Che Vive! Hoje e Sempre!

Número: 
15
Out
2007

No mês de outubro vamos dedicar parte de nossas atividades ao resgate da história de Ernesto Che Guevara, assassinado há 40 anos em um pequeno povoado nas montanhas bolivianas. Por que recordar de Che? Porque ele dedicou toda sua vida para uma causa do povo. Deixou-nos um legado de solidariedade incondicional com todos os oprimidos e de compromisso com as lutas pela libertação dos povos. Grandioso, mas humilde. Nunca permitiu que o transformassem em um mito. Se quisermos uma referência de um militante ou dirigente, sem dúvida, devemos olhar para Che. Ele é um exemplo de superação dos próprios limites. E o fez não por vaidade pessoal ou por inconseqüente heroísmo, mas por um profundo amor à humanidade.

Para homenagear a memória de Che, não basta conhecer sua biografia. É preciso seguir pela trilha dos seus passos, buscando a cada dia ser melhor no seu trabalho, na prática militante, nos estudos e na convivência com os seus. Em sua memória vamos estudar, praticar ações solidárias e celebrá-lo em todas as áreas de reforma agrária. Plantaremos, em cada assentamento, um símbolo para que o ideário de Che floresça e produza os frutos que alimentarão as gerações futuras.

40 anos da morte de Che: Veja mira Guevara e dá tiro no pé

Por Celso Lungaretti*

Os 40 anos da morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, a se completarem no próximo dia 9, dão ensejo a uma nova temporada de caça ao mito Che Guevara por parte da imprensa reacionária, começando por Veja, que acaba de produzir uma das matérias-de-capa mais tendenciosas de sua trajetória.

"Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas", afirma a revista, numa admissão involuntária de que não praticou jornalismo, mas, tão-somente, produziu uma peça de propaganda anticomunista, mais apropriada para os tempos da guerra fria do que para a época atual, quando já se pode olhar de forma desapaixonada e analítica para os acontecimentos dos anos de chumbo.

Não houve, em momento algum, a intenção de se fazer justiça ao homem e dimensionar o mito. A avaliação negativa precedeu e orientou a garimpagem dos elementos comprobatórios. Tratou-se apenas de coletar, em todo o planeta, quaisquer informações, boatos, deturpações, afirmações invejosas, difamações, calúnias e frases soltas que pudessem ser utilizadas na montagem de uma furibunda catalinária contra o personagem histórico Ernesto Guevara, com o propósito assumido de se demonstrar que o mito Che Guevara seria uma farsa.

Assim, por exemplo, a Veja faz um verdadeiro contorcionismo retórico para tentar tornar crível que, ao ser preso, o comandante guerrilheiro teria dito: "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto". Ora, uma frase tão discrepante de tudo que se conhece sobre a personalidade de Guevara jamais poderá ser levada a sério tendo como única fonte a palavra de quem posou como seu captor, um capitão do Exército boliviano (na verdade, eram oficiais estadunidenses que comandavam a caçada).

É tão inverossímil e pouco confiável quanto a "sei quando perco" atribuída a Carlos Lamarca, também capturado com vida e abatido como um animal pelas forças repressivas.

E são simplesmente risíveis as lágrimas de crocodilo que a Veja derrama sobre o túmulo dos "49 jovens inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na Bolívia" e morreram perseguindo os guerrilheiros. Além de combater um inimigo que tinha esmagadora superioridade de forças e incluía combatentes de elite da maior potência militar do planeta, Guevara ainda deveria ordenar a seus comandados que fizessem uma cuidadosa triagem dos alvos, só disparando contra oficiais...

É o mesmo raciocínio tortuoso que a extrema-direita utiliza para tentar fazer crer que a morte de seus dois únicos e involuntários mártires (Mário Kozel Filho e Alberto Mendes Jr.) tenha tanto peso quanto a de quatro centenas de idealistas que arriscaram conscientemente a vida e a liberdade na resistência à tirania, confrontando a ditadura mais brutal que o Brasil conheceu.

Típica também – e não por acaso – da retórica das viúvas da ditadura é esta afirmação da Veja sobre o legado de Guevara: "No rastro de suas concepções de revolução pela revolução, a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Assim, a onda revolucionária que se avolumou na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970 teria como causa "as concepções de revolução pela revolução" de Guevara e não a miséria, a degradação e o despotismo a que eram submetidos seus povos. E a responsabilidade pelos banhos de sangue com que as várias ditaduras sufocaram anseios de liberdade e justiça social caberia às vítimas, não aos carrascos.

É o que a propaganda enganosa dos sites fascistas martela dia e noite, tentando desmentir o veredicto definitivo da História sobre os Médicis e Pinochets que protagonizaram "alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas".

Não existe muralha nenhuma impedindo a correta observação desses episódios, tanto que ela já foi feita pelos historiadores mais conceituados e por braços do Estado brasileiro como as comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos. Há, isto sim, a relutância dos verdugos, de seus cúmplices e de seus seguidores, em aceitarem a verdade histórica indiscutível.

E a matéria-de-capa da Veja não passa de mais um exercício do jus esperneandi a que se entregam os que têm esqueletos no armário e os que anseiam por uma recaída totalitária, com os eventos desastrosos e os banhos de sangue correspondentes.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor, ex-preso político e autor do livro Náufrago da Utopia

A América Latina é uma esperança, diz Evo na homenagem a Che

Sob o sol, o vento e a poeira fortes, o presidente da Bolívia, Evo Morales, falou nesta segunda-feira, dia 8, para uma platéia de pouco mais de mil pessoas, ao lado do local onde foram encontrados os restos mortais de Che Guevara, em Vallegrande, sudeste da Bolívia. Um discurso marcadamente ambientalista deu o tom da fala do presidente boliviano, precedido por saudações de ex-guerrilheiros, intelectuais e representantes de Cuba e Venezuela que exaltaram o socialismo do século 21.

