A guerra de Bush se alastra

Número: 
44
Abr/Mai
2008

A “guerra preventiva” de Bush, do Iraque à América Latina

Às 5h35 da madrugada de 20 de março de 2003, no horário de Bagdá, os EUA iniciaram o violento bombardeio aéreo ao Iraque com o objetivo de ocupar este país soberano, saquear suas riquezas e reafirmar seu poder unipolar no tabuleiro geopolítico. Poucos dias antes de completar cinco anos desta tragédia, em 1º de março, um novo bombardeio e uma nova agressão a uma nação soberana ocorreram mais perto dos brasileiros. O presidente colombiano, Álvaro Uribe, capacho dos EUA na América Latina, ordenou a invasão do território equatoriano e trucidou guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), inclusive o seu principal negociador da paz, Raul Reyes.

Os dois episódios, tão distantes geograficamente, têm o mesmo pano de fundo: a corrida belicista e expansionista dos EUA para manter sua hegemonia mundial. Fazem parte da chamada “guerra preventiva” do imperialismo, um projeto elaborado nos anos 80 e que só foi colocado em prática pelo presidente-terrorista George Bush após os sinistros atentados de 11 de setembro. Este plano, descrito em detalhes em documentos oficiais da Casa Branca, visa manter o controle de fontes de energia e matérias-primas, intimidar países rivais ao domínio imperial e derrotar todas as forças rebeldes. No Iraque ou no Equador, a “guerra preventiva” do “império do mal” foi aplicada à risca.

A trágica lembrança do Vietnã

E quais os resultados dos EUA? No caso do Iraque, eles são aterradores. Nos cinco anos desta ocupação, o custo militar da operação atinge US$ 3 trilhões (cerca de três vezes toda a riqueza produzida pelo Brasil ao longo de um ano) e já supera os gastos na guerra do Vietnã, segundo cálculos de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia. O plano criminoso de Bush de invadir o país e rapidamente controlar as suas riquezas petrolíferas revelou-se um fiasco. Os 157 mil soldados da tropa regular, além dos 130 mil mercenários, não dobraram a resistência da guerrilha iraquiana. Até final de março, 3.983 militares ianques tinham sido mortos e enviados em sacos pretos aos EUA — o que reforça a trágica lembrança do Vietnã.

Já as mortes, torturas e destruições no Iraque causam maior repulsa dos povos do mundo inteiro contra o imperialismo. Estudos indicam que o número de mortes varia de 800 mil a um milhão de inocentes. “Nós não fazemos a contagem de corpos”, disse, arrogante, o general Tommy Frank, que comandou a invasão. Segundo a Cruz Vermelha, a situação humanitária no país é “uma das mais críticas do mundo”. Milhões de iraquianos vegetam sem acesso à água tratada, saneamento básico ou atendimento à saúde. Mais de quatro milhões de pessoas, o equivalente a 16% da população do Iraque, vivem refugiadas em outros países da região, sem lares, sem presente ou futuro.

O saldo da invasão é devastador. Mesmo assim, Bush insiste em manter suas tropas por “tempo indefinido” e o candidato do seu partido, John McCain, promete mais “cem anos de ocupação”. Já os democratas procuram “reciclar” a desgastada imagem do império, mas não ousam propor a imediata retirada. Hillary Clinton inclusive votou a favor da invasão; já Barack Obama promete deixar o Iraque, mas “só após vencer a guerra”. Na prática, a “guerra preventiva” revela que o imperialismo ianque está em declínio. A recessão econômica já é uma realidade nesta potência; a ação militar expansionista dá sinais de esgotamento; e o presidente-terrorista George Bush e seus neocons caminham para uma fragorosa derrota na sucessão presidencial do final deste ano.

