Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
1° de maio precisa retomar bandeira do socialismo, diz sociólogo
Sorteio de apartamentos, grandes apresentações de bandas que estão no topo das paradas e patrocínios de empresas multinacionais. Nas capitais brasileiras, não é preciso ir a uma das comemorações do Dia do Trabalho para perceber que esta data mudou muito nos últimos vinte anos. “É a política do pão e circo”, diz Ricardo Antunes, professor de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na entrevista abaixo, ele resgata as origens do 1° de maio no Brasil e no mundo e aponta perspectivas para retomar a luta sindical no país.
Jornal Sem Terra - Qual é o histórico do 1° de maio?
Ricardo Antunes - O 1° de maio nasceu como um dia de luta dos da classe trabalhadora. Em 1886, nos Estados Unidos, os trabalhadores paralisaram suas atividades para lutar pela jornada de oito horas. Eles reivindicavam uma divisão diária do seguinte modo: oito horas para o trabalho, oito horas para lazer e descanso e oito horas para o sono. Isso porque a jornada de trabalho atingia até 14 horas por dia em muitas empresas. Houve uma repressão intensa e quatro desses trabalhadores foram condenados à morte e à prisão perpétua. Alguns anos depois, um congresso socialista dos trabalhadores resolveu conferir ao 1° de maio um caráter universal de luta dos trabalhadores. Curiosamente, só nos Estados Unidos o 1° de maio não é comemorado como Dia do Trabalho. Mas o mundo inteiro toma a data como histórica.
JST - E como a data chegou ao Brasil?
RA - No final do século 19 e começo do século 20, quando o movimento operário começou a dar seus primeiros sinais de atuação no Brasil, o 1° de maio era considerado um dia de luta. Naquela época tínhamos inclusive um relativo predomínio do anarco-sindicalismo no movimento operário brasileiro em função da alta imigração de italianos e espanhóis, que traziam essa tradição. A partir de 1930, o governo de Getúlio Vargas procurou dar um sentido oficialista e estatal ao 1° de maio, convertendo a data em uma espécie de “doação” de direitos, atendendo às solicitações dos trabalhadores. Paralelamente, mudava-se a data de um dia de manifestação para um dia de recreio dos trabalhadores. Ainda assim, durante os períodos menos brutais da ditadura getulista, a classe trabalhadora fazia manifestações independentes. O mesmo ocorreu posteriormente na ditadura militar (1964 - 1985), que reprimiu duramente o movimento operário.
Praticamente em todos os anos ocorriam manifestações autônomas e independentes, para tirar o 1° de maio dos militares e trazê-lo para o espaço social dos trabalhadores. Muitas foram duramente reprimidas.
Entre 1978 e 1981 nós recuperamos o espaço para fazer um Dia do Trabalho mais majestoso, de manifestações políticas e grandes atos, como os realizados pelos metalúrgicos do ABC Paulista. É um período muito importante para o ressurgimento do movimento sindical. Na época nós chamávamos isso de novo sindicalismo. Era um sindicalismo de inspiração classista e socialista, com caráter anti-ditatorial, anti-capitalista e anti-estadista, porque era contra o controle do Estado sobre o sindicato.
JST – E como está a articulação hoje?
RA - Na década de 1990, esse cenário começa a mudar com a implementação do neoliberalismo e com reestruturação produtiva, que gerou a desestruturação da classe trabalhadora, com uma política agressiva de práticas anti-sindicais. Isso acabou conferindo uma transformação no plano das centrais sindicais. Por exemplo, em 1990 nasceu a Força Sindical. Ela herdou o velho peleguismo sindical brasileiro, que queria se reciclar, e se somou com um ideário neoliberal que deu o toque ideológico a essa nova direita. Foi a Força Sindical que introduziu essa prática que é recorrente hoje em todas as centrais sindicais, de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. É a política de pão e circo. Para atrair um grande público, eles vão lá, fazem grandes manifestações, chamam artistas da indústria cultural que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e fazem doação de apartamentos, carros, eletrodomésticos.
JST - Você vê uma perspectiva de retomada das mobilizações no Dia do Trabalho e também na sociedade?
RA - O desafio é criar um sindicalismo de esquerda, capaz de compreender essa nova configuração do trabalho, que tenha um caráter de classe, anti-estatal, que recupere a autonomia política e ideológica da classe trabalhadora contra a política neoliberal do capital e do Estado. A experiência do MST é muito importante para o sindicalismo porque demonstra que é possível fazer um movimento social e político que seja de enfrentamento e não de negociação. O sindicalismo tem que recuperar esse sentido e deve estruturar as categorias que têm tradição de luta para ajudar a estruturar as categorias que não têm, como por exemplo, motoboys, trabalhadores de telemarketing, de supermercado. Hoje há mais de 600 mil mulheres trabalhadoras do telemarketing. Quem vai organizá-las? É preciso também ajudar na organização de movimentos populares não sindicais. Um desafio é pensar como articular aqueles que estão unidos à luta dos trabalhadores, como os sem-teto e os atingidos por barragens. Nós estamos desafiados a pensar formas de organização que incorporem a totalidade da classe trabalhadora e desses movimentos sociais. Temos que recuperar a discussão crítica do capitalismo e das questões que dizem respeito ao futuro da sociedade, que nos obrigam a repor a bandeira do socialismo. E também lidar com bandeiras imediatas como, por exemplo, diminuir o fosso terrível entre trabalhadores estáveis e trabalhadores precários, trabalhadoras que estão no mercado formal e as que estão na informalidade.
Quem é
Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor, entre outros, de “A dialética do trabalho”, da Editora Expressão Popular.
