No início de 2009, o capital estava francamente em crise. E são nos momentos de crise que as classes sociais podem se reposicionar. Além da expectativa de eclosão de novas lutas, o Movimento se somou a outras organizações para dizer que a crise do capital não é nossa, e não deviam ser os trabalhadores a responder por seus efeitos. Tentamos colocar para a sociedade que a Reforma Agrária era e é a saída para a crise, e como resposta veio mais uma ofensiva contra o Movimento. Fizemos grandes jornadas de lutas, cobrando o cumprimento de compromissos históricos, como o assentamento das famílias, o aumento do orçamento, a atualização dos índices de produtividade. Mais uma vez, os inimigos reagem com a tentativa de desmoralização e chegam a instalar uma CPMI contra a Reforma Agrária. Vanderly Scarabeli, da Coordenação Nacional do MST, conversou com o Jornal Sem Terra sobre essa conjuntura complexa e apontou ainda os desafios para nossa luta em 2010. “Precisamos preparar uma nova ofensiva para o próximo ano”, aponta.
Joana Tavares
Setor de Comunicação do MST
JST – O ano começou com o impacto da crise econômica e a expectativa de reorganização das classes, com uma possibilidade de avanço das lutas populares. Como se deu o movimento das classes para responder à crise do capital?
VS – A crise pegou a classe trabalhadora no Brasil e no mundo desmobilizada e desorganizada, então o capital teve liberdade total de se recompor. Isto não quer dizer que a crise está superada, mas neste momento a classe trabalhadora não tem um projeto que mobilize as massas e possa impor derrotas significativas ao capital. Além disso, a política econômica do
governo Lula tem sido eficiente para manter o sistema funcionando, apesar da crise. Dificilmente uma empresa irá à falência onde existe um banco como o BNDES, que possui em caixa R$ 100 bilhões para salvar a burguesia. A isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) faz parte desta política de salvar o capitalismo. As empresas e o governo federal foram blindados por esta política.
JST – Um desafio constante do Movimento é a articulação de lutas comuns, a construção da unidade com outros setores da classe trabalhadora. O que avançamos neste sentido?
VS – No Brasil houve e há esforços para construir a unidade, agora para combater a crise. Além de reuniões entre diversas organizações, foram realizadas duas grandes mobilizações nacionais contra a crise, em março e agosto, reunindo centrais sindicais e movimentos populares. É preciso criarmos táticas de luta e instrumentos organizativos para que a classe proponha soluções para os seus problemas, e não seja usada para garantir os interesses da burguesia e de seus governos. Para o nosso Movimento esta cada vez mais claro que a construção da unidade é decisiva para a resistência e a vitória da classe trabalhadora. Nós temos nos esforçado para ampliar nossa política de alianças, porém não basta termos clareza, é preciso que a classe trabalhadora tenha instrumentos que facilitem as alianças e a unidade. Os instrumentos existentes são importantes, mas estão com grandes dificuldades de massificação das lutas, o que inclui o MST. Isto não quer dizer que não existem iniciativas, é claro que existem. Podemos citar a Via Campesina, a Assembléia Popular, a Campanha “O Petróleo tem de ser nosso”, que são exemplos desse esforço, mas são ainda insuficientes.
JST – Desde o início do ano, assistimos a um processo que buscava criminalizar o MST e as lutas populares, culminando agora com a CPMI contra a Reforma Agrária. Qual o objetivo dessa criminalização e o que ainda pode estar por vir?
VS – A criminalização dos movimentos sociais faz parte dos métodos de combate de nossos adversários, que primeiro ignoram, depois subestimam e quando nada disso funciona, atacam a moral de quem luta. A CPMI é um dos mecanismos de criminalização e será uma ação articulada envolvendo o parlamento, os meios de comunicação e o Poder Judiciário. É preciso que saibamos os verdadeiros interesses da CPMI, que são os seguintes: impedir a realização da Reforma Agrária; intimidar o governo para que não atualize os índices de produtividade; desmoralizar o MST e todos que lutam no campo brasileiro; fazer o governo recuar nas políticas
para os assentamentos e ainda projetar em melhores condições o candidato do PSDB à presidência da Republica.
JST – Como reagir?