Daniel Cassol
Agencia Carta Maior

”A América Latina deve viver com dignidade e liberdade. Não podemos mais ser o pátio dos fundos do imperialismo norte-americano", disse Evo, que teve nos Estados Unidos um dos focos principais de sua fala. "A luta heróica de Che e de outros revolucionários continuará até acabarmos com o capitalismo. Esta é a luta dos povos", afirmou.

O presidente boliviano defendeu a nacionalização dos recursos naturais, que tem garantido um aumento considerável no orçamento do país e nas reservas internacionais. "Antes, para onde ia este dinheiro?", indagou. Morales também defendeu a continuidade dos trabalhos da Assembléia Constituinte, como forma de avançar com as transformações no país. Uma das propostas é proibir a instalação de bases militares dos Estados Unidos na Bolívia.

Evo Morales voltou a fazer críticas à produção de biocombustíveis no continente, no momento em que fez uma referência direta ao Brasil, pedindo desculpas aos brasileiros presentes. "Trata-se de uma política totalmente equivocada. Os alimentos não podem ser para os carros norte-americanos", falou. O presidente também afirmou que a América Latina pode se tornar a "esperança da humanidade", se conseguir defender seus recursos naturais, falando especialmente da energia, da água e da terra. "Temos que lutar por uma nova forma de vida, para não transformar nosso continente em lixo. A América Latina é a esperança para os povos da Terra. Se cuidarmos bem dos nossos recursos naturais, seremos a esperança para a humanidade", disse.

Disputa aberta

As localidades de Vallegrande e La Higuera, pertencentes ao departamento de Santa Cruz de la Sierra, parecem ter se transformado num palco de disputa simbólica entre os movimentos sociais e governo boliviano, de um lado, e a direita do país, de outro. A população local, beneficiada por uma reforma agrária realizada há mais de 50 anos e muito religiosa, é conservadora, a despeito da pobreza que grassa na região. Soma-se a isso a propaganda ideológica proporcionada pelos meios de comunicação de Santa Cruz, a cidade mais rica da Bolívia, onde a elite local se "organiza e se recicla", nas palavras de Osvaldo Chato Peredo, presidente da Fundação Che Guevara.

"Não se trata de uma luta regional. Coincide com o fato de que Santa Cruz aglutina a direita boliviana. São interesses econômicos muito grandes, que não são simplesmente regionais", explica Chato. "A Bolívia esta dividida num mapa horizontal, entre os de cima, que sempre estiveram no poder, e os de baixo, que agora emergem", completa.

Desde o início do evento, os organizadores reclamam da pouca ajuda ofertada pelo prefeito de Vallegrande, que integra o partido Ação Democrática Nacional. Até mesmo os rumores de que grupos direitistas haviam tomado La Higuera eram boatos, possivelmente produzidos por setores da direita de Santa Cruz. Nas ruas, uma parte considerável da população local repete o discurso reacionário, de que preferem homenagear os soldados do exército oficial, que lutaram pelo país, a exaltar os "cubanos" que mataram os bolivianos na época.

Em contrapartida, Vallegrande, com a "sorte" de suas terras terem servido de túmulo para Che por mais de 30 anos, agora recebe obras do governo boliviano, com ajuda das embaixadas de Cuba e Venezuela. São reformas no hospital e melhorias no transporte, uma forte presença de médicos cubanos e a implementação dos programas de alfabetização baseados no método "Sim, eu posso". O embaixador de Cuba na Bolívia, Rafael Céspedes, lembra que a solidariedade entre os dois países é incondicional, sem contrapartidas. "É uma integração que faz parte do sonho do Che", diz.

Para o deputado federal Ivan Valente, há um conflito instalado no país. "As realizações do novo governo são bastante positivas no campo da saúde, da educação. Foi um choque para a elite boliviana. É um processo traumático, uma elite de 500 anos. E a região mais rica da Bolívia esta produzindo uma ideologia conservadora, antiintegração da AL".

Em 2008, 80 anos

No ano que vem, no dia 14 de junho, Ernesto Che Guevara completaria 80 anos. Os representantes da Fundação Che Guevara afirmam que, possivelmente, ocorrerá um grande ato em Rosário, na Argentina, local de nascimento de Che.

Nesta segunda, uma caravana de táxis, ônibus e pessoas em carona percorreu as duas horas de estrada, à beira de despenhadeiros, até chegar em La Higuera. Um ato político foi realizado a partir da meia-noite, seguido de uma vigília na escolinha legal, onde Che foi fuzilado. Nesta terça (9), no dia dos quarenta anos da morte de Guevara, será realizado uma mística de encerramento, comandada pela Via Campesina Internacional. A atividade terá as presenças de João Pedro Stedile (MST), Dom Tomas Balduino (CPT), do ex-senador João Capiberibe e do ator Chico Diaz, entre outras personalidades brasileiras.

Veja fotos das atividades em homenagem ao Che na Bolívia

Foto: Evo discursa na cerimônia em Vallegrande

A Vida de Che

Fidel, ao referir-se a Che, disse: “nos deixou seu pensamento revolucionário, nos deixou suas virtudes revolucionárias, nos deixou seu caráter, sua vontade, sua tenacidade, seu espírito de trabalho. O homem que deve ser modelo para nosso povo”.

Em 14 de junho de 1928 nasce em Rosário, na Argentina, sendo o mais velho dos cinco filhos do casamento entre Ernesto Guevara Lynch e Célia de la Serna Llosa. São seus irmãos: Roberto, Célia, Ana Maria e Juan Martín.

