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Os efeitos do capitalismo no meio ambiente

Por Carlos Walter Porto-Gonçalves*

Um dos pilares da sociedade moderna é que o progresso humano tem sua origem na dominação da natureza por meio da ciência e de sua aplicação tecnológica. O carvão e o petróleo, por exemplo, são matérias que permitem transformar outras matérias por concentrarem muita energia. Por isso, as regiões e países que abrigam grandes jazidas são particularmente visadas pelos grandes complexos empresariais, em sua maior parte com sede nos países industrializados. Neste caso, a arrogância desses setores revela toda a sua fragilidade posto que, por mais que dominem a tecnologia, dependem de um recurso natural que não podem produzir. Aliás, nenhum país, nem qualquer sociedade, produzem esses minérios pelo simples fato de que eles são frutos da natureza. Assim, somos extratores e não produtores.

Uma das principais consequências dessa subestimação da natureza é exatamente o efeito estufa. Um motor quando trabalha libera calor e se está demasiado aquecido, com certeza perde a sua capacidade de trabalho. Foi para isso que se inventou o termostato, aquele aparelho que se usa nas geladeiras, que é regulado pela temperatura. Acontece que nem todos os sistemas são controláveis pelo homem. Por exemplo, o planeta Terra recebe diariamente uma imensa quantidade de energia que nos chega do sol. Essa energia trabalha intensamente ao incidir sobre a superfície do planeta movendo o ar (ventos e massas de ar), evaporando as águas e promovendo chuvas.

Os gases estufa ao reter o calor dissipado a partir do trabalho da própria radiação solar na Terra são responsáveis pelo equilíbrio climático tal como conhecemos até aqui. Assim, não podemos condenar o efeito estufa enquanto tal, pois em parte é ele que permite a existência da vida. Toda a questão parece estar não no efeito estufa, mas sim no seu aumento nos últimos anos, posto que assim mais calor fica retido entre a superfície da Terra e a atmosfera. O aquecimento climático global é a mais importante consequência do efeito estufa. Os anos mais quentes já registrados na história do planeta ocorreram nos últimos 25 anos!

Ao contrário das geladeiras, o planeta não tem termotasto para se auto-desligar. Os ambientalistas, sobretudo os eco-socialistas, vêm lutando para dar um pouco de lucidez à essa verdadeira insensatez que é o atual modelo de desenvolvimento.

A falência do modelo estadunidense

Os países industrializados são os maiores responsáveis pelo atual aquecimento global, muito embora as queimadas, sobretudo de florestas tropicais, tenham importância e, nesse caso, o Brasil é o país que mais vem se destacando negativamente no mundo. Os Estados Unidos são os maiores responsáveis pelo aquecimento climático do planeta. Com somente 4,6% da população mundial emitem 24% do gás carbônico mundial. Esses dados deveriam nos servir de alerta, pois indicam que o american way of life (modo de vida dos estadunidenses) vendido todo dia pela mídia, não pode ser estendido a toda a humanidade.

Definitivamente a humanidade não pode ter como padrão do que seja uma vida feliz o padrão estadunidense. O planeta não suporta e vem sendo posto em perigo por uma sociedade capitalista cuja injustiça social se sustenta numa profunda injustiça ambiental. Hoje, é possível que uma grande cidade, em qualquer lugar do mundo, seja abastecida com matéria prima agrícola ou mineral de qualquer parte de planeta. Toda a tragédia social e ambiental da produção de soja nos chapadões e planícies dos cerrados brasileiros, e já adentrando a Amazônia, se destina, em grande parte, a alimentar o gado europeu criado em estábulos. À custa dessa irracionalidade ambiental, temos a formação de grandes cartéis como a Sadia, a Perdigão, a Cargill, a Syngenta, a Bunge entre tantas que conseguem, assim, vender frango e soja em qualquer lugar.

Mais abominável, ainda, é quando vemos governos e muitas ONG’s se associando para transformar essa tragédia sócio-ambiental em oportunidade de negócio. É o que se vê com o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) que permite que um país continue a lançar na atmosfera seus gases de efeito estufa desde que compre áreas nos países pobres onde plantem árvores que capturariam gás carbônico da atmosfera. Além de ser cientificamente duvidoso a consequência, transforma os países pobres em verdadeiras latas de lixo da sujeira que compram o direito de continuar lançando para sustentar um desenvolvimento injusto e ambientalmente degradante que, assim, se mostra um desenvolvimento sustentável.

Conhecimento da terra

O potencial produtivo sempre foi aproveitado pelos povos indígenas que, em vez de desmatar para plantar, souberam criativamente, por meio de suas diferentes culturas, aproveitar o trabalho da natureza. Foi o encontro dessa lógica de vivência com a floresta com a cultura gaúcha que nasceu o projeto RECA, em Nova Califórnia, na fronteira de Rondônia com o Acre. Ali a inteligência do camponês sulista se aliou à inteligência das tradições indígeno-caboclas para nos brindar com um dos mais bem sucedidos projetos de desenvolvimento social e ambientalmente sustentável da Amazônia. Para isso foi necessário romper com muitos problemas, a começar com o preconceito que, quase sempre, acompanha aqueles que se acham querendo levar o progresso, o que os impede de aprender com os indígenas e com os camponeses desses lugares.

O efeito estufa bem pode ser combatido a partir de iniciativas desse tipo, desde que saibamos aliar essas iniciativas locais às lutas nacionais e globais, já que o planeta é um só. O maior responsável pelos danos ecológicos globais é um sistema que se globalizou globalizando a exploração da natureza.

*Doutor em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF e Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000). Foi ganhador da Medalha Chico Mendes em Ciência e Tecnologia em 2004.

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