VS – Para enfrentar esta ofensiva da direita iremos aplicar duas táticas. A primeira é continuar fazendo luta, ocupando o latifúndio, porém devemos atacar o que consideramos pontos fracos do agronegócio, como áreas de trabalho escravo, grilagem, problemas ambientais e de propriedade de empresas estrangeiras. Nossa segunda tática é a de popularização do MST, ou seja, fazer ações direcionadas para ampliar o nosso apoio na sociedade, como realizar feiras da Reforma Agrária, campanhas de doação de sangue, incentivar o trabalho voluntário para a sociedade, em colégios, creches, asilos, universidade, etc. Outra ferramenta importante serão as rádios, comunitárias, locais e até rádios comerciais, pois nelas temos mais acesso para explicar para a sociedade os verdadeiros interesses da CPMI e denunciar o agronegócio pela apropriação do dinheiro público, pela depredação do meio ambiente e exploração do trabalho escravo. Devemos aproveitar os Encontros Estaduais para aprofundar o debate sobre este novo momento de luta de classes no campo e preparar nossa ofensiva para o próximo ano. A guerra continua, estamos em mais uma batalha.
JST – Outra questão marcante no ano foi a disputa em torno do orçamento para a Reforma Agrária. Denunciamos o corte de 41% dos recursos para desapropriação, 62% do Pronera e depois de jornadas de lutas, conseguimos a promessa do governo de descontigenciar o orçamento. Em que pé está a questão do orçamento para a Reforma Agrária e as outras promessas do governo após o acampamento nacional?
VS – O governo Lula contingenciou o orçamento de vários ministérios com o objetivo de ter recurso em caixa para garantir os lucros das empresas diante da crise. É claro que foi cortado mais onde a prioridade do governo é menor. Nós fizemos uma boa mobilização nacional e obtivemos conquistas concretas, como o assentamento de Felisburgo O governo se comprometeu com um conjunto de promessas, mas com a falta de prioridade com a Reforma Agrária, somada com a CPMI proposta pela oposição, ele está recuado. Um dos exemplos é em relação à atualização dos índices de produtividade, que está parado. Outro é o compromisso, também ainda não realizado, da destinação de R$ 300 milhões para a aquisição de terras. Mesmo esse orçamento seria insuficiente, pois daria para assentar apenas 5 das 96 mil famílias
acampadas. Ou seja, teremos bons motivos para fazer lutas no próximo ano. O Encontro Nacional (em fevereiro) dará rumo para nosso planejamento.
JST – Em 2009, quais nossos avanços na questão da produção e da consolidação dos assentamentos? Como o Censo do IBGE pode ser aproveitado para provarmos a viabilidade da Reforma Agrária?
VS – Tivemos dificuldade de consolidar alguns dos nossos assentamentos, pois a política agrícola do governo atende com crédito somente 1 milhão das 5,2 milhões de propriedades. Além disso, em 12 estados não há assistência técnica. Mas um fator importante desse ano foi a divulgação do Censo Agropecuário, que revelou a inutilidade do latifúndio e a importância da pequena agricultura para a geração de emprego de 12,3 milhões de pessoas,
para a produção de 85% da mandioca do país, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 59% dos suínos. Devemos usar este censo para fazer em disputa na sociedade em torno do que é melhor para o Brasil e o campo brasileiro.
JST – Qual a perspectiva para a luta por Reforma Agrária em ano eleitoral?
VS – Em outros períodos eleitorais o MST priorizou a formação e a organização interna, porém devemos também aproveitar as eleições de 2010 para pautar a Reforma Agrária, fazendo luta. Estamos sem conquistas objetivas há muito tempo e precisamos fazer ações que abriguem o/a futuro presidente a se posicionar. Teremos também um desafio a mais na construção de unidade, pois o debate eleitoral será prioritário para a maioria das organizações com que o MST se relaciona. Porém um dos aprendizados que tivemos nesses dois mandatos do governo Lula é que sem luta de massa não haverá conquista, ou seja, é preciso debater o pós-eleição, se preocupar com a mobilização da classe.
JST – Quais os principais desafios a serem enfrentados?
VS – No campo dos desafios internos, podemos citar a massificação e organização de nossa base; a preparação para enfrentar a CPMI e os meios de comunicação da burguesia; a formação da base e dos quadros e a mobilização de todo nosso Movimento, com ações estaduais, municipais e locais com todas as famílias acampadas e assentadas, adquirindo um caráter unitário e nacional. No diálogo com a sociedade, precisamos recolocar o debate de Reforma Agrária de forma positiva, por meio de ações junto à população, lutas de massa e articulação com outras organizações. Temos também a necessidade de contribuir na construção
de um instrumento político de organização da classe trabalhadora.