Os primeiros quatro anos de sua vida transcorrem em sua cidade natal, Misiones, e em Buenos Aires, onde aos dois anos de idade sofre seu primeiro ataque de asma que motiva a transferência da família a Alta Gracia, a 30 km de Córdoba. Em Alta Gracia começa a ir à escola, e em Córdoba, aos 14 anos, começa o ensino médio. Ávido leitor desde sua infância, possuidor de uma vasta cultura, por seus olhos passam as obras de Dumas, Salgari, Júlio Verne, Stevenson e outros. Aos 17 anos começa a redigir um Caderno de Filosofia, matéria de interesse ao longo de sua vida.

Em abril de 1947 termina o segundo grau e nesse ano a família se transfere à capital argentina, onde Che se matricula na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires. Simultaneamente aos estudos, também trabalha como enfermeiro no município de Buenos Aires, em barcos mercantes e na clínica do Dr. Pisani, considerado o melhor especialista da Argentina em Alergia, experiência que lhe servirá para realizar trabalhos de pesquisas. Pratica esportes: xadrez, futebol, natação.

Em 1950, estudante de Medicina, empreende uma viagem pelo interior do país, conduzindo uma motocicleta, antecedendo seu sua viagem pelo continente. Percorre 12 províncias do interior do país, cerca de 4500 km. Fundou a revista Tackle.

Em dezembro de 1951, em companhia de seu amigo Alberto Granado e da Poderosa II (motocicleta), inicia um percurso pela América que começa ao sul da Argentina e os leva a Chile, Peru, Colômbia e Venezuela, e como registra em suas anotações pessoais, isso provocou-lhe tamanhas mudanças do que poderia imaginar. A viagem é feita em motocicleta, em caminhões de carga, como caroneiros em barco ou em uma simples balsa pelos rios caudalosos da América. Em San Pablo, Peru, trabalham durante algum tempo em um leprosário. Em Caracas os amigos se separam. Che regressa a Buenos Aires para terminar seus estudos de Medicina.

Em junho de 1953 se graduou como médico, e sai de novo, em 7 de julho de 1953, de Buenos Aires, rumo a Bolívia com seu amigo Carlos “Caliça” Ferrer – 6 mil quilômetros em trem – atravessa o lago Titicaca, volta ao Peru e mais tarde está no Equador, daí seguindo a Panamá e depois Costa Rica e Nicarágua, El Salvador e, finalmente, Guatemala. Caminhos de revolução que o aproximam pela primeira vez ao que definira como uma autêntica revolução.

Che leu muito e viu muito mais em suas viagens pela América, o que o conduz a um contato muito estreito “com a miséria, com a fome, com as doenças, com a impossibilidade de criar um filho por falta de condições, com o embrutecimento provocado pela fome e pelo castigo contínuo...” A essa singular experiência agrega-se um acontecimento de repercussões inimagináveis, o encontro com cubanos que tomaram os quartéis de Moncada e Bayamo e que estavam exilados na Guatemala. Dentre eles destaca-se a presença de Ñico López, homem de esquerda, com o qual se produz uma total afinidade e através do qual Che começa a conhecer Fidel Castro, líder do movimento para alcançar a plena libertação de Cuba.

Com a invasão mercenária contra o governo de Jacobo Arbenz, o governo norte-americano consegue a derrubada da revolução da Guatemala, em junho de 1954, e Che decide viajar ao México. Na viagem de trem ao país asteca conhece Júlio Roberto Cáceres, “El Patojo”, com quem trabalha como fotógrafo ambulante na capital mexicana, ao mesmo tempo em que realiza pesquisas científicas.

Em outubro de 1954 reata suas relações com Ñico López e com os revolucionários cubanos residentes no México. Uma noite de julho de 1955 conhece Fidel, e ao terminar o encontro, Che era um dos futuros expedicionários do Granma.

Em meados de 1955 contrai matrimônio com Hilda Gadea, com a qual teve uma filha, Hildita. Em junho de 1956, junto com Fidel e outros companheiros é feito prisioneiro. Quando o iate Granma parte de Tuxpan, em 25 de novembro de 1956, Che tinha a responsabilidade de ser o médico da tropa.

Depois vêm dois anos de guerra, a dispersão inicial, o reagrupamento, a organização das forças, as batalhas: Alegria de Pío, La Plata, Arroyo del Infierno, o Uvero, Bueycito, El Hombrito, Pino del Agua, Mar Verde, Altos de Conrado, Santa Rosa.

Em Alegria del Pío, uma rajada lhe fere no pescoço. Em Uvero, em 28 de maio, se destaca por sua bravura. Em La Plata, junto a Fidel e outros companheiros, atacam de frente o quartel. Converte-se em um tático e estrategista insuperável, demonstrado em toda sua trajetória de luta em terras cubanas. Em julho de 1957 é o primeiro expedicionário do Granma promovido a comandante e designado chefe da segunda coluna do Exército Rebelde, a número 4. Em Altos Conrado é ferido em um pé.

Com a asma, a mochila e o fuzil às costas realiza marchas intermináveis. Funda o jornal “El Cubano Libre”, cura, combate, organiza. Participa na derrota da ofensiva de verão da tirania à frente a sua tropa. Depois do combate de Santa Rosa fica responsável pela Escola de Recrutas de Minas del Frío.

Em 31 de agosto de 1958 inicia a invasão à parte ocidental do país, no comando da coluna 8 “Ciro Redondo”, com o objetivo essencial – seguindo as ordens do Comandante Fidel Castro – de cortar o fornecimento do Exército da ditadura às províncias orientais, agrupar as forças revolucionárias do território de Las Villas e conduzi-las sob um comando único. Em 9 de setembro tem seu primeiro encontro com as tropas inimigas, na La Federal, e o segundo em 14 de setembro, em Cuatro Compañeros. A coluna chega à região montanhosa de Las Villas em 16 de outubro, começando assim a histórica Campanha de Las Villas. São tomadas suas principais cidades até finalizar com a Batalha de Santa Clara e a rendição das tropas inimigas em 1º de janeiro de 1959.

