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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

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Mídia: o verdadeiro partido da burguesia

Por Vito Giannotti*

Não é de hoje que a mídia é um poderoso instrumento da luta de classes e um componente central na disputa de hegemonia, ou seja, na luta para conquistar e manter a dominação da classe dominante. Entretanto, ainda hoje, boa parte das escolas de comunicação, deformadores de jovens estudantes, continuam repetindo o conto de que a mídia é neutra, objetiva, imparcial e que seu objetivo é contar a verdade.

Essas bobagens são repetidas não só em faculdades e cursinhos, mas sobretudo diariamente pela TV Globo. Porém, este coro afinado do sistema não consegue esconder que a mídia tem lado e classe social. Sim, porque a mídia comercial, ou empresarial, tem dono e ele tem interesses de classe. A mídia não é um instrumento neutro com a função ou missão de informar. Ela é uma arma na guerra em curso, entre os que querem manter a sociedade como está e os que querem revolucioná-la.

Há trinta ou quarenta anos atrás, se dizia que a imprensa era o quarto poder. Hoje o quadro ficou mais nítido. No mundo atual, definido como sociedade da informação, podemos dizer que a mídia é parte integrante do poder, que sem ela não se constrói.

A mídia comercial e empresarial, com seus jornais, revistas, rádio e televisão, é o verdadeiro partido da burguesia. Partido no sentido de Antônio Gramsci (intelectual italiano), como instrumento formador de consenso, componente essencial da construção da hegemonia.

Uma lição histórica de dois séculos

Esta função da mídia já aparecia claramente desde a Revolução Francesa, em 1889. Mas foi sobretudo com o aparecimento dos partidos socialistas na Europa do século 19 que o jornal passou a ser o grande instrumento de formação política das massas trabalhadoras na perspectiva socialista. Na Alemanha de 1900, em cada cidade com mais de cem mil habitantes havia um jornal do Partido Social Democrata.

Nos longos anos de preparação da Revolução Russa, os comunistas deram uma enorme importância à criação de uma vasta rede de imprensa para difundir a idéia de revolução e organizar suas forças para realizá-la.

Lênin, em dezembro de 1901, num artigo para o jornal do Partido Social Democrata Russo, com o título de “Por onde começar”, não tinha dúvidas. Para conquistar sua hegemonia, o partido da classe trabalhadora deveria criar um jornal que unificasse e organizasse a luta rumo à revolução.

O século 20 introduziu um arsenal de meios de comunicação. O que era simples imprensa virou mídia. Do velho jornal e dos raros livros, passamos rapidamente ao cinema, rádio, televisão e, finalmente, à internet e toda a mídia eletrônica. Os instrumentos mudaram e se ampliaram enormemente. Mas a realidade política central é a mesma. A mídia é, junto com o exército e os três poderes clássicos, uma das ferramentas da construção e manutenção da hegemonia.

Como age a mídia com a questão da terra e da Reforma Agrária

Não há espanto nenhum quando toda a mídia ataca o MST e suas ocupações de terra. Ela conseguiu construir um consenso na sociedade de que os Sem Terra são violentos, invadem e roubam as terras dos outros. Não trabalham e só pensam em invadir propriedades dos seus legítimos donos.

Todos os jornais, rádios e canais de TV defendem, com unhas e dentes, que o Brasil não precisa fazer a Reforma Agrária. Por isso, toda a mídia ataca o MST, principal movimento de organização das lutas do campo. A mídia, de acordo com os interesses de sua classe, encobre a verdade sobre o tema da terra, mentindo descaradamente. Outras vezes, esconde fatos, o que dá na mesma. E sobretudo, criminaliza os Sem Terra.

Estes meios fazem de tudo para tirar a Reforma Agrária do contexto histórico do país. Por que existem milhões de Sem Terra no Brasil? Por que, quando acabou a escravidão, não se democratizou a terra no país? Como os grandes latifundiários conseguiram suas áreas? Quem disse que estes latifundiários são os verdadeiros donos daquelas terras? E por que a mídia nunca diz que tal terra “invadida” pelos Sem Terra na verdade foi invadida por quem se diz ser seu dono? Por que a mídia, sempre esquece de dizer que o pretenso dono da tal fazenda é um grileiro, ladrão de terras e criminoso? Por que a mídia esconde que, pela lei, a tal fazenda produtiva é produtiva, sim, mas não é de ninguém? Não é do seu chamado dono, pois o Incra já disse que aquela terra é da União, ou seja, é pública, de todos. Portanto, terra para se fazer a Reforma Agrária.

Ao não dizer isso a mídia consegue criar a imagem que os Sem Terras são violentos e assassinos e que por isso, deveriam estar todos presos.

Todo dia, em jornais como a Folha de S. Paulo e tantos outros, nos dizem “Pesquisa diz que 58% acham MST violento” (FSP 17/1/03). É evidente, que depois dos Ratinhos atacar o MST, dos Arnaldos Jabor e os Boris Casoys repetir seus ataques quase diários aos invasores que precisam ser contidos pelo governo, o povo vai acreditar que o MST é realmente violento.

Por tudo isso...

Não adianta esperar e acreditar em Papai Noel. Esta mídia não é idiota. Ela sabe muito bem o que faz. Por isso continuará a atacar o MST; a se escandalizar com o crime de Evo Morales dizer que o gás da Bolívia é dos bolivianos; e a esconder a verdade sobre a privatização da Vale do Rio Doce.

Se quisermos disputar a hegemonia, do ponto de vista da comunicação, há duas coisas a fazer: primeiro perder as ilusões com os meios da burguesia. Segundo, parar de choramingar, criar e fortalecer a nossa mídia. A mídia da nossa classe.

* Vito Giannotti é coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC)

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