Imagine se o mundo que você conhece hoje fosse completamente destruído. Pense no que sentiria se todos os seus familiares fossem mortos e sua casa incendiada. Como você reagiria sendo o único sobrevivente de uma situação extrema como essa? É exatamente isso que aconteceu com um indígena de Rondônia, que ficou conhecido como “índio do buraco”, por possuir no interior de sua cabana um orifício de 2,5 metros.
"Acompanhando o ruído de folhas pisadas, vimos seu vulto por entre os arbustos. Caminhava rapidamente, mas sem correr e sem olhar para o nosso lado, sumindo na sua experiência de fugitivo. Pouco adiante, cerca de 200 metros, o reencontramos sentado em frente a uma palhoça. Ao nos ver, pulou para dentro. Iniciamos, então, uma longa tentativa para convencê-lo de que não queríamos lhe fazer mal. Sentindo-se ameaçado, resolveu nos mostrar os seus sentimentos. Enfiou uma flecha para fora e apontou para um membro da equipe. Não sabemos se foi de propósito ou não, mas o fato é que ele errou. Tentamos conversar, rimos na sua frente, oferecemos milho, machado, ajuda. Mas sempre em vão, só a flecha. Sempre a flecha...", relatou Marcelo dos Santos, responsável pela Frente de Contato Guaporé, ao encontrar o “índio do buraco”, do qual não se sabe a origem, etnia ou língua. A Frente integra a Fundação Nacional do Índio (Funai) e tem como objetivo localizar povos que ainda não tiveram contato com os não-índios.
Segundo o Estatuto do Índio, o indígena de Roraima deveria ter seu território imediatamente interditado. “No caso dos povos que vivem isolados, a legislação recomenda essa medida. Se há notícias de que um povo perambula por uma região específica, o governo deve imediatamente impedir o acesso à área para posterior investigação e demarcação. Isso não vem acontecendo. Temos denúncias de casos de pessoas que identificam comunidades que foram massacradas. Encontramos malocas de construção recente sem seus habitantes. Falta proteção para esses povos. Eles podem ser extintos se não forem auxiliados”, acredita Saulo Feitosa, vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Estima-se que 50 povos vivem hoje sem nenhum contato no Brasil.
Depois de muita discussão, 60 quilômetros quadrados foram demarcados em 1997 para o “índio do buraco” caçar, exercer seus cultos e construir sua morada.
Lentidão marca política indigenista
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o Brasil tem hoje cerca de 740 mil indígenas divididos em mais de 200 etnias. Metade deles vive nas periferias dos grandes centros urbanos, expulsos de suas terras tradicionais.
“Durante o governo Lula houve uma queda no ritmo de demarcação das terras indígenas”, critica Feitosa. Para ele, o problema mais grave ocorre no Mato Grosso do Sul, onde existem mais de 90 terras indígenas sem demarcação. Os índios vivem em situação de confinamento, em pequenas parcelas de terra cercadas por fazendas. Além disso, o estado é recordista de denúncias no relatório “A Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil”, organizado pelo Cimi e divulgado em maio deste ano. Dos 26 casos relatados em 2003, 23 ocorreram no Mato Grosso do Sul. Em 2004, foram 28 dos 41 casos e em 2005, 17 dos 32.
“Há um índice de violência muito alto. Nós identificamos que o fato de não ter seu território demarcado expõe os povos indígenas e as pessoas que habitam naquela comunidade a toda ordem de violência, seja externa, praticada por jagunços, policiais e pelos próprios fazendeiros, ou interna”, diz o integrante do Cimi. Por não terem espaço suficiente para reprodução física e cultural, os índios entram em conflito entre si. Há registros ainda do aumento do consumo de álcool e no índice de suicídios. Nos últimos dez anos, 407 indígenas tiraram a própria vida. “Um processo de auto-destruição”, conclui.
Organização e luta local
Apesar de já habitarem o Brasil quatro mil anos antes da chegada dos colonizadores portugueses, os indígenas precisam lutar para conseguir viver em suas terras. Hoje eles não têm uma organização nacional, mas conseguem se articular através de atividade locais. “Há uma mobilização grande, mas o fato de serem minoria e tão diversos lhes impõe uma característica própria nos modelos de luta, de organização. Eu não diria que os indígenas são fortemente organizados, mas que estão mobilizados. E essa mobilização se constitui em uma força política importante”, afirma Feitosa.
Para o movimento indígena, o último período teve duas importantes vitórias, fruto da pressão social. A primeira foi a demarcação da Terra Raposa Serra do Sol, resultado de mais de 30 anos de reivindicação. A segunda foi a assinatura da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura aos povos indígenas de todo o mundo o direito à terra, organização e auto-reconhecimento. Essas garantias já estão na Constituição Federal, mas os índios brasileiros avaliaram que era importante reafirmá-las.
Outro momento significativo foi o encontro dos Guarani nos 250 anos da morte do líder indígena Sepé Tiaraju. Milhares de brasileiros, paraguaios, argentinos e bolivianos se reuniram em janeiro deste ano em São Gabriel (RS) para relembrar sua cultura e tirar encaminhamentos para seguir com as articulações. A atividade é reflexo da unidade entre os povos indígenas na América do Sul. Na região dos Andes, eles têm até uma bandeira comum, carregada para todas as mobilizações e passeatas.
“Diferentemente de outros países onde o contingente populacional índio ultrapassa 60%, como na Bolívia, aqui no Brasil a população indígena é pequena, representa 0,04% da população. Aos poucos acontecem as articulações por povos, mas o movimento precisa avançar mais para essa perspectiva e ir além das fronteiras”, avalia o vice-presidente do Cimi.