Edição: Joana Tavares.
Revisão: Jaqueline Nikiforos e Maria Mello.
Projeto gráfico e diagramação: Eliel Almeida.
Assinaturas: Mary Cardoso da Silva.
Impressão: Taiga Gráfica e Editora.
Tiragem: 20 mil exemplares.
Endereço: Al. Barão de Limeira, 1232 – CEP 01202-002
São Paulo/SP – Tel/fax: (11) 2131-0840
Correio eletrônico:
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MAIS UMA VEZ a ofensiva do capital contra o MST está em evidência. No estado do Pará esta ofensiva ficou mais acirrada depois das ocupações das terras griladas do Grupo Santa Bárbara, que tem como acionista o banqueiro Daniel Dantas.
A imprensa divulgou imagens repetidas de casas depredadas, colocando os integrantes do MST como os autores. Já o Estado agiu de maneira mais severa. Até o momento, dez integrantes do Movimento tiveram a prisão decretada. Charles Trocate, da coordenação nacional do MST no estado, afirma que a atual perseguição é uma resposta às ocupações que foram realizadas na fazenda do banqueiro Daniel Dantas.
“O MST no Pará iniciou uma jornada de lutas reivindicando uma pauta básica: desapropriação das terras do Daniel Dantas, licença ambiental para os assentamentos e infra-estrutura social. É uma pauta que se arrasta há dois anos. Passando esse período, nenhuma resposta foi obtida e por isso resolvemos nos mobilizar, o que levou a essa reação do governo estadual. Nossas ações não têm nada a ver com as imagens publicadas na televisão e nas matérias da imprensa dominante. Isso é um álibi criado pela agropecuária”, afirma.
Para Dirceu Fumagalli, coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), neste caso a mídia está fazendo um desserviço social. “A mídia faz com que a sociedade reproduza aquilo que ela consegue sintonizar, com imagens e discursos elaborados, atuando para a criminalização dos movimentos”. O cenário agrário do Pará é um dos mais conflituosos do país. Lutar pela terra no estado é lutar pelas questões agrárias da Amazônia, que envolvem, além da terra, água, floresta, minério, biodiversidade, entre outros, e lutar pelas questões sociais. Atuando em todos esses campos, o MST vem colecionando inimigos no estado.
“Há uma crescente disputa pelo território, pelo uso intensivo dos recursos naturais, gerando assim um conflito em que o Estado tem decidido pelos megainvestimentos, esgotando a possibilidade de avançarmos na democratização, em especial da terra”, analisa Charles.
Dos 7 milhões de paraenses, 4 vivem abaixo da linha da pobreza. Atualmente, existem no estado mais de 2,2 mil famílias acampadas em 11 acampamentos. Dados da CPT mostram que no Pará, de janeiro a novembro deste ano, aconteceram 126 conflitos no campo envolvendo mais de 63 mil pessoas. Além disso, houve sete assassinatos de trabalhadores, 17 tentativas e nove agressões. O Estado prendeu 33 pessoas ligadas a movimentos sociais.
Depois de conseguirem emplacar a CPMI contra a Reforma Agrária, os setores mais conservadores do Congresso Nacional passaram a escalar o seu time de parlamentares. Foram convocados inimigos do povo brasileiro para atuar na CPMI e nos bastidores. Esses parlamentares têm como características o ódio aos movimentos populares e o combate à Reforma Agrária e às lutas sociais no nosso país.
São fazendeiros e empresários rurais, que foram financiados por grandes empresas da agricultura e colocaram seus mandatos a serviço do latifúndio e do agronegócio. Nas costas, carregam denúncias de roubo de terras, desvio de dinheiro público, rejeição à desapropriação de donos de terras com trabalho escravo, utilização de recursos ilícitos para campanha eleitoral, devastação ambiental e tráfico de influência.
Essa CPMI faz parte de uma ofensiva desses parlamentares, que tem mais três frentes no Congresso. Até o fechamento desta edição, os nomes dos parlamentares indicados para a CPMI contra a Reforma Agrária já tinham sido lidos, mas os trabalhos não tinham começado. A CPMI pode se arrastar até junho de 2010. O Jornal Sem Terra deste mês de dezembro (nº 299) apresenta os deputados e senadores que estão na linha de frente na defesa dos interesses da classe dominante rural.