Exemplo, multiplicidade e integridade o distinguem, quando apesar de suas enormes responsabilidades edita o jornal El Cubano Libre, em 1957, no qual, com o pseudônimo de Franco atirador redige diversos artigos, em permanente tarefa educativa, e em fevereiro de 1958 funda a Radio Rebelde. Além disso, cria pequenas indústrias de guerra com o fim de satisfazer necessidades primárias da contenda.

Ao triunfo da revolução, por ordens de Fidel, parte a Havana para ocupar a Fortaleza de São Carlos de La Cabaña. Chega à frente de sua coluna em 3 de janeiro de 1959. Em 2 de junho de 1959 contrai matrimônio com Aleida March de la Torre, combatente que conhece na serra de Escambray, com a qual tem quatro filhos: Aleida, Camilo, Célia e Ernesto.

Após o triunfo revolucionário lhe são designadas múltiplas responsabilidades de Estado e de governo, primeiro como Chefe Militar de La Cabaña e de Capacitação do Exército Rebelde; posteriormente chefe do Departamento de Industrialização do INRA (Instituto Nacional de Reforma Agrária), presidente do Banco Nacional, Chefe Militar da Região de Ocidente, Ministro de Indústrias, membro da Direção do Partido, com responsabilidades na Junta Central de Planificação (JUCEPLAN). Recebeu os títulos de Cidadão cubano, Doutor Honoris Causa em Pedagogia e Filho Adotivo de Cabaiguán e Fomento.

Desde 1959 desempenha diversas funções dentro da Política Exterior da Revolução Cubana. Viajou à frente de numerosas delegações, destacando-se as visitas realizadas nos países que constituíam o Pacto de Bandung, precursor do Movimento dos não-Alinhados; a assinatura de convênios com os países socialistas, sua participação em conferências internacionais em Punta del Este, Uruguai, em 1961; preside a delegação que participa da Conferência das Nações Unidas sobre comércio e Desenvolvimento, que se realiza na Suíça, em 1964; preside uma delegação à Assembléia Geral da ONU em 1964, onde pronuncia um histórico discurso. Em 1965 participa na Conferência de Argel, em 24 de fevereiro e pronuncia um discurso muito importante.

O legado de seu pensamento teórico, dinâmico e criativo ficou registrado em numerosos artigos e entrevistas, em edições nacionais e internacionais. Fundou as revistas Verde Olivo, Nuestra Industria e Nuestra Industria Económica. Publica os livros Guerra de guerrilhas e Pasajes de la guerra Revolucionária, além de documentos de transcendência universal: “El Socialismo y el hombre em Cuba” e o mundialmente conhecido como “Mensaje a la Tricontinental”.

No âmbito militar, como Chefe Militar do Ocidente, durante a invasão mercenária por Playa Girón estabeleceu a chefatura em Pinar del Rio, do mesmo modo em que na Crise de Outubro, instala o comando na Cueva de los Portales, na mencionada província. Como Ministro da Indústria assentou as bases do desenvolvimento industrial do país, multiplicando a instalação e ampliação de fábricas com um sentido integral, com o objetivo de garantir a construção socialista no país.

Em 1965 começa um novo ciclo em sua vida, determinado pelo internacionalismo revolucionário. Em abril daquele ano dirige sua carta de despedida a Fidel e ao povo de Cuba, onde destaca: “Outras terras do mundo reclamam a colaboração de meus modestos esforços”.

Em abril de 1965 chega às selvas do Congo, onde permanece por sete meses. Em 1966 por insistência de Fidel, regressa a Cuba, onde incógnito se prepara junto a um grupo de companheiros e parte depois, em 23 de outubro do mesmo ano, para a Bolívia para consagrar-se à causa da libertação da América Latina.

Na Bolívia, comanda o Exército de Libertação Nacional (ELN), travando numerosos combates durante os onze meses em que se estende a peleja, contra um exército treinado e armado por assessores estadunidenses.

No combate de Quebrada del Yuro, em 8 de outubro de 1967, com feridas em uma perna que lhe dificultavam caminhar, com o fuzil destruído por um balaço e sem o carregador de sua pistola, é feito prisioneiro e conduzido ao povoado de La Higuera. É assassinado no dia seguinte na escolinha de la Higuera, por ordens da CIA e do Alto Comando do Exército boliviano.

Seu cadáver foi sepultado em uma vala comum em Vallegrande, com outros combatentes caídos ou assassinados no combate de Quebrada del Yuro, considerado seu penúltimo combate porque seu exemplo continua sendo um estandarte de luta e porque, como disse Fidel, “...de Ernesto Guevara nunca se poderá falar no passado...”

Durante 30 anos seus restos mortais permaneceram naquela localidade, até a data de sua descoberta, em 28 de junho de 1997 e seu traslado a Cuba, em 12 de julho desse mesmo ano. Posteriormente, as províncias de Ciudad de La Habana, La Habana, Matanzas e Villa Clara, representando o povo de Cuba, prestam-lhe homenagem póstuma e em 17 de outubro, seus restos mortais juntamente com os dos outros combatentes encontrados naquela data, são depositados no mausoléu que leva seu nome, na cidade de Santa Clara, com o qualificativo outorgado pelo companheiro Fidel, de “companheiros heróicos do destacamento de reforço”.