Equador e a provocação belicista

Já no caso da invasão do Equador, a provocação do capacho de Bush não funcionou a contento. A ação do presidente narcoterrorista, Álvaro Uribe, tinha basicamente três intentos: 1) sabotar as negociações humanitárias para a libertação dos reféns das Farc, intermediadas pelos presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Nicolas Sarkozy (França), que poderiam pavimentar o terreno para uma solução negociada do conflito armado que já dura mais de quatro décadas; 2) intimidar os países de região, que hoje adotam posturas mais independentes diante dos EUA e avançam no seu processo da integração regional, criando o clima para um conflito na região bem ao figurino da “guerra da preventiva”; e 3) reforçar a campanha pela segunda reeleição do próprio carrasco Uribe.

Até agora, porém, o plano de implantação da “guerra preventiva” na região não vingou. Todos os países do continente — inclusive os mais servis, como o México — rechaçaram as provocações da marionete de Bush e condenaram a invasão do território equatoriano. O cínico Uribe teve que se desculpar publicamente. Até a Organização dos Estados Americanos (OEA), que sempre seguiu as ordens de Washington, pronunciou-se contra os planos dos EUA, algo praticamente inédito ao longo da história da OEA. Para muitos, ficou patente, também, que Uribe e Bush são falcões da guerra, que não desejam a paz na Colômbia; que ambos dependem do narcotráfico e dos paramilitares para se manter no poder. Por outro lado, a provocação serviu para reforçar a urgência da integração regional, inclusive no campo militar.

Iraque, Equador e outras tantas partes do mundo, como Kosovo ou Tibete, fazem parte do plano imperial dos EUA. Nada que ocorre nestes países pode ser lido com ingenuidade; o que a mídia burguesa difunde deve sempre gerar desconfiança. No caso do Iraque, a bárbara invasão não teve nada a ver com a deposição do ditador Saddam Hussein ou com as tais armas químicas. Tudo foi mentira para justiçar a ocupação de um país soberano, o controle de suas reservas petrolíferas e a intimidação de nações rivais, como o Irã e a própria China. Já na invasão do Equador, o objetivo não foi caçar “narcoterroristas”, como a mídia rotula as Farc. Visou sabotar a paz na Colômbia, perpetuar Uribe no poder e garantir o domínio dos EUA no seu “quintal” latino-americano.

Nestes e noutros episódios dramáticos, porém, fica cada vez mais visível que os EUA não estão mais com esta bola toda. O “império do mal” está em declínio e hoje, mais do que no passado, é possível derrotar os seus planos expansionistas. O desastre no Iraque revela que o imperialismo não é invencível. O crescente desgaste dos senhores da guerra, dos neocons de Bush, e a grave recessão nos EUA comprovam esta vulnerabilidade. Para acelerar este processo, indispensável à paz no mundo e ao bem-estar da humanidade, é preciso reforçar as denúncias dos genocídios e a solidariedade aos povos vítimas da ação imperial. Urge fortalecer o internacionalismo ativo no mundo. O imperialismo não cairá de maduro; depende da ação enérgica e militante dos povos.

*Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição)

EXPEDIENTE

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Colaboraram nesta edição
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O rumo da Reforma Agrária

A cada ano que passa, cada vez mais o mês de março tem se caracterizado pelas lutas e mobilizações do movimento camponês, especialmente pela organização e atuação das trabalhadoras rurais. As pautas de reivindicações e os manifestos apresentados vão além das demandas específicas e corporativas. Há, com essas mobilizações, um gigantesco esforço para se comunicar com a sociedade e apresentar propostas alternativas ao atual modelo agrícola, fundamentado na economia agro-exportadora. Em linhas gerais, a Via Campesina brasileira propõe uma agricultura que promova a distribuição da riqueza produzida, preserve o meio ambiente e priorize a produção de alimentos saudáveis, assegurando a soberania alimentar ao nosso país.

