Nos últimos 30 anos, os ideólogos do neoliberalismo venderam a crença de que bastavam as leis do mercado — este completamente liberado de todas e quaisquer amarras do Estado — para organizar a economia dos países. Essa concepção política, na era da globalização, se impôs ao planeta todo. foram três décadas de endeusamento do livre mercado! Valores da liberdade e democracia, apreendido pelo neoliberalismo, serviram para justificar o incentivo desenfreado ao individualismo, consumismo e a busca incessante a lucros obtidos a qualquer custo. A defesa dos interesses nacionais e investimentos nas áreas sociais passaram a ser sinônimo de atraso e de empecilho ao desenvolvimento econômico de um país.
No mesmo período, se promoveu uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo para o financeiro e, principalmente, para o capital especulativo. Livre das regulamentações criadas pelo Estado da era industrial, o capital fluiu maciçamente para o campo da especulação financeira, em busca de maiores lucros, obtidos em menor espaço de tempo. Essa política alimentou um verdadeiro cassino financeiro planetário, que proporcionou ganhos gigantescos aos especuladores. Controlando os mercados — que chamam de livre mercado — esses especuladores financeiros criaram uma engrenagem mundial para ganhar rios de dinheiro, sem qualquer relação com a atividade produtiva. Criaram, assim, uma bolha financeira no mercado mundial. Sob a hegemonia do capital financeiro impuseram aos Estados o compromisso, prioritário, de garantir um superávit primário cada vez maior para pagar os compromissos com o capital internacional e alimentar ainda
mais esse cassino financeiro mundial. Governante eficiente passou a ser aquele conseguiu zerar o déficit público, conseguido às custas da redução de recursos financeiros para as áreas da educação, saúde, saneamento e moradias populares. Os governos foram transformados em meros
caixas dos interesses do capital. Pior, por serem eficientes aos olhos do capital, se sentem orgulhosos do papel a que foram relegados. Além disso, grupos empresariais de comunicação
se encarregaram de formar uma opinião pública favorável a esse discurso dentro dos países.
Agora, a gravidade da crise que afeta a economia capitalista, em nível planetário, destrói todos os mitos do pensamento único do livre mercado. A crise transformou em pó os papéis que alimentavam especulação financeira. Mas, também transformou em pó os discursos da não intervenção do Estado e da auto-regulamentação do mercado. Caiu o mito de que o mercado resolve tudo. Os que defendiam que o Estado não deveria se intrometer na economia, hoje estão diante dos governos implorando ajuda financeira dos cofres públicos. Imensos volumes de impostos
estão sendo canalizados para socorrer empresas falidas ou em dificuldades financeiras. Dinheiro público usado, mais uma vez, para salvar capitalistas falidos.
Os governos dos países do berço da crise — Inglaterra e Estados Unidos — não sabem o que o que dizer, nem o que fazer. Como não sabem diagnosticar a crise, não sabem qual o tratamento mais eficaz para enfrentá-la. No entanto, tornam-se evidentes as iniciativas de socializar as perdas. Cabe à classe trabalhadora reagir frente a essa crise. É preciso recuperar nossa capacidade de unidade e mobilização das massas populares, construir um movimento amplo e bem organizado, e nos desafiar a fazer lutas que acumulem para o projeto político da classe trabalhadora.
O
neoliberalismo está totalmente desmoralizado. A burguesia, portadora desse projeto, se sente perdida e não sabe que alternativas apresentar. Assim é preciso lutar, primeiramente, para que a crise afete o menos possível a classe trabalhadora. Mas, é necessário também, fazer a disputa
de projetos políticos para o nosso país. A crise evidencia, ainda mais, a necessidade da classe trabalhadora apresentar à sociedade a alternativa socialista para nosso país.
Por Nina Fideles e Joana Tavares
Voltar ao lugar onde tudo começou. Esta é a mística que ronda o Assentamento Nova Sarandi (RS). Ficar imaginando os trabalhadores e as trabalhadoras rurais arrebentando a porteira que os impedia de pisar naquela terra que hoje produz e tem vida. Uma terça-feira, noite de lua cheia. Assim Isaías Vedovatto, assentado em Nova Sarandi, descreve aquele dia. “Lembro do zunido dos cinco fios de arame sendo cortados, como se fosse o início de uma música”, conta em seu poema sobre a ocupação.
