Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Mais uma vez a garotada Sem Terra prova que a participação política começa cedo na vida de quem acredita em uma nova sociedade
Atos políticos, protestos, marchas, manifestações e também brincadeiras, atividades pedagógicas e culturais. Estas foram as características da mobilização dos Sem Terrinha que aconteceu em estado como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Rio de Janeiro, Ceará e Alagoas.
A atividade dos Sem Terrinha faz parte do calendário de mobilizações do MST que acontece todos os anos. As crianças mostraram a importância e a necessidade de se começar, desde a infância a construir sua cidadania. Além disso, os espaços construídos nestes encontros representam um aprendizado e uma oportunidade de socialização dos filhos e filhas de trabalhadores rurais
Costuma-se dizer que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã. E será esta juventude a responsável em continuar a caminhada rumo à uma nova sociedade mais justa e igualitária onde a Reforma Agrária seja uma realidade concreta.
Rio de Janeiro
Os filhos e filhas de trabalhadores rurais acampados realizaram a sétima edição do Sem Terrinha, em Campos dos Goytacazes. Este ano, além das crianças Sem Terra, participaram também alguns quilombolinhas, que descendem dos remanescentes quilombolas que vivem na região. O objetivo da ação foi divertir, integrar e estimular a reflexão sobre a situação e os direitos destas crianças. A atividade acabou com uma manifestação, onde as elas reivindicaram a construção de uma escola de segundo segmento (antigo ginásio) no assentamento Zumbi dos Palmares e a convocação de um seminário para debater a educação no campo no município.
Paraná
Sem Terrinha de 5 a 14 anos se mobilizaram em todo o mês de outubro para a implantação de escolas municipais e estaduais do campo e pela reforma das escolas já existentes. A atividade marcou também o lançamento do 6ª Concurso Nacional de Arte-Educação, com o tema “Como fazer a escola transformando a história?”.
Rio Grande do Sul
A luta contra a expansão do deserto verde foi o ponto central das manifestações dos Sem Terrinha no Rio Grande do Sul. Cerca de 350 crianças saíram em marcha do Jardim Botânico até o prédio onde funciona o escritório da Stora Enso, para denunciar a ação da empresa no estado.
A Stora Enso é, junto com Aracruz e Votorantim, uma das três empresas de celulose que dividiram o Rio Grande do Sul entre si, e já implementam o projeto de plantio de milhares de hectares de eucalipto, que aumentam a concentração da terra, expulsam os trabalhadores do campo e afetam o meio-ambiente.
Em todo o estado, cerca 1,5 mil crianças de assentamentos e acampamentos participaram de atividades nos municípios de Santana do Livramento, Bagé, Canguçu, Piratini, Sarandi, Jóia e Eldorado do Sul.
No Nordeste as crianças também se articularam
O lema da jornada de lutas desse ano é em Alagoas foi “Todos e todas Sem Terra Estudando”. Entre as reivindicações estavam a implantação de escolas de ensino médio nas áreas de assentamento, a conclusão e eletrificação das creches e casas de farinhas nos assentamentos e a implementação do projeto para abastecimento de água tratada.
Além disso, as crianças também exigiram a conclusão das obras do Centro de Formação em Atalaia, a liberação dos recursos para capacitação dos acampados e assentados na produção agrícola e a prisão dos mandantes e executores dos crimes cometidos contra os trabalhadores e lideranças rurais, em especial de Jaelson Melquíades, em novembro de 2005.
Já no Ceará, cerca de 200 crianças de várias regiões do estado participaram do V Encontro Estadual dos Sem Terrinha. Para este ano, o tema escolhido foi "Agroecologia: produzindo uma vida, cuidando da natureza". No primeiro dia, as crianças participaram de debates sobre a história do MST e também de uma oficina de fazer bonecos. No dia seguinte, o Cedeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará) pautou a discussão sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) a partir de uma apresentação teatral. À tarde, os Sem Terrinha visitaram o Museu do Ceará, que abriga uma exposição sobre os 80 anos do movimento de Caldeirão, considerada uma das principais mobilizações por terra no país que acabou com o assassinato de 700 pessoas pelo Exército em 1937. A maior parte das crianças nunca tinha ido a um museu.
Muitos também experimentaram pela primeira vez o banho de mar, durante a visita à praia de Iracema, um dos principais pontos turísticos de Fortaleza. À noite, foi organizada uma jornada socialista em homenagem ao Sem Terrinha Lênin Afonso Paz, que morreu há cinco anos após ser atropelado por um carro oficial do governo do estado. Até hoje os assassinos não foram punidos.