Desde a segunda metade dos anos 90, empresas transnacionais, sob a hegemonia do capital financeiro, promovem uma ofensiva para dominar a agricultura brasileira. Querem o domínio territorial dos recursos naturais e da biodiversidade, por meio da compra de grandes extensões de terras. Já, há tempos, monopolizam a comercialização da produção agrícola. Querem, agora, dominar também todo o processo produtivo da nossa agricultura, impondo normas e condições que excluem o camponês de sua própria atividade agrícola. Em troca do superávit da balança comercial, ficamos com a degradação ambiental e social, provocada pelos desertos verdes.

Faz parte também, dessa ofensiva do capital sobre a nossa agricultura, assegurar monopólio das pesquisas agrícolas — para isso foi fundamental o governo FHC ter sucateado as empresas públicas de pesquisas. Não basta produzir conhecimentos. É necessário, para garantir a concentração da renda e riqueza produzida, assegurar que esse conhecimento não esteja acessível a todos.

O patenteamento das sementes, a liberação e imposição do uso de sementes transgênicas, não visam apenas assegurar os fantásticos lucros dos grupos agro-industriais transnacionais. Visam, sobretudo, ao controle completo sobre as sementes e, conseqüentemente, sobre a produção de alimentos em nível planetário.

Por último, para fechar o tripé que busca consolidar um espaço para o Brasil no mercado externo, com exportação de produtos primários, resta a rapinagem dos minérios que o capital internacional está fazendo em nosso território. A elite brasileira — com a mídia sendo sua principal porta-voz — se escandaliza com um ministro que gastou R$ 8 com dinheiro público. No entanto, foi conivente com o governo FHC que entregou a maior mineradora do mundo, a Companhia Vale do Rio Doce, e nossas reservas minerais, pela bagatela de pouco mais de R$ 3 bilhões. Num único ano, em 2007, o lucro da Vale foi superior a R$ 20 bilhões. E toda sua modernização, desde então, foi financiada com recursos públicos. Somente em 2007, o BNDES liberou mais de R$ 7 bilhões para este fim. A empresa hoje é o maior símbolo da submissão e subserviência da elite brasileira ao capital internacional. Recuperá-la, torna-se assim, também, símbolo a da reconquista de soberania nacional.

Entender os rumos da Reforma Agrária nos dias de hoje significa compreender as mudanças que estão ocorrendo na agricultura brasileira. Os antigos coronéis cederam espaço para as transnacionais, os grupos financeiros e os capitalistas brasileiros. Estes hoje estão monopolizando as terras e são os verdadeiros inimigos da democratização das terras em nosso país.

Quando lutamos contra esses inimigos da Reforma Agrária, nos acusam de termos perdido o rumo e de promover mobilizações apenas para manter influência na sociedade. A elite pensa assim. E a mídia trata de amplificar essa visão equivocada. Estes segmentos sociais jamais dirão que estamos no rumo certo. E se um dia disserem, aí sim teremos que estar preocupados. Por enquanto, basta eles saberem que pensamos diferente e temos propostas diferentes das deles para o nosso país.

REPORTAGENS

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Editorial
O rumo da Reforma Agrária

Entrevista
Itelvina Mafioli, do MST, fala sobre mulheres, opressão e capitalismo
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A economia brasileira diante dos riscos de reversão da bonança externa
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Reforma Triburária: mudar para manter
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Internacional
A “guerra preventiva” de Bush do Iraque à América Latina
Por Altamiro Borges

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Por Rafael Villas Bôas

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O sabor e a tradição do acarajé baiano
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João Araújo, de 1 a 91
Por Wladyr Nader

Resenha
Bolívar, o mito
Por Gilberto Maringoni

Em pauta
Os movimentos sociais e a construção do sistema público de comunicação
Por Diogo Moyses

Estudo
Capital e trabalho na Amazônia
Por Fiorelo Picoli

Balaio

Humor
Por Angeli

ÍNDICE

Editorial
O rumo da Reforma Agrária

Entrevista
Itelvina Mafioli, do MST, fala sobre mulheres, opressão e capitalismo
Por Lourdes Vicente

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Quantos Galdinos tombarão até que o Brasil defenda seus povos indígenas?
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