Por Frei Joseumar Miranda da Silva
Coordenador Regional da CPT (AC)
FRANCISCO ALVES Mendes Filho, o Chico Mendes, nasceu em 15 de novembro de 1944, num seringal quase na fronteira do Brasil com a Bolívia, no município acreano de Xapuri. No caminho comum de muitas lideranças populares, aprendeu a ler já depois de adulto e não conseguiu uma educação formal sofisticada. Mas poucas pessoas da Amazônia terão utilizado os conhecimentos adquiridos na escola informal da família seringueira como Chico o fez. O primeiro e único mandato legislativo de Chico Mendes foi como vereador de Xapuri, eleito em 1976, pelo então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), hoje PMDB.
No mesmo ano, Chico participa ativamente da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. A partir daí começa a sofrer as primeiras ameaças de morte, e tem início as dificuldades
com o MDB, que não via com bons olhos suas propostas políticas. Assim, Chico se engaja na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Chico Mendes foi herdeiro da luta do Ciclo da Borracha. Dessa história que o Brasil desconhece e que certamente a literatura, o cinema e a televisão terão que contar ao longo do terceiro milênio.
História que os líderes dos movimentos sociais, espalhados pelo país afora, terão que sistematizar
para as novas gerações. Povos da Floresta Em outubro de 1985, Chico Mendes organiza o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros e sua figura começa a ganhar relevo no meio sindical. Podese
dizer que, juntamente com Wilson Pinheiro – assassinado em 1980 – Chico iniciou o processo de formação de consciência numa população de trabalhadores, os seringueiros, que há mais de um século perambulava pelas selvas amazônicas sem reconhecimento de quaisquer direitos.
Com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, a proposta de unir os Povos da Floresta é posta em discussão. Era a primeira tentativa concreta de unir os interesses de índios e seringueiros em defesa da selva amazônica. A partir de 1987, Chico começa a ser reconhecido no cenário internacional. Apesar deste reconhecimento e dos vários prêmios recebidos lá fora, os dias de vida
de Chico Mendes aqui começaram a entrar em contagem regressiva. À frente do Sindicato de Xapuri, o movimento tem suas raízes na resistência dos seringueiros para não permitir que a selva amazônica fosse queimada e transformada em pasto para implantação de grandes fazendas de pecuária.
Chico Mendes tornou-se o símbolo dessa resistência. O movimento, liderado por ele, é de caráter pacífico e ecológico. Arriscavam suas vidas em defesa do meio ambiente e em defesa da própria
sobrevivência. Uma das táticas utilizadas por este grupo era o “empate”. Que no linguajar do amazônida quer dizer: impedir, atrapalhar. Operações em que os seringueiros reuniam grupos
de 100 a 200 pessoas, também com as mulheres, para impedir que os “peões” derrubassem a floresta. Chico Mendes lutou contra o latifúndio, pela Reforma Agrária. Ele era representante de
milhares de trabalhadores brasileiros na luta por transformações sociais.
Indiferença
Sua morte, na noite do dia 22 de dezembro de 1988, não foi em vão para muitos movimentos sociais existentes no país e no mundo. Para aqueles que já foram vencidos pelo monstro do capital, esta história e martírio não têm valor algum. A indiferença é um dos piores sentimentos que uma pessoa pode ter.
Pude perceber esta indiferença quando estive em Xapuri, para participar das homenagens ao Chico Mendes, na data dos 20 anos de seu assassinato. Sua terra natal não o reconhece como herói e tampouco como líder. Das pessoas que participaram das atividades, posso arriscar em dizer
que pouco mais de 20% eram do município. O comércio, os bares, as conversas nas praças seguiram sua rotina. Fazendome lembrar das palavras de Jesus: “Nenhum profeta é bem aceito na sua terra”. Isto mesmo, Chico Mendes é mais conhecido internacionalmente, por meio de sua luta pela preservação da Amazônia, sem, contudo, ter o devido reconhecimento aqui no Brasil, e tampouco na cidade que recebeu seu sangue, derramado naquela noite traiçoeira, pela escopeta de um covarde atirador.
Será que Xapuri mereceu o sangue derramado por ele? Será que o Acre mereceu a vida doada por este líder? Será que o Brasil mereceu este bravo filho seu que não fugiu à luta? Apesar de sua casa ter sido transformada em atração turística, juntamente com o museu que relembra sua trajetória
e o seu túmulo ocupando lugar de destaque no cemitério da cidade de Xapuri; apesar de ter seu nome colocado em Reserva Extrativista, em Instituto, em parques, em avenidas etc., os ideais de Chico Mendes quase não são levados adiante. Dando uma sensação de que sua morte foi em vão. Tornou-se um bom marketing para o Acre, para vários políticos que se elegeram, e ainda se elegem, dizendo carregar a mesma bandeira de luta que Chico Mendes carregava.