KÁTIA ABREU / Senadora (DEM-TO) / Suplente na CPMI
• Formada em psicologia.
• Presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), eleita em 2008 para três anos de mandato. Foi presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (1995-2005).
• Dona de duas fazendas improdutivas que concentram 2.500 hectares de terras.
• Apresentou 23 projetos no Senado e apenas três foram aprovados, mas considerados sem relevância para o país, como a garantia de visita dos avós aos netos.
• Torrou 60% das verbas do seu gabinete com propaganda (R$ 155.307,37).
• É alvo de ação civil do Ministério Público na Justiça de Tocantins por descumprir o Código Florestal, desrespeitar povos indígenas e violar a Constituição.
• Integrante de quadrilha que tomou 105 mil hectares de 80 famílias de camponeses no município de Campos Lindos (TO). Ela e o irmão receberam 2,4 mil hectares com o golpe contra camponeses, em que pagaram menos de R$ 8 por hectare.
• Documentos internos da CNA apontam que a entidade bancou ilegalmente despesas da sua campanha ao Senado. A CNA pagou R$ 650 mil à agência de publicidade da campanha de Kátia Abreu.
RONALDO CAIADO / Deputado Federal (DEM-GO)
• Formado em Medicina.
• Foi fundador e presidente nacional da União Democrática Ruralista (UDR).
• É latifundiário. Proprietário de mais 7.669 hectares de terras.
• Dono de uma fortuna avaliada em mais de R$ 3 milhões
• Não teve nenhum dos seus 19 projetos aprovados no Congresso.
• É investigado pelo Ministério Público Eleitoral por captação e uso ilícito de recursos para fins eleitorais. Não declarou despesas na prestação de contas e fez vários saques “na boca do caixa” para o pagamento de despesas em dinheiro vivo, num total de quase R$ 332 mil (28,52% do gasto total da campanha).
• Foi acusado de prática de crimes de racismo, apologia ou instigação ao genocídio por classificar os nordestinos como “superpopulação dos estratos sociais inferiores” e propor um plano para o extermínio: adição à água potável de um remédio que esterilizasse as mulheres.
ABELARDO LUPION / Deputado federal (DEM-PR) / Titular na CPMI
• É empresário e dono de diversas fazendas (três delas em São José dos Pinhais).
• Foi fundador e presidente da União Democrática Ruralista do Paraná.
• É um dos líderes mais truculentos da bancada ruralista na Câmara dos Deputados.
• Faz campanha contra a emenda constitucional que propõe a expropriação de fazendas que utilizam trabalho escravo.
• Apresentou somente cinco projetos no exercício do mandato. Nenhum foi aprovado.
• Sua fortuna totaliza R$ 3.240.361,21.
• Fez movimentação ilícita de R$ 4 milhões na conta bancária da mãe do coordenador de campanha. É réu no inquérito nº 1872, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime eleitoral.
• Sofre duas representações por apresentar - em troca de benefícios financeiros – uma emenda para as transnacionais Nortox e Monsanto na Câmara, liberando o herbicida glifosato.
• A Nortox e a Monsanto financiaram a sua campanha em 2002. A Nortox contribuiu com R$ 50 mil para o caixa de campanha; já a Monsanto vendeu ao parlamentar uma fazenda de 145 alqueires, por um terço do valor de mercado.
• Participou de transação econômica fraudulenta e prejudicial ao patrimônio público da União em intermediação junto à Cooperativa Agropecuária Pratudinho, situada na Bahia, para adquirir 88 máquinas pelo valor de R$ 3.146.000, das quais ficou com 24.
• Deu para parentes a cota da Câmara dos Deputados, paga com dinheiro público, para seis voos internacionais para Madri e Nova York.
ONYX LORENZONI / Deputado Federal (DEM-RS) / Titular na CPMI
• Formado em medicina veterinária. É empresário.
• Membro da “Bancada da Bala”, defendeu a manutenção da venda de armas de fogo no Brasil durante o referendo do desarmamento.
• Gastou 64,37% da verba do seu gabinete com propaganda (R$ 230.621
• Campanha financiada por empresas como a Gerdau, Votorantin Celulose, Aracruz Celulose, Klabin e Celulose Nipo.