Realizada pelo Centro de Estudos Che Guevara
Havana, Cuba

Che e o legado revolucionário

No mês de outubro vamos dedicar parte de nossas atividades ao resgate da história de Ernesto Che Guevara, assassinado há 40 anos em um pequeno povoado nas montanhas bolivianas. Por que recordar de Che? Porque ele dedicou toda sua vida para uma causa do povo. Deixou-nos um legado de solidariedade incondicional com todos os oprimidos e de compromisso com as lutas pela libertação dos povos. Grandioso, mas humilde. Nunca permitiu que o transformassem em um mito. Se quisermos uma referência de um militante ou dirigente, sem dúvida, devemos olhar para Che. Ele é um exemplo de superação dos próprios limites. E o fez não por vaidade pessoal ou por inconseqüente heroísmo, mas por um profundo amor à humanidade.

Para homenagear a memória de Che, não basta conhecer sua biografia. É preciso seguir pela trilha dos seus passos, buscando a cada dia ser melhor no seu trabalho, na prática militante, nos estudos e na convivência com os seus. Em sua memória vamos estudar, praticar ações solidárias e celebrá-lo em todas as áreas de reforma agrária. Plantaremos, em cada assentamento, um símbolo para que o ideário de Che floresça e produza os frutos que alimentarão as gerações futuras.

Fidel publica texto em homenagem a Che Guevara

Fidel Castro homenageou Ernesto Che Guevara, “o predestinado e semeador de consciências que combatia conosco e por nós” em uma nota publicada nesta segunda-feira, dia 8, na qual expressou seu respeito e gratidão ao combatente excepcional, na celebração dos 40 anos da captura e morte de Che na Bolívia.

Cuba comemora nesta segunda-feira, em Santa Clara – onde o guerrilheiro participou de sua principal batalha em 1958 e onde está seu corpo desde 1997 – o 40º aniversário da queda em combate do “Guerrilheiro Heróico”.

O concerto “Homem e Amigo” de trovadores latino-americanos na Universidade de Santa Clara, dirigido pelo cubano Silvio Rodríguez, abriu formalmente à noite o tributo a Che e marcou o início também do "Ano Guevariano" que terminará na Argentina em 2008, quando o guerrilheiro iria completar 80 anos.

Confira abaixo o texto escrito por Fidel:

El Che

“Faço uma pausa no combate diário para inclinar minha cabeça, com respeito e gratidão, ante o combatente excepcional que caiu em um 8 de outubro, há 40 anos.

Pelo exemplo que nos deu com sua Coluna Invasora, que atravessou os terrenos pantanosos ao sul das antigas províncias do Oriente e Camagüey perseguido por forças inimigas, libertador da cidade de Santa Clara, criador do trabalho voluntário, cumpridor de honrosas missões políticas no exterior, mensageiro do internacionalismo militantes aqui e na Bolívia, semeador de consciências em nossa América e no mundo.

Dou-lhe graças pelo que tratou de fazer e não pôde em seu país natal, porque foi como uma flor arrancada prematuramente de seu caule.

Deixou-nos seu estilo inconfundível de escrever, com elegância, concisão e veracidade, cada detalhe do que se passava por sua mente. Era um predestinado, mas ele não sabia disso. Combateu conosco e por nós.”

Fidel Castro Ruz

Fonte: Granma

Luta de Che Guevara ainda é atual, diz Emir Sader

Esquerdista, Sader tem uma visão bem diferente da de Alvaro Vargas Llosa, que em entrevista ao G1 disse que Che "incorporou o pior na tradição da violência política na América Latina e acabou contribuindo para o subdesenvolvimento do continente".

"Che teve um papel, e continua tendo, em que expressa a rebeldia, a vontade revolucionária diante da exploração, das injustiças, da opressão e da alienação", afirma Sader, que ressalta a impressionante difusão da imagem do líder guerrilheiro no mundo, mesmo sem ter nenhum tipo de promoção, nem de Hollywood, nem de qualquer companhia privada. " Nenhum produto comercial está associado mundialmente a Che, só sua imagem e que está associada a ele."
Em entrevista ao portal, Sader respondeu que, se Che estivesse vivo, ele estaria "em algum lugar da América Latina, da África ou da Ásia, no sul do mundo, lutando pela emancipação dos povos."

Doutor em ciência política pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Sader é autor de "Cartas a Che Guevara - O mundo trinta anos depois" (editora Paz e Terra), lançado há dez anos -e já esteve em Cuba algumas vezes.

Quando questionado sobre os últimos dias de Fidel na Bolívia, onde foi assassinado, Sader disse que "toda a ação do Che [neste país] foi programada e coordenada com Fidel Castro. O resto é exploração sem fundamento", escreveu, descartando a hipótese de Fidel ter sonegado ajuda ao companheiro da Revolução Cubana.

Futuro

Mas de onde vem essa capacidade de Che de continuar renascendo após décadas de sua morte? "É que as mesmas condições de opressão, de injustiça e de exploração continuam existindo nos dias de hoje", responde Sader.

Para o intelectual o estágio atual do capitalismo e da globalização não matou qualquer possibilidade de existirem outros Ches. Para ele, ainda é possível surgir muitas pessoas idealistas como Che.

"A globalização neoliberal colocou a luta no plano mundial e o Che foi um dos que projetou a luta revolucionária a nível mundial, muito tempo antes. Evo Morales [presidente da Bolívia], Hugo Chávez (presidente da Venezuela] e Rafael Correa [presidente do Equador], entre outros, são descendentes de Che", escreveu Emir Sader.

do Portal Vermellho

Sinais de esperança nas canções de amor

Queridos irmãos, companheiros/as de caminhada,

Fui convidado pela direção nacional do MST para participar das comemorações internacionais do 40º aniversário do assassinato do Che Guevara em Valle Grande e La Higuera, no interior de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Pediram-me para ser um dos coordenadores do ato ecumênico celebrado em La Higuera, lugar em que o Che foi assassinado.