Desde aquela noite, até a semana em que ocorreu o Encontro Nacional do MST, 25 anos se passaram. Crianças nasceram, pessoas se foram. Pais, netos, bisnetas... Todo o processo de luta naquela região teve seu estopim na conhecida Encruzilhada Natalino, mas não começou ali. Já em 1962, época do então governador Leonel Brizola, parte da conhecida Fazenda Sarandi foi desapropriada para o assentamento de algumas famílias da região, organizadas pelo Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), no Acampamento Cascavel. Parte destas terras foi destinada
ao assentamento, e o restante do complexo foi distribuído em médias e grandes propriedades.
Havia ainda um conflito permanente nas áreas indígenas da região. Agricultores expulsos dos territórios indígenas começaram um movimento em busca de terra e realizaram as ocupações das fazendas Macali e Brilhante. “Os governos estadual e federal abriam projetos de colonização no Norte do país. Mas nesse período tinham a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e outras organizações apoiando o povo e nem todos foram para o Norte. Em torno de umas 500 famílias se organizaram e em setembro de 1979 um grupo ocupou a Fazenda Macali, e outro a Fazenda Brilhante”, lembra Salete Campigotto, hoje assentada em Sarandi.
Encruzilhada Natalino
Para o poeta Isaías, é importante entender o diferencial que existe entre “até o Natalino” e o depois do Natalino”. No entroncamento entre as cidades gaúchas de Ronda Alta e Sarandi, um conjunto de famílias que ainda não havia sido assentada começou a se agregar. Contam que era noite de Natal e um dos primeiros acampados carregava o simbólico nome de Natalino. “E foram se juntando pessoas, de vários municípios da região. Muita gente que trabalhava como agregado, outros de famílias pobres, que não tinham como acomodar todo mundo em casa”, lembra Salete.
“Ficamos ali e o acampamento começou a inchar, gerar mais pressão. O curioso é que a Encruzilhada
ocorreu na época da ditadura militar”, complementa Antoninho Campigotto. Não foi à toa que o então presidente, o militar João Batista Figueiredo, enviou para a região um de seus quadros
de maior confiança para desmantelar o acampamento. O coronel Curió era conhecido — e temido — por seu histórico de repressão e violência contra a organização popular. Havia sido responsável pela desmobilização de Serra Pelada, no Pará, e pela dissolução da Guerrilha do Araguaia. Em 1981, armou acampamento com todo seu aparato na região. “A intervenção durou até 10 de março
de 1982. A pressão foi aumentando a cada dia que passava. Chegou ao ponto de secarem o açude onde a gente lavava roupa e levaram os cavalos para a fonte onde a gente tomava água”, conta Salete. O coronel fechou as duas extremidades da estrada, impedindo as pessoas de circularem. Foguetes eram estourados à noite, caminhões do Exército circulavam, enchendo de poeira os barracos e as pessoas. A solidariedade fortaleceu a resistência. Além do apoio de assentados da região, padres, pastores, sindicatos e demais trabalhadores — como um verdureiro
que tinha um comércio na região e não deixou de atender as famílias — os Sem Terra organizaram
um boletim de divulgação das lutas, que depois deu origem ao Jornal Sem Terra.
Algumas famílias caíram no conto do coronel e foram para o Mato Grosso do Sul com a promessa de terra para produzir e trabalhar. Mas a maioria, apesar das condições difíceis, permaneceu. E hoje está marcado em uma placa, bem ali na Encruzilhada Natalino: “Derrota do Curió e vitória da luta pela terra”.
Novas ocupações
“A formação que tivemos no acampamento foi ajudando para que a gente não enxergasse só a luta pelo nosso pedaço de terra. Tínhamos que nos manter firmes porque tinha gente de olho para o que ia acontecer conosco depois...”, conta Salete. E assim uma parte das famílias se mudou para Ronda Alta, e em 1983 consegui um assentamento na região.
Mas ainda havia um grande número de famílias dispostas a lutar por seu direito à terra. Em 29 de outubro de 1985, a Fazenda Anonni, parte do complexo Sarandi, era ocupada por mais de oito mil
pessoas. Era mais do que a população da cidade de Sarandi. “As pessoas que entravam ali naquela área já tinham a compreensão de que ocupação é a única solução”, explica Isaías, retomando o
lema do I Congresso, realizado em 1984, em Cascavel (PR), e que deu origem formalmente ao MST.
