cobertura da imprensa foi adequada para os propósitos da direita, assim como as acusações contra membros trapalhões do PT, que decidiram por burrice ou desvio de caráter, imitar os métodos de sempre utilizados pela direita. A mesma coisa aconteceu no caso do chamado “mensalão”, prática da direita em todos os tempos de República. Ainda não foram apresentadas provas de que este ou aquele membro do PT tenha posto dinheiro no próprio bolso, além do carro que um deles aceitou de “presente”. Nada foi encontrado nas contas correntes pessoais deles todos. Se algum valor apareceu, certamente estará mundos de distância do dinheiro que políticos de direita enviaram para o exterior por meio das célebres e bem escondidas contas CC5. A comparação da cobertura dessa história com o caso do “mensalão” e do suposto dossiê deixa evidente a devida adequação aos interesses em jogo.
JST - Dá para perceber também os interesses em jogo comparando a forma como a imprensa tratou os governos FHC e Lula em relação aos casos de corrupção.
SS - Compare a gravidade de atos, como a confessa venda de votos para a reeleição de FHC e os grampos revelados por ocasião da privatização das empresas de telecomunicação, os episódios do mensalão e agora, do suposto dossiê. É só analisar a diferença de volume e tons das coberturas, comentários, artigos e editoriais. No governo Lula, os donos de veículos e seus contratados de confiança deitaram e rolaram na condenação de tudo.
JST - A imprensa deu ampla cobertura para os casos de corrupção durante o governo Lula. Mesmo assim, o governo manteve a sua popularidade e Lula conseguiu a reeleição. Como se explica isso?
SS - Houve um descompasso porque os donos da mídia acreditam que o povo seja estúpido ou permaneça tão desinformado como no tempo dos coronéis e seus currais eleitorais. Não conseguem captar a percepção popular, porque vivem num mundo só deles, restrito. São unha e carne com a elite. São da elite. Basta ver onde andam e como se comportam. E as conseqüências estão aí. Eles, como o candidato da direita e seus parceiros, ficaram em desespero durante as eleições. E assim sucumbirão, por mais que queiram passar a imagem de paladinos da ética. Agem como se o dinheiro acumulado por eles ao longo de suas vidas tivesse origem conhecida da opinião pública.
JST - Dentro desse contexto, no qual a grande mídia e a maioria da população têm posições diferentes, é possível que o meios alternativos se tornem uma referência na sociedade?
SS - Se meios alternativos tiverem poder econômico igual ao dos meios hegemônicos, certamente serão referência para a sociedade. O país deveria contar com pelo menos um jornal diário que concorresse com a Folha, o Estadão e o Globo, e uma revista semanal de informação que concorresse com a Veja, a Época e a Istoé. Concorrer no sentido de abordar tanto os fatos quanto as questões nacionais e internacionais do ponto de vista da esquerda. Ambos, jornal e semanário, contando com os necessários recursos financeiros para contratar bons profissionais e investir em promoção teriam tantos leitores ou mais do que os da direita, que dominam o mercado desde sempre. Imagine a mesma coisa em relação a uma rede de TV ou de rádio. Isso seria um sopro democrático para arejar o universo da informação, que, para piorar ainda segue concentrado nas mãos de meia dúzia de famílias. Um imutável cenário terceiro-mundista, sem dúvida.
JST - Como você vê a idéia do controle públicos dos meios de comunicação? Pode ser uma forma de colocar os meios de comunicação em sintonia com a sociedade?
SS - Não sou a favor de qualquer tipo de controle sobre o exercício do jornalismo. O que poderia ser instituído é o financiamento público de veículos ou redes de comunicação que representem o pensamento de esquerda no país. A sociedade está à mercê do pensamento único estabelecido pelo liberalismo nos meios de comunicação impressos e refém dos eletrônicos. Se houvesse meios alternativos com a mesma capacidade de penetração dos veículos que aí estão, surgiria o desejado equilíbrio democrático na sintonia com a sociedade.
Para entender
Joseph Goebbels (1897-1945), político alemão, foi o mentor da propaganda nazista no governo de Adolf Hitler. Pregava que uma mentira repetida mil vezes se transformaria em verdade e impôs aos meios de comunicação social e às instituições culturais a difusão da doutrina nazista.
CC-5 são contas em instituições financeiras estrangeiras abertas por cidadãos brasileiros natos ou por estrangeiros residentes no país. A principal característica dessas contas é permitir que recursos sejam enviados ao exterior. A saída líquida de recursos por meio dessas contas foi de 113 bilhões de dólares entre 1993 e 2004.
Quem é
Sérgio de Souza, jornalista, 72 anos, é fundador e diretor responsável da revista Caros Amigos. No jornalismo impresso desde 1958, foi revisor, repórter e redator de diversos veículos da grande imprensa e da imprensa independente. É co-autor dos livros “Guia de Cuba”, “O Crime da Novela das 8” e de “Minha Razão de Viver”, de Samuel Wainer.