Este mesmo Estado, que se diz orgulhoso de ser a terra de Chico Mendes, o defensor da floresta e dos povos da floresta, tem hoje mais de 100 projetos de manejo florestal, inclusive um já em pleno
funcionamento no Seringal Cachoeira, berço de luta de Chico Mendes, e mais de 10 mil cabeças de gado dentro da reserva extrativista que leva seu nome.
Durante a caminhada até o seu túmulo – parte da programação em homenagem aos 20 anos do seu assassinato – escutei algumas piadas de pessoas que não concordam com a maneira que o nome de Chico Mendes é usado. Durante os gritos deordem “Chico Mendes Vive!” Eles diziam: “... se viver, muita gente aqui vai matá-lo novamente!” “... ele dá mais lucro morto do que vivo!” “... se viver, muitos vão perder seus empregos e até cargos políticos!”. Mas, para muitos sonhadores que
pensam no coletivo e na construção de uma nova sociedade, o grito ainda ecoa forte na alma: "Chico Mendes vive!”.
A ti sempre estimaremos, por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que um exemplo para nós,
companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta.
Confira abaixo trechos última entrevista de Boal.
Da Carta Capital
FOI NO THÈATRE DE VILLE, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido. O Teatro do Oprimido – o método que Boal desenvolve desde os anos 1960 – é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?
Em poucas palavras, como definir o Teatro do Oprimido?
Augusto Boal – Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas. Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.
Na prática, isso significa o que?
AB – Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores. O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens. As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marcapasso, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção. O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos: palavra, imagem e som.
Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?
AB – O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho.Passamos pra eles tudo que podíamos. Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessemusaremsuasterras. Essa é também a idéia do Teatro do Oprimido ponto-aponto, que difunde o trabalho pelo Brasil.
O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?
AB – Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes. O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.
Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?
AB – Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar. O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro. Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar. Esse dinheiro deveria ser transferido para um fundo, que seria distribuída de acordo com a avaliação
de comissões constituídas pela sociedade. Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?
Nos dê um exemplo da transformação proporcionada pelo teatro.
AB – No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental. Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo. Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.
Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?
AB – Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos. Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado
para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta. Também me lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.
O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?
AB – Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se
interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi. A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.
Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?
AB – Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte. Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade. Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria. Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou. Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.
O dramaturgo Augusto Boal, faleceu no dia 2 de maio,no Rio de Janeiro, vítima de insuficiência respiratória. Boal sofria de leucemia e estava internado desde o dia 28 de abril, com infecção respiratória.
Edição
Nina Fideles
Revisão
Joana Tavares
Projeto Gráfico Diagramação
Eliel Almeida
Assinaturas
Meire Cardoso
Impressão
Taiga Gráfica e Editora
Tiragem
20 mil exemplares
Redação
Alameda Barão de Limeira, 1232 – CEP 01202-002 – São Paulo/SP – Tel/fax: (11) 3361-3866. Correio eletrônico: jst@mst.org.br. Página na internet: www.mst.org.br
Foi o poeta Bertold Brecht quem atentou ao fato: Do rio que tudo arrasta se diz que é violento/ mas ninguém diz violentas as/ margens que o comprimem. Os versos claros caem como luva para a situação vivida hoje por aqueles que não se omitem frente às injustiças e desigualdades. Num
contexto em que se acirra a fome dos grandes capitalistas e, conseqüentemente, a exploração dos trabalhadores e a miséria, é fácil e necessário para quem tem o poder apontar culpados: o MST é o vilão da vez. É nesta conjuntura que são realizadas as marchas estaduais deste ano. Em entrevista ao Jornal Sem Terra, Ulisses Manaças, integrante da coordenação nacional do MST, reforça a importância dessa mobilização e explica que nunca antes na história Movimento as marchas foram tão importantes. A seguir, confira a entrevista.
Por Jaqueline Nikiforos
Setor de Comunicação do MST
Jornal Sem Terra – Por que o Movimento realiza marchas?
Ulisses Manaças – As marchas fazem parte da construção histórica do MST. Realizamos as marchas não só como ato de protesto, para dar visibilidade às nossas reivindicações históricas, mas também porque as marchas conseguem construir uma unidade política e organizativa para o MST. As marchas são um espaço pedagógico muito importante, porque cultivam um conjunto de princípios e valores do Movimento como a solidariedade, a disciplina consciente, a direção coletiva, o espírito de sacrifício. Elas são como um curso de formação itinerante. Todos crescem nesse grande mutirão. Isso está muito presente na história do MST e da classe trabalhadora. Nós incorporamos um elemento que é cultural da luta do povo pela libertação da classe trabalhadora. Vemos as marchas, acima de tudo, como elemento para acender a mística revolucionária, por transformações profundas da sociedade.
