Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Realizar trabalhos em sistema de cooperação é um princípio do MST. É com base nessa solidariedade que o Movimento desenvolve todas as iniciativas das famílias assentadas, seja na produção ou nos serviços. As diferentes formas de cooperação são sempre estimuladas, desde o simples mutirão para limpar a lavoura até a agroindústria ou uma cooperativa de crédito. Em entrevista ao Jornal Sem Terra, o companheiro Juraci Portes de Oliveira, integrante do Setor Nacional de Produção, explica por que é importante adotar esse sistema de trabalho coletivo, para fazer um contraponto à lógica neoliberal que valoriza o individualismo e o egoísmo. Para Portes, a cooperação cumpre um papel político e estratégico na luta contra o capitalismo. Ele conta ainda que apesar de saberem dos benefícios da cooperação nos assentamentos rurais, nenhum governo federal ou estadual desenvolveu um programa para incentivar esse sistema. Confira a seguir a entrevista completa:
Jornal Sem Terra: Quais são as vantagens e desvantagens da cooperação?
Juraci Portes de Oliveira: A cooperação é o conjunto de iniciativas de organização de determinados grupos sociais. Aplicando essa idéia na agricultura é um princípio para organizar a produção. Está descartada a possibilidade de proporcionarmos desenvolvimento social e econômico dentro dos assentamentos se as famílias persistirem na lógica da produção individual, ou seja, no isolamento. Isso por causa do próprio processo de desenvolvimento do capitalismo no campo e dos limites da propriedade e da lógica da propriedade individual. É difícil ter acesso à tecnologia e racionalizar o próprio capital de investimento e o conhecimento técnico. Enfim, há um conjunto de elementos que faz com que, isoladamente, as famílias tenham muita dificuldade para se desenvolver. É preciso avançar o mínimo necessário na cooperação entre as famílias, não só para melhorar suas condições de vida, mas também, do ponto de vista estratégico, para ajudar na construção do “ser social”. Precisamos que as famílias evoluam na consciência e na formação cultural no assentamento para que elas possam colaborar com a luta.
Lutamos que essas famílias façam parte do processo de contribuição com uma luta maior, que é a luta por transformação social. Portanto, se desejamos nos desenvolver e sonhar com uma sociedade e com um ser humano diferente, com novas posturas, comportamentos e valores, é preciso mudar a partir da existência do meio que habitamos. No assentamento, na medida que se induz ou introduz a cooperação na produção, acabamos mudando a consciência individualista, onde tudo gira em torno do “eu”. Não é o “meu”, mas o “nosso” assentamento. Não é a “minha”, mas a “nossa” propriedade. É uma inversão de valores. Por isso que a cooperação não tem só o objetivo econômico de ajudar as famílias, mas um papel político estratégico, porque permite ajudar no processo de mudança das pessoas.
JST: Mas até chegar nesse ponto de cooperação há todo um processo de conscientização da comunidade. Isso se mostra como um desafio?
JPO: Sim, essa é a parte mais difícil. Trabalho com a seguinte idéia: a pessoa só permanece dentro de um coletivo se ele também responder às necessidades desse indivíduo. Portanto, no início a cooperação se move por questões econômicas. Ela não se mantém apenas pelos aspectos subjetivos. Não é só com convencimento que fazemos a cooperação. É preciso também trabalhar a consciência e a formação. Temos um entendimento cultural de individualismo, Por isso esse processo de estímulo para a cooperação é o principal desafio neste momento histórico que vivemos. Até porque nossas principais referências no campo ideológico do socialismo têm passado por esse processo. Estamos falando de um novo projeto de assentamento que nega a propriedade privada dos meios de produção e também a produção individual. Isso se contrapõe a tudo que estamos vivendo hoje. Propor a cooperação é um desafio muito grande. O último seminário nacional de produção do MST apontou que temos muitos limites para o avanço deste sistema. Mas a história mostrou que, apesar das dificuldades que tivemos, as Cooperativas de Produção Agropecuária (CPA) que se consolidaram no Movimento, são umas das principais referências em termos econômicos, sociais, políticos e culturais. Elas provam que é possível organizar outro modelo agrícola, que não siga a lógica da propriedade privada e da produção individual.