• Teve apenas um projeto aprovado em todo o seu mandato.
ALVARO DIAS / Senador (PSDB-PR) / Titular na CPMI
• Formado em história. É proprietário rural.
• Foi presidente da CPMI da Terra (2003/2005), que classificou ocupações de terra como “crime hediondo” e “ato terrorista”.
• Não colocou em votação pedidos de quebra de sigilos bancários e fiscais de entidades patronais, que movimentaram mais de R$ 1 bilhão de recursos públicos. Não convocou fazendeiros envolvidos em ações ilegais de proibição de vistorias pelo Incra.
• Divulga na imprensa de forma ilegal fatos mentirosos sobre dados sigilosos das entidades de apoio às famílias de trabalhadores rurais para desmoralizar a luta pela Reforma Agrária.
• Não declarou R$ 6 milhões à Justiça Eleitoral em 2006. O montante é referente à venda de uma fazenda em 2002.
LUIS CARLOS HEINZE / Deputado Federal (PP-RS)
• Formado em engenharia agrônoma.
• É latifundiário. Dono de diversas frações de terras, totalizando 1162 hectares.
• Fundador e primeiro-vice-presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (1989-1990).
• Seus bens somam mais de R$ 1 milhão.
• Nenhum dos seus projetos foi aprovado durante esta legislatura.
• Campanha foi financiada pela fumageira Alliance One, responsável por diversos arrestos irregulares em propriedades de pequenos agricultores.
• Defendeu o assassinato de três fiscais do trabalho em Unaí (MG), declarando que “os caras tiveram que matar um fiscal, de tão acuado que estava esse povo...”, justificando a chacina promovida pelo agronegócio (2008).
• É contra a regularização de terras quilombolas (descendentes de escravos), que representaria, para ele, “mais um entulho para os produtores rurais”.
VALDIR COLATTO / Deputado Federal (PMDB/SC)
• Formado em engenharia agrônoma. Proprietário rural.
• Foi superintendente nacional da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) (2000-2002).
• Foi superintendente estadual do Incra em Santa Catarina (1985- 1986) e secretário interino da Agricultura de Santa Catarina (1987).
• Desapropriou área de 1.000 hectares para fins desconhecidos na mata nativa quando presidiu o Incra, causando prejuízos de R$ 200 milhões para o poder público.
• Apresentou projeto que tira do Poder Executivo e do Poder Judiciário e passa para o Congresso a responsabilidade pela desapropriação de terras por descumprimento da função social.
• É contra a demarcação das terras indígenas e quilombolas.
• Autor do projeto que transfere da União para estados e municípios a prerrogativa de fixar o tamanho das áreas de proteção permanente nas margens dos rios e córregos. Com isso, interesses econômicos locais terão maior margem para flexibilizar a legislação ambiental e destruir a natureza.
• É um dos pivôs de supostas irregularidades envolvendo o uso da verba indenizatória na Câmara dos Deputados.
FINAL DE ANO é momento de fazer um balanço das atividades do período que passou, avaliar os avanços e as dificuldades encontradas e começar a planejar o ano que vem chegando.
2009 vai ficar marcado na história como o ano da grande crise capitalista que assolou os mercados financeiros de todo mundo. Crise que se iniciou nos EUA, mas varreu vários países, ricos e pobres, quebrando bolsas, bancos, empresas e as certezas dos grandes capitalistas no deus Mercado.
Tivemos a triste notícia que, segundo a ONU, o número de famintos já passa de 1 bilhão de pessoas, ou seja, a cada seis pessoas uma passa fome em alguma parte do mundo. Houve ainda um aumento da concentração da riqueza e renda no planeta.
A derrubada das florestas pelo agronegócio e a grande quantidade de carros produzidos no último período para salvar a crise têm agravado ainda mais os problemas ambientais, obrigando o mundo a debater o aquecimento global e suas consequências para a humanidade.
No país
No Brasil, o ano foi marcado por debates importantes, como a questão do pré-sal,
que pode mudar o rumo da economia e dos problemas sociais; a atualização dos índices de produtividade, promessa feita pelo presidente Lula, e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, pauta antiga dos trabalhadores, incorporada por todas as centrais sindicais.