Viajei do Brasil com quinze pessoas, das quais alguns militantes do MST, coordenados pelo amigo João Pedro Stédile, companheiro de tantos anos de luta e fiel continuador da causa humanitária do Che, alguns jornalistas, um simpático casal de políticos populares (João Capiberibe, ex-governador do Amapá e ex-senador e sua esposa Janete, deputada federal), uma família de cantores da região misionera do Rio Grande do Sul, um monge zen-budista, Dom Tomas Balduíno e eu. (Não digo aqui o nome de cada um dos participantes, não porque cada um não seja importante, mas porque não pedi permissão para citá-los. Sei que os irmãos, cujos nomes revelei, não se incomodam com isso).

A viagem foi muito cansativa e a estrada de terra tem trechos perigosos nas quebradas dos Andes. Em uma altitude que chega a 2000 metros, o sinuoso caminho se cola às montanhas, tendo do seu lado e sem proteção, abismos muito profundos. Tudo isso valeu a pena pela emoção que foi percorrer a mesma “ruta do Che”, ver os lugares por onde ele passou, dar-se conta da sua coragem e sacrifício em percorrer a pé ou de jipe uma região ainda hoje quase impenetrável e muito isolada do mundo e, principalmente, deixar-se inundar pelo mesmo amor à humanidade que o mobilizou para aquela luta quase louca e suicida.

1. Na “ruta do Che”

Vallegrande é uma cidade perdida no vale que realmente é mais do que grande (enorme). Açoitada pelos ventos frios que vem dos contrafortes dos Andes, a cidade foi fundada pelos espanhóis no começo do século XVII e até hoje se mantém isolada entre caminhos de terra que desanimam qualquer viajante menos afoito. La Higuera, pequeno povoado de cem habitantes, sessenta quilômetros adiante, no meio das montanhas, é testemunha do local do seu martírio e guarda o Grupo Escolar onde ele foi preso e executado sumariamente. Hoje, esta casa é um museu comunal.

Pessoas do lugar vivem de forma tão precária e sem recursos como na época do Che. Pelo que parece, o local só vê pessoas de fora uma vez ao ano, em outubro, no aniversario da morte do Che. As pessoas do local vêem então neste momento uma possibilidade de ganhar algum trocado. Esta situação ambígua pode ser percebida por qualquer um que chegue a La Higuera. Vários dos moradores contam o que os turistas querem ouvir. Mas, não parecem convencidos.

Como o Comandante podia imaginar que sua presença nestas montanhas isoladas e quase intransponíveis iria suscitar nas cidades grupos de resistência à ditadura boliviana e assim incendiar o mundo com a revolução da justiça? O Che foi ignorado pelo povo ao qual queria libertar e traído pelo partido comunista boliviano ao qual ele queria revitalizar. Ele e o seu grupo foram abandonados na montanha e entregues aos militares bolivianos que, assessorados por norte-americanos da CIA, prenderam todos e os mataram, alguns em combate e outros, como o próprio Che, em um assassinato frio.

Estivemos juntos (o nosso grupo) no memorial construído pelos cubanos sobre o fosso onde jogaram o seu corpo (ao lado do pequeno aeroporto de Vallegrande). Ali contemplamos as fotos dos companheiros caídos e descemos até o fosso onde foi depositado os corpos dos seis guerrilheiros (entre os quais o Che) e fizemos uma oração ecumênica curta, sóbria e comovente. Depois, fomos ao hospital (funciona até hoje como hospital) para onde os militares levaram o cadáver. Ali fomos à velha lavanderia onde há o tanque sobre o qual colocaram o corpo para lavar e o deixaram exposto à população. O tanque de pedra está, hoje, todo cheio de pequenas inscrições e recados com nomes de pessoas que saúdam o Che ou pedem a graça de reviver seu espírito, como os antigos cristãos sempre fizeram em um túmulo de um santo mártir. Naquele silêncio religioso, chorei de emoção e de tristeza por sinais contraditórios que percebi.

2. Uma confissão para mim dolorosa

Descobri que a memória do Che aquece de esperança transformadora grupos de todo o mundo e serve de apelo a todos os que são tocados pela confiança no futuro da humanidade. Em La Higuera, vimos e reunimos dezenas de jovens que vieram de vários paises do continente latino-americano e da Europa para homenagear o comandante e dizer seu desejo de mudar o mundo. Entretanto, tudo isso parecia ainda muito frágil.

Basta percorrer a região, como, mesmo muito rapidamente, nós o fizemos de micro-ônibus e parando em certos locais simbólicos, para perceber que a miséria e o abandono do povo continua igual ou pior. Os pobres estão mais pobres e os lavradores mais abandonados no campo vazio e sem perspectivas, ao menos aparentes. Cada vez que, em meio aquelas imensas montanhas de pedra e areia, avistávamos uma casinha de lavrador ou umas poucas vacas magérrimas pastando terra (não se vê capim), nos perguntávamos como alguém pode viver ali. Sobreviver de que? Como criar filhos, como ter o necessário indispensável à vida? A população de traços indígenas nos olha como estrangeiros que vêem alguma coisa que eles mesmos não vêem e não parecem crer. Por motivos de segurança do grupo e para não expor a vida do próprio povo, o Che não podia ter muitos contatos, nem criar laços com o povo do lugar. Até hoje, estes laços não parecem existir.