JST: Em que referências e modelos o MST se baseou para adotar a cooperação como princípio?
JPO: Nós do Movimento já estudamos várias experiências de diferentes países, tantos os socialistas quanto os capitalistas, porque a cooperação como princípio não é peculiar de nenhum desses dois sistemas. As indústrias, por exemplo, são as que mais desenvolvem a cooperação no sentido da organização. A diferença é que ela está relacionada justamente a quem é o dono dos meios de produção. Mas no MST, buscamos as referências de organização técnica e social do trabalho no campo socialista, porque propomos um modelo diferente. Queremos combater a propriedade privada. O resultado tem que estar à serviço de todas as pessoas que trabalham e produzem esse ideal.
JST: O que muda entre um assentamento que desenvolve um trabalho cooperativo na produção agrícola e outro que não realiza este sistema?
JPO: Há dois aspectos. Quando você organiza a produção, do ponto de vista econômico, a diferença é visível: se consegue captar mais recursos, racionalizar a infra-estrutura e os recursos naturais, permitindo um avanço na possibilidade de desenvolvimento. Do ponto de vista humano, talvez é onde esteja o esforço maior. Onde a cooperação está presente, o nível cultural é elevado, as pessoas têm mais compreensão do mundo e da luta, e a contribuição é muito maior. No ponto de vista social, da saúde e da educação, percebemos que esse avanço também é significativo. Isso falando dos aspectos gerais do assentamento.
Não é possível comparar com algumas famílias que se destacam trabalhando na lógica individual. Isso não resolve o problema da maioria das famílias com baixo nível econômico e social. Onde há cooperação a consciência política e econômica sofre uma elevação extremamente importante.
JST: Qual é o investimento que o governo tem feito nesses últimos anos na questão da cooperação na agricultura?
JPO: Nunca houve nenhum programa. Esse é um dos limites para nós. Sabemos que a cooperação só se desenvolve com ajuda do Estado. É preciso que ele estimule e fomente este tipo de processo. Mas isso nunca aconteceu no país enquanto programa, nem no governo Lula, onde tínhamos toda uma expectativa. Ao contrário, não existe nenhum programa de estímulo que diferencie as famílias no campo do crédito, por exemplo, que é um ponto fundamental, assim como na assistência técnica e na área da pesquisa. Há um conjunto de elementos em que a presença do Estado é determinante. Hoje, o tratamento dado às famílias que exercem a cooperação é o mesmo dado àquelas que trabalham individualmente. É uma grande luta do MST fazer com que o governo federal e os estaduais assumam esta postura de estímulo e defesa ao trabalho cooperativo.
JST: Na sua opinião, por que o Estado ainda não priorizou investimentos na cooperação agrícola?
JPO: Porque é a ideologia neoliberal que prevalece no campo. Desenvolver a cooperação significa colocar em cheque a consciência capitalista, ainda que seja do cooperativismo do ponto de vista tradicional. Sob a lógica neoliberal, este tipo de trabalho não é algo que deve ser estimulada. Ainda mais o nosso tipo de cooperação que não quer debater só a questão econômica, mas que também tem o objetivo de continuar e fortalecer a luta da classe trabalhadora.
Estamos em um momento histórico onde é necessário retomar a discussão da cooperação nos assentamentos como princípio, como processo de formação. O desafio das famílias assentadas e da militância do Movimento é assumir o trabalho cooperativo como desafio estratégico, dentro da perspectiva do fortalecimento da organicidade do Movimento e da organização da resistência das famílias assentadas. Há um modelo agrícola vigente que exige com que trabalhemos na perspectiva de construir de um novo modelo de agricultura, baseado em outros princípios que não sejam neoliberais. Mas baseado nas idéias de um modelo econômico que seja auto-sustentável, baseado na cooperação e que permita desenvolver economicamente as famílias, mas também nos desenvolvermos política e socialmente dentro da perspectiva da transformação da sociedade.
Quem é:
Juraci Portes de Oliveira é gaúcho e está no MST desde 1989, quando começou a militância na Frente de Massa. Hoje está no Espírito Santo e integra o Setor Nacional de Produção.