Mas também tivemos um ano marcante pela criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Temos visto que o Estado continua com posições conservadoras, judicializando os problemas sociais e criminalizando os movimentos que organizam as lutas e batalhas de resistência nas comunidades pobres das grandes cidades e do campo. A bancada ruralista orquestra ainda uma ofensiva no Congresso, com a instalação de uma CPMI que deve se arrastar ao longo do ano.
Os movimentos sociais e a esquerda ficaram mais pobres com a perda de militantes como Elton Brum, assassinado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul em um despejo de um latifúndio improdutivo, e também com as mortes do poeta uruguaio Mario Benedetti e da cantora argentina Mercedes Sosa.
Na Reforma Agrária
Fizemos grandes jornadas de lutas cobrando o cumprimento da Reforma Agrária, em abril e agosto, mas mais uma vez fechamos o ano com poucos avanços para a Reforma Agrária. Estima-se que foram assentadas menos de 20 mil famílias, ou seja, apenas 20% da meta proposta pelo Incra, de 100 mil famílias por ano. Mais de 96 mil famílias continuam acampadas, em sua maioria há mais de três anos debaixo de um barraco de lona.
Tivemos algumas melhorias nos assentamentos, como a expansão da energia elétrica, água encanada, moradia e infra-estrutura. No entanto, não houve avanços em uma questão central para o desenvolvimento dos assentamentos: a
implementação de agroindústrias e a política de crédito. O Pronaf tem se mostrado insuficiente para resolver os problemas dos assentados, mesmo aumentando o volume do crédito. Hoje temos mais da metade de nossas famílias inadimplentes e grande parte com muitas dificuldades para acessar novo crédito. Essa situação dificulta o aumento da renda das famílias.
Diante desse balanço, estamos convencidos de que precisamos continuar organizando as famílias Sem Terra para garantir o assentamento das famílias acampadas e melhorar as condições de vida das famílias já assentadas, avançando no debate e na implementação de uma Reforma Agrária popular.
Desafios
Precisamos iniciar o novo ano consolidando alianças com setores do movimento social e sindical do meio urbano, já que os desafios são grandes, em especial nos temasreferentes à atualização dos índices de produtividade. Precisamos contribuir na organização, junto com as pastorais sociais, do plebiscito pelo limite máximo da propriedade da terra no Brasil, fortalecer a luta pela redução da jornada de trabalho, seguir pautando, denunciando e enfrentando a criminalização dos movimentos sociais e lutar para garantir que os recursos provenientes do petróleo sejam destinados para o combate à pobreza e investimento na educação e na saúde de nosso povo.
O próximo ano terá o desafio das eleições e, mesmo sabendo das limitações da democracia representativa burguesa, entendemos que é importante aproveitar esse momento, em que a nossa base se envolve no pleito, para fazer um grande debate. É momento oportuno para discutir os problemas sociais e estruturais do país e pautar a necessidade da construção de um projeto popular para o Brasil. Precisamos votar nos candidatos socialistas e progressistas, comprometidos com a Reforma Agrária, e não deixar que candidaturas de direita se elejam com nossos votos.
O Brasil precisa mostrar ao mundo no próximo período que, mais do que ser o país das Olimpíadas ou da Copa, precisa ser o país de todos os brasileiros. Um país sem analfabetos e símbolo da produção agroecológica. O país onde não haja concentração de terra nem de renda. É esse o país que desejamos a todas e todos em 2010.
ATON FON FILHO
REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS
JÁ SE DISSE que, com a derrota da ditadura militar, o camponês voltou à cena com o rosto do MST. As ocupações coletivas de terras improdutivas foram tornando mais difícil a violência dos fazendeiros e pistoleiros, determinando uma reestatização da repressão que se deu primeiro ilegalmente com agentes policiais, exercendo por conta própria o papel que antes competia aos jagunços.
Depois, como tributo à alardeada redemocratização do Brasil e à Constituição de 1988, os agentes do Estado passaram a atuar em nome deste, assumindo relevo a ação do Ministério Público e do Poder Judiciário que, durante década e meia, esforçaram-se para por fim à luta pela Reforma Agrária, valendo-se do Código Penal e variando crimes, teses e formulações. Essas
artimanhas, porém, resultaram inúteis, porque foram raros os casos em que houve sentenças condenatórias definitivas – já que os advogados populares quase sempre desmascaravam a perseguição, amparados na Constituição Federal que ordena que seja feita a Reforma Agrária.Mas a derrota de um método repressivo não significa que o inimigo – privado ou estatal – desista de perseguir o povo.
