Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Leia abaixo o documento que denuncia como o capital explora de forma ilimitada os recursos naturais e o meio ambiente em nome do crescimento econômico.
Vivemos num sistema econômico dominante que há séculos explora, de forma ilimitada, todos os ecossistemas e seus recursos naturais. O que se chamou de desenvolvimento para algumas nações, privilegiou o consumo e o bem estar social de uma parcela muito pequena da humanidade, e excluiu, das condições mínimas de sobrevivência, a grande maioria da humanidade.
Por causa da dramaticidade desta situação, sentimos a necessidade de afirmar alternativas que assegurem um futuro de esperança para a vida, a humanidade e a Terra. Precisamos passar de uma sociedade de produção industrial, consumista e individualista, que sacrifica os ecossistemas e penaliza as pessoas, para uma sociedade de sustentação de toda a vida, que se oriente por um modo socialmente justo e ecológicamente sustentável, que cuide da comunidade e proteja as bases físico-químicas que sustentam todos os processos vitais.
Como habitantes do continente americano temos a consciência de nossa responsabilidade universal. O futuro da Terra passa também por nós. Os países amazônicos e andinos, como Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela e Brasil são territórios diversos. Não apenas pela presença de riquíssimos ecossistemas, mas também pela presença de muitos povos indígenas, camponeses, quilombolas e outras comunidades locais, que há milênios souberam viver em co-habitação com a biodiversidade e a sócio-diversidade.
A floresta amazônica, presente em nossos países, representa um terço das florestas tropicais do mundo e abriga mais de 50% da biodiversidade. Nela existem pelo menos 45 mil espécies de plantas, 1.800 espécies de borboletas, 150 espécies de morcegos, 1.300 espécies de peixes de água doce, 163 espécies de anfíbios, 305 espécies de serpentes, 311 espécies de mamíferos e mil espécies de aves.
Por causa desta riqueza, a América Latina está sendo objeto da cobiça dos “neoliberais-globacolonizadores” através da ação insana de dezenas de empresas transnacionais, principalmente dos países do norte. Antes era a corrida ao ouro e à prata, hoje é a corrida aos recursos genéticos, farmacológicos e aos saberes tradicionais e locais, todos estratégicos para o futuro dos negócios do mercado mundial.
Queremos fazer frente, de forma decisiva, a este processo de espoliação. Propomos políticas consistentes que visem:
1. Conservar a diversidade biológica e cultural de nossos ecossistemas;
Trata-se de cuidar do conjunto dos organismos vivos em seus habitats e também da interdependência entre eles dentro do equilíbrio dinâmico, próprio de cada região ecológica e das características singulares das espécies, assim como da interação social e ecologicamente sustentável dos povos que vivem na região;
2. A proposta de políticas articuladas que visem garantir a integridade e a beleza dos ecossistemas e dos povos que cuidam e dependem dela;
Isso implica na manutenção das características que asseguram seu funcionamento e mantém a identidade do ser vivo, em seu aspecto territorial, biológico, social, cultural, paisagístico, histórico e monumental. A preservação da diversidade biológica e cultural, da integridade e da beleza dos sistemas ecológicos oferece sustentabilidade às múltiplas funções ambientais e aos benefícios que o ser humano obtém para si e para as futuras gerações.
3. A oposição à introdução de espécies exóticas, inadequadas aos nossos ecossistemas;
Como acontece em muitos biomas com a introdução de plantações homogêneas, industriais, do eucalipto e pinus que destróem os ecossistemas naturais e provocam fortes impactos sociais aos povos que moram nessas áreas, levam o lucro, os dólares, a celulose, o carvão, água sugada, e deixam a degradação e a pobreza.
4. A oposição a introdução de organismos transgênicos no ambiente;
Não é aceitável a introdução de OGMs seja na agricultura, nas plantações, na pecuária ou qualquer outro cultivo, pois além de não serem necessários, trazem riscos potenciais à saúde das pessoas e geram modificações permanentes e irreversíveis para a natureza e aos ecossistemas. Opomos-nos enfaticamente a introdução de árvores transgênicas, que significam um perigo ainda maior devido, entre outras coisas, ao fato de que o pólen tem a possibilidade de disseminação ao longo de milhares de quilômetros, contaminando inevitavelmente outras florestas, incluindo as nativas, com multiplicação de impactos sobre a flora, os insetos e outros componentes da fauna, afetando também o sustento dos povos indígenas, pescadores, camponeses, quilombolas e outras comunidades locais.
5. Combater as sementes Terminator porque elas atentam contra o sentido da vida;
Somos contra a reprodução desse tipo de semente estéril, pois se trata de uma semente suicida que visa beneficiar apenas as grandes empresas transnacionais controladoras das sementes e manter os agricultores sob sua dependência.
6. Oposição à tentativa de dominação do governo dos Estados Unidos e de suas empresas transnacionais;
Ambos desejam impor os chamados de Tratados de Livres Comércio; tratados de garantia de investimentos estrangeiros, ou através de acordos de cúpulas costurados sem nenhuma participação popular na Organização Mundial do Comércio (OMC). Esses acordos colocam em risco a nossa natureza, a nossa agricultura, os nossos serviços e as condições de vida de nossa população, pois priorizam apenas os interesses e a garantia do lucro.
7. Manifestamos nosso apoio e a necessidade de reconhecer os povos e comunidades que durante séculos e milênios têm desenvolvido a biodiversidade agrícola;
Reconhecemos as comunidades que através da adaptação e criação de sementes constituem as bases de toda a agricultura e alimentação da humanidade. Para manter essas bases de sustentação e essa enorme riqueza de biodiversidade agrícola e alimentar, é preciso reconhecer e afirmar os direitos dos camponeses, indígenas, pastores, pescadores, quilombolas, à terra, ao território e aos recursos naturais.
Por fim, externamos nosso desejo de que estes propósitos redundem em benefício para nossos povos, garantam a soberania alimentar, o direito que cada povo têm de produzir seu próprio alimento. Defendemos aqueles que trabalham no campo, nossos agricultores e camponeses. Esse modo de produção contribui decisivamente para dar sustentabilidade ao nosso Planeta, com desenvolvimento integral, imprescindível para garantir o futuro da humanidade.