Em Vallegrande e La Higuera, a memória do Che continua sendo um fato incômodo e pouco assimilado pelas pessoas. A mulher de La Higuera que aceitou dar um testemunho pessoal no ato ecumênico só falou do seu medo. “Na época eu vivia aqui, tinha 17 anos e vi quando trouxeram os guerrilheiros para cá e ouvi os tiros. Todos nós só tínhamos muito medo e queríamos fugir daqui. Só!”.

Em Vallegrande, um jornalista amigo descobriu um único brasileiro na cidade. É pastor de uma Igreja pentecostal que veio do Brasil para converter os bolivianos ao Cristo. Pessoalmente, está bem de vida e quando lhe perguntam sobre o Che o julga um pecador iníquo que mereceu a condenação divina. Não é uma opinião isolada já que o prefeito da cidade pretendia impedir a reunião marcada por entidades internacionais e pela Fundação Che Guevara. Dizem que, no sábado, chegou a cortar a luz da cidade para esvaziar um encontro marcado dos amigos e admiradores do Che. Mesmo o povo pobre usa cartazes e recordações turísticas com a imagem do Che para ganhar dinheiro, mas poucos se identificam com a sua causa ou manifestam por ele qualquer admiração. A propaganda, até há pouco tempo, oficial lhes ensinou que ele era um estrangeiro que veio a Bolívia matar jovens bolivianos.

Entretanto, devo confessar que, mesmo as organizações que, hoje, se referem à memória inspiradora do Che e se reuniram neste aniversário, não me pareceram primar pela justa articulação e pela clareza da comunicação com todos os companheiros e pessoas envolvidas na comemoração. Desde o começo, as informações me pareceram meio truncadas e até às vezes desencontradas. Isso me pareceu dificultar e até enfraquecer a dimensão profética da comemoração social e política ali ocorrida. Lamentei ter perdido muita coisa por não ter conseguido chegar em tempo e por falta desta articulação e informação mais correta.

Posso estar enganado, mas senti como se nosso compromisso com a causa do Che não fosse ainda suficientemente forte e clara para nos tornar capazes de nos organizar melhor e de forma mais articulada. Tudo me pareceu (posso estar enganado) meio dispersivo e algumas coisas improvizadas. Com toda a admiração que tenho pelo presidente Evo Morales, não me parece justo que pelo fato dele ter antecipado sua vinda e seu discurso em Vallegrande, o encontro tenha sido esvaziado e, depois da fala do presidente, as pessoas tenham se dispersado. O que diria disso o Che?

3. Sinais de esperança nas canções de amor

Parece que o festival artístico, à noite do 08, em uma das praças principais de Vallegrande foi concorrido e coroado de êxito. Alguém me disse que o público calculado era mais de duas mil pessoas. Ali se apresentaram cantores/as de diversos países e o teor artístico era dos melhores. O Brasil foi muito bem representado pela apresentação da família Guedes, pai e filhos da região misionera do Rio Grande do Sul.

Podemos dizer que a união com o povo que, segundo parece, o encontro de reflexão social e política não conseguiu manifestar tanto, o festival de canções pareceu ter alcançado. Houve momentos que pareciam profundamente comovedores.

Esta noite de canções latino-americanas, expressões da resistência de nossos povos acabou servindo como uma espécie de vigília do ato ecumênico que os brasileiros coordenaram na manhã do 09 em La Higuera, em meio à viagem dura e arriscada pelas montanhas e vales da região.
Naquela manhã, de certa forma, éramos poucas pessoas. Muitos dos companheiros já tinham passado por La Higuera nos dias anteriores e principalmente na véspera, dia imortalizado como data da queda do Che.

O ato ecumênico começou diante da sua estátua, erguida no meio do povoado. Ali, nos apresentamos uns aos outros, pessoas de diversas origens e pertenças. Ali, renovamos nosso amor à Mãe Terra, nosso desejo de atualizar o compromisso do Che e doar a vida pela transformação do mundo. Fomos em caminhada até a frente do Museu Comunal, local que há 40 anos era um grupo escolar em cuja sala o Che foi assassinado. Ali, ajudados pela família de cantores brasileiros do sul e por outro companheiro do MST que canta muito bem, entoamos canções de esperança, relemos um trecho do diário do Che, recitamos um poema e até oramos em um momento de meditação budista.

O companheiro monge zen-budista recordou a luta não violenta dos monges de Myammar pela libertação do seu povo e reafirmou a dimensão espiritual da luta pela transformação do mundo. O bispo anglicano falou que o Che foi evangélico não pela doutrina ou pela confissão de fé, mas pelo amor revolucionário com o qual deu sua vida. João Pedro Stédile expressou: o tiro que quis calar o Che não só não acabou com sua causa, mas, ao contrário, serviu para propagar sua mensagem de inconformidade com a injustiça e sua confiança revolucionária na libertação da humanidade.

3. A herança atual do Che

Há 40 anos, o Che foi apresentado ao mundo como um guerrilheiro fracassado, pobre e despojado. Não poucas pessoas o compararam com o Cristo morto na cruz. De fato, não era apenas o seu rosto e sua figura massacrada pela repressão imperial que lembrava o Cristo. Foi o gesto de dar a vida pelo povo e a sensação de fracasso de sua causa. Hoje ainda, senti este sabor estranho de uma causa que continua viva mas, ao mesmo tempo, parecendo extremamente frágil e quase como se fosse irreal e sem força. Entretanto, como a cruz de Jesus, esta doação do Che tem um apelo de vida e de vitória que não podemos negar.

Não pude ir à marcha intercontinental de povos indígenas que, nestes dias, se aproxima de La Paz e quer celebrar o aniversário de 12 de outubro (da chegada dos colonizadores na Abya Iala) com manifestações de uma nova organização dos povos indígenas. O Che deve ficar contente no céu por este fruto de sua luta.

Ao voltar ao Brasil, escutei um companheiro que me disse rejeitar o Che porque ele seria símbolo de violência como força redentora da história. Considero esta posição falsa e expressão de um dogmatismo rígido, já que as condições históricas da época do Che eram diferentes das atuais.

Hoje, a maioria dos que lutam pela mesma causa concorda que o método guerrilheiro e principalmente a luta foquista não servem como métodos atuais para a libertação. Entretanto, o direito da insurreição dos oprimidos e mesmo da luta armada como opção justa são reconhecidos em casos extremos pela própria tradição cristã e por documentos romanos. Ora, esta era a leitura da realidade que o Che fazia sobre a América Latina e o mundo dos anos 60.

Comprometi-me comigo mesmo a aprofundar a dimensão espiritual da figura e da mensagem do Che Guevara. Estou convencido de que ele, em não se declarar religioso, foi mais espiritual do que se tivesse sido adepto de alguma religião. Sua dimensão evangélica se manifesta na universalidade de sua doação pela humanidade. Um poema do Che, que eu não conhecia, mostra isso. É uma oração que eu cito aqui, para concluir este meu testemunho, porque, nestes versos, o Che se inspira no Cristo pelo seu amor e doação pelos homens. O Che reverencia com seu amor até aquele que a tradição cristã considera o mau ladrão. O título é: “Poema para Cristo”. Diz assim: “Cristo, te amo.

Não porque desceste de uma estrela, mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas e angústias e chaves para abrir as portas fechadas da luz. Sim, tu me ensinaste que o homem é Deus, um pobre Deus crucificado como tu. E aquele que está à tua esquerda no Gólgota, o mau ladrão, também é um deus. Cristo, te amo”. (Che Guevara, Nandahuauzu, Bolívia, outubro de 1967).
É este espírito que quero partilhar com vocês e no qual quero continuar minha missão e junto com vocês. Hasta la Victoria! Siempre! Como nos estimulava o Che a gritar e esperar.

Um abraço amigo do irmão Marcelo Barros
Goiás, 11 de outubro de 2007

Trabalho voluntário lembra os 40 anos da morte de Che Guevara

Em homenagem ao pensamento de Ernesto Che Guevara, todos os anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e diversos outros movimentos sociais realizam a Jornada de Solidariedade e Trabalho Voluntário Che Guevara. Em todos os estados onde o MST se organiza, os Sem Terra vão realizar atividades de melhoramento da infra-estrutura, limpeza de locais públicos ou escolas, além de cultivos agroecológicos e reflorestamento. Em todo o mundo Che será lembrado em atividades nos dias 8 e 9 de outubro.

No Distrito Federal a Jornada começou no último domingo, dia 30, com uma manhã de trabalho voluntário no assentamento Gabriela Monteiro, do MST, situado em Brazlândia. Participaram da atividade as famílias assentadas no local, representantes do corpo diplomático da embaixada de Cuba, professores da Universidade de Brasília, militantes do MST em Brasília, representante da TV Cidade Livre, representante da Via Campesina do México e sindicalistas. Coordenados por integrantes da comunidade, os participantes se dividiram em quatro grupos de trabalho: melhoramento da infra-estrutura, embelezamento do assentamento, agroflorestamento e cultivo da horta.

O trabalho voluntário foi precedido pela mística realizada pela Brigada de agitação e propaganda do MST/DFE Semeadores e pela exposição de Flávio Silva, da direção nacional do MST, que explicou estratégia de atuação do centro de formação e instituto de pesquisa do assentamento, em processo de construção. Segundo Flávio, centro já atua como área coletiva de produção de conhecimento material e intelectual, unindo acampados, assentados e profissionais de diversas áreas e entidades, e que pretende cada vez mais ser um espaço de articulação e diálogo com a sociedade.

Além disso, houve também a participação de Tirso Sáens, presidente da Associação Nacional dos Cubanos Residentes no Brasil (Ancreb) e ex-vice-ministro de Che Guevara, na ocasião em que ele comandou o Ministério da Indústria em Cuba. Ele contou como Che Guevara organizava e participava do trabalho voluntário da Brigada Permanente de Trabalho Voluntário em Cuba. Segundo Tirso, o coletivo trabalhava com meta de produção mensal e os membros tinham que cumprir 240 horas de trabalho voluntário por mês, o que significava uma média de 4 horas por semana.

Após os trabalhos, os assentados ofereceram um almoço e foi exibido o vídeo Lutar Sempre! 5° Congresso do MST, produzido coletivamente por militantes dos setores de Comunicação e Cultura do MST.

A programação das comemorações em homenagem a Che Guevara contam ainda com uma mesa redonda sobre a atualidade do pensamento de Che Guevara na América Latina e um sarau, no próximo sábado, 6, e com um ato político na UnB, no dia 8, com a presença do embaixador de Cuba. Em todas as atividades haverá manifestações de apoio aos cinco cubanos presos injustamente nos EUA, por lutarem contra o terrorismo em seu país, e contra o bloqueio econômico dos EUA sobre Cuba.

(vídeo produzido pela Brigada de Áudiovisual da Via Campesina)

Internacionalismo

No próximo domingo, dia 7, também será realizada, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), a II Jornada Internacionalista de Solidariedade a Che Guevara e Camilo. A idéia é fazer um dia inteiro de atividades voluntárias e também relembrar a prisão e o assassinato de Ernesto Che Guevara, como uma forma e resgatar os valores e princípios deste que foi chamado de "o ser mais completo do século XX" (Jean Paul Sartre). Nesta importante atividade, também aproveitaremos para lembrar do grande combatente Camilo Cienfuengos morto no dia 28/10/1959 em um acidente de avião quando ia de Camagüey para Havana.