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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

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Não ao Deserto Verde!

Número: 
4
Out
2006

As mudas romperam o silêncio

I

Havia um silêncio, sepulcral

sobre dezoito mil hectares roubados
dos povos tupi-guarani
sobre dez mil famílias quilombolas
expulsas de seus territórios

sobre milhões de litros de herbicidas
derramados nas plantações

Havia um silêncio promíscuo

sobre o cloro utilizado
no branqueamento do papel
a produzir toxinas que agridem
plantas, bichos e gentes

sobre o desaparecimento
de mais de quatrocentas espécies de aves
e quarenta de mamíferos
do norte do Espírito Santo

Havia um silêncio intransponível

sobre a natureza de uma planta
que consome trinta litros de água-dia
e não dá flores nem sementes

sobre uma plantação que produzia bilhões
e mais bilhões de dólares
para meia dúzia de senhores

Havia um silêncio espesso

sobre milhares de hectares acumulados
no Espírito Santo, Minas, Bahia
e Rio Grande do Sul

Havia um silêncio cúmplice

sobre a destruição da Mata Atlântica e dos pampas
pelo cultivo homogêneo de uma só árvore:
o eucalipto.

Havia um silêncio comprado

sobre a volúpia do lucro
Sim, havia um silêncio global
sobre os capitais suecos
sobre as empresas norueguesas
sobre a grande banca nacional

Por fim
havia um imenso deserto verde
em concerto com o silêncio.

II

De repente
milhares de mulheres se juntaram
e destruíram mudas
a opressão e a mentira

As mudas gritaram
de repente

e não mais que de repente

o riso da burguesia fez-se espanto
tornou-se esgar, desconcerto.

III

A ordem levantou-se incrédula
clamando progresso e ciência
imprecando em termos chulos
obscenidades e calão

Jornais, rádios, revistas,
a internet e a TV,
as empresas anunciantes
executivos bem-falantes
assessores rastejantes
técnicos bem-pensantes
os governos vacilantes
a direita vociferante
e todos os extremistas de centro
fizeram coro, eco,
comício e declarações
defendendo o capital:

“Elas não podem romper o silêncio!”

E clamaram por degola.

IV

De repente
não mais que de repente
milhares de mulheres
destruíram o silêncio

Naquele dia
nas terras da Aracruz
as mulheres da Via Campesina
foram o nosso gesto
foram a nossa fala.

Assine também o manifesto de homens e mulheres em solidariedade às camponesas da Via Campesina e envie o poema para o governo do Rio Grande do Sul: agenda@gg.rs.gov.br
Com cópia para manifestomulheres@yahoo.com.br

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