JST – Quando surgem as marchas do MST?
UM – As marchas surgem no período em que o MST deixa de ser unicamente um movimento de luta econômica para se transformar de fato num movimento social, que atua em diversas dimensões. O MST quando surgiu, há 25 anos, era o resultado de várias lutas espontâneas pela posse da terra. Mas quando o Movimento percebe que só a posse da terra não é o suficiente para garantir a libertação do campesinato, começamos então a entrar numa luta maior, que é a luta por
Reforma Agrária. Isso significa questionar as estruturas repressivas do Estado, a estrutura fundiária e, inclusive, o sistema de civilização adotado pelo capitalismo. Era também preciso ir até a cidade, para dialogar com a sociedade e fazer pressão sobre o Estado estabelecido. É nesse momento, na virada para os anos 90, que as marchas começam a ser incorporadas. Em 1990, durante o governo de Collor, que reprimiu pesadamente os camponeses, acontece o II Congresso Nacional do MST, em que os Sem Terra resolvem avançar nesse diálogo com a cidade, para
estabelecer parcerias. Somente com as alianças de classe que a Reforma Agrária se viabiliza. Era preciso mostrar que aluta pela Reforma Agrária beneficia o conjunto da sociedade brasileira. Logo
no congresso posterior, em 1995, o MST adota uma nova palavra de ordem: “Reforma Agrária uma Luta de Todos”. A mais famosa das marchas é a de 1997, um ano após o Massacre de Carajás,
quando o MST consegue organizar mais de 100 mil trabalhadoras e trabalhadores, não só do MST, mas também de vários outros seguimentos sociais, da classe operária, funcionários públicos, intelectuais, estudantes. Naquele momento o MST se evidencia como um movimento extremamente disciplinado, que tem um propósito político para além da luta pela terra, ou seja, por uma Reforma Agrária ampla e também por mudanças sociais. A partir daí as marchas passam a ser um símbolo do MST.
JST – Vivemos hoje um período muito difícil, pois a cada dia a criminalização dos Sem Terra e da luta social é mais pesada. Por que é importante retomar as marchas na conjuntura atual?
UM – Neste ano elas [as marchas] assumem centralidade, pois como você observou há uma conjuntura extremamente complexa não só para o MST, mas para o conjunto da classe trabalhadora. É um momento de aprofundamento disso que nós chamamos de criminalização
dos movimentos sociais. Vários poderes, de forma articulada, têm combatido sistematicamente o MST e os setores oprimidos que se levantam contra a ordem de miséria estabelecida. Existe uma
atuação da bancada ruralista articulada no Congresso Nacional, que luta diuturnamente contra a Reforma Agrária e contra as mudanças democráticas no campo. Existe um Poder Executivo que
frustrou a expectativa do povo em relação à realização da Reforma Agrária. E também a ação impetuosa do Poder Judiciário, que tem na figura do presidente do STF, o Sr. Gilmar Mendes, um
militante contra a democracia brasileira, contra os movimentos sociais. Mendes é um escolhido das elites brasileiras para ser o porta-voz de uma política conservadora, autoritária e que reprime o povo brasileiro. Por último, temos também a atuação do quarto poder, que é a imprensa. Seu papel é criar um consenso no imaginário da população de que os movimentos sociais são grupos de criminosos, terroristas, violentos, para assim se estabelecer uma autoridade política moral e ideológica que viabilize a repressão, o assassinato de trabalhadores e coisas parecidas. Essa conjuntura, então, aponta para uma necessidade de um diálogo ampliado com o restante da sociedade.
JST – E quais os objetivos prioritários das marchas neste ano?
UM – São basicamente três os eixos fundamentais abordados. O primeiro é fazer uma grande frente de combate a esse processo de criminalização dos movimentos. O momento é o mais grave de toda a nossa história. Existe o latifúndio, a imprensa burguesa, o Judiciário, o Executivo
e o Legislativo atuando em frente contra o MST e, por extensão, contra os outros movimentos. Esse processo precisa ser denunciado, e o que vai fazer o contraponto com a imprensa burguesa é exatamente a ação direta, a comunicação direta com a população. O segundo grande eixo é tentar reconduzir a pauta da Reforma Agrária para agenda nacional. No governo Lula, ela não passa de uma política compensatória, para amenizar tensões no campo, principalmente nas regiões onde estão os casos mais emblemáticos de tensões ou conflitos. Ela não é, para esse governo, uma política central para o desenvolvimento econômico, social e cultural do