Vive-se hoje um alargamento da ação estatizante da repressão, unificada com elementos da fase anterior, já que a ação dos pistoleiros, muitas vezes ocultos sob a máscara de “empresas de segurança”, a mando do capital e do latifúndio, ainda se faz presente.
Exemplos dessa presença temos quando pistoleiros matam Pedro Augusto da Silva e Inácio José da Silva no Engenho Camarazal, em 1997; Josias Sales e Samuel Barbosa no município de Moreno, em 2006; João Pereira da Silva, José Juarez Cesário da Silva, Natalício Gomes da Silva,
José Angelino Morais da Silva e Olímpio Cosmo Gonçalves, em julho de 2009, e o estado de Pernambuco garante a impunidade dos matadores, assim como a garantiu ao policial que matou em julho de 2000 o Sem Terra José Marlúcio da Silva, durante uma manifestação em Recife, para
tomarmos apenas um estado brasileiro como exemplo. Poderíamos citar ainda casos recentes de violência no Rio Grande do Sul, Pará, Paraíba e Paraná.
Corrupção
O reconhecimento de que a Reforma Agrária se impõe, num país em que a concentração da propriedade da terra expressa pelo índice de Gini é de 0,854, e de que o Estado se furta ao cumprimento de seu dever, garantiu à luta dos trabalhadores sem-terra o respaldo da sociedade.
Empresários e latifundiários, agentes da mídia e do Estado perceberam que a maior força dos movimentos sociais nasce exatamente da justeza das demandas que formulam e do apoio social que ela lhes garante. Por esse motivo passou-se a articular os elementos anteriores do processo
de repressão a um novo, a deslegitimação da luta pela terra. Senadores e deputados do bloco da oposição vêm procurando arrastar o nome do MST e de entidades que o apóiam para o mesmo lixo em que os deles próprios são normalmente encontrados, relacionando o Movimento com a corrupção.
A adoção nessa nova estratégia não significa que tenham deixado de lado outros instrumentos repressivos, como o assassinato. Pelo contrário, como os casos citados acima podem comprovar. Não se abandonou a idéia de perseguir criminalmente os sem-terra, tampouco houve avanços nos julgamentos e punições contra seus matadores.
Mas, até para que esse tipo de ação possa continuar, os diversos agentes repressivos e aderentes do latifúndio esforçam- se por prejudicar a imagem do MST e reduzir sua penetração na sociedade.
Fora do governo, o bloco PSDB/DEM fez da luta pela terra seu inimigo principal, buscando, a partir daí, também atingir o governo federal, para frustrar os compromissos com os camponeses.
O principal mecanismo de deslegitimação são as Comissões Parlamentares de Inquérito, simples ou mistas. As CPIs e CPMIs prestam-se a essa atividade porque se integram com jornalistas e a imprensa alugada pelo latifúndio para divulgar acusações sem respaldo na realidade. Os parlamentares sentem-se à vontade porque nelas podem se esconder atrás da imunidade para coagir, ofender e desnudar seus “instintos mais primitivos”, como já disse um deles.
Resultou disso a chamada CPMI da Terra, de 2003, em que o senador Álvaro Dias e o deputado Ônix Lorenzoni passearam o ridículo, mas contaram com o suporte da revista Veja e da Folha
de S. Paulo para aprovar um relatório alternativo em que colecionaram conclusões pífias e desavergonhadas como a que pretendeu que as ocupações de terras fossem tipificadas como crime de terrorismo.
Resultou disso e de sua falta de propostas, a instalação, em 2007, da chamada CPI das ONGs, que se destinava especificadamente a perseguir as entidades que apóiam os trabalhadores do campo.
Um compromisso do governo de atualizar os índices de produtividade no campo gerou uma nova CPMI, contra a Reforma Agrária e seus apoiadores. Três objetivos querem alcançar: pintar o MST como corrupto, com o que pretenderiam justificar suas próprias corrupções; reduzir o apoio social à luta pela Reforma Agrária e imobilizar o governo, impedindo-o de promover a atualização dos índices de produtividade.
Por esses motivos, tão importante quanto defender a vida dos trabalhadores em risco ante os canos dos revólveres e espingardas, é defender a imagem dos lutadores do campo, de suas organizações e de todos que os apóiam. Somente assim é possível o verdadeiro enfrentamento da repressão aos movimentos sociais.