“Eu morava no interior de Ronda Alta, filho de pequeno agricultor, pai falecido, três irmãos. Quando saiu a organização para a ocupação, a gente entrou na nossa comunidade e veio para a Fazenda Anonni”, lembra José Antonio Sé, um dos tantos que declara ter sua vida transformada depois de participar da organização coletiva. “O MST foi uma reviravolta na minha vida. Antes era aquele trabalho braçal, um trabalho direto, ano inteiro, dia inteiro, não tinha folga. E nunca na vida eu ia conseguir 20 hectares, acho que nem um hectare, sozinho”.
Do Encontro Nacional aos 25 anos
Hoje, nestes 9,2 mil hectares da fazenda vivem 450 famílias. Todas fruto do processo de ocupação da Anonni há 25 anos. O restante das pessoas foram assentadas em outras regiões e muitas delas fora do estado gaúcho. “Antes isso aqui tinha 800 e poucas cabeças de gado em toda a área e o
tradicional capim Anonni, que hoje é uma praga para nós. Aqui temos a prova de que nossa prioridade é produzir em cima dessa área que era improdutiva e alimentar as pessoas”, afirma Jorge José dos Santos, que também participou da ocupação. Hoje, na região da antiga Fazenda
Anonni são sete comunidades. Todas possuem seu ginásio de esporte, assim como todas as crianças freqüentam uma das três escolas que existem por ali. Uma é estadual e vai até a 8ª
série, e duas municipais. O assentamento abriga ainda uma escola técnica, o Instituto Educar, que forma técnicos em agroecologia.
Todas as famílias assentadas se envolveram no processo de realização 13º Encontro Nacional do MST. Na parte da limpeza, produção de materiais, cozinha, infraestrutura, acolhendo as pessoas. Para Cedenir de Oliveira, da Coordenação Nacional do MST, “todas estas pessoas têm uma pertença e uma identificação muito grandecom a organização. E é esta a reflexão que o Movimento tem que fazer: de que forma contribuir para a participação política do assentado, e como envolvê-lo”, diz.
Segundo ele, o Encontro que marcou os 25 anos do MST teve como sede o Assentamento Novo Sarandi por dois motivos principais. O primeiro é pelo aspecto histórico, no sentido do que a ocupação da Fazenda Anonni representou para o surgimento e consolidação do Movimento. E também para reafirmar para toda a sociedade de que a Reforma Agrária dá certo. “Retornar a este local é valorizar o que ocorreu nesta data. Para as famílias da Anonni, que recebem este encontro,
é muito importante resgatar a mística de que aquele esforço que foi construído não foi em vão. Com
todas as contradições que possam existir neste processo, nós temos que nos orgulhar deste assentamento que é fruto de nossa luta”, conclui.
Roseli Nunes: presente!
A lutadora que hoje empresta o seu nome a acampamentos, assentamentos e brigadas do Movimento, marca a memória dos militantes com o compromisso de que “prefere morrer na luta que morrer de fome”. Roseli Celeste Nunes da Silva nasceu em 1954 e participou, com outras oito mil pessoas, da ocupação da Fazenda Anonni, em 1985. Seguiu na luta, e participou de uma caminhada de 300 Km até Porto Alegre (RS), onde foi realizada uma ocupação da Assembléia Legislativa, por seis meses. Os acampados cobravam solução para a Reforma Agrária na fazenda.
Em março de 1987, lá estava de novo Roseli em caminhada. Participava de um protesto contra as altas taxas de juros e a indefinição do governo em relação à política agrária. Um caminhão de uma empresa agrícola investiu contra a barreira humana formada na BR-386, em Sarandi. Roseli, aos 33 anos, morreu, assim como outros dois companheiros ainda mais jovens, e outros 14 ficaram feridos. Em 1988, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) proposta pelo então deputado Adão Pretto concluiu que o motorista do caminhão foi culpado pelo “acidente”. Rose teve seu terceiro filho no acampamento. Deu a ele o nome de Marcos Tiarajú, em homenagem ao líder indígena do Rio Grande do Sul, que séculos antes já dizia que aquela terra tinha dono. Tiarajú, a primeira criança que nasceu no acampamento, hoje estuda medicina em Cuba. A história de Roseli foi contada no documentário “Terra para Rose”. Dez anos depois, a documentarista Tetê Moraes voltou ao – agora – assentamento e realiza a continuação, “O sonho de Rose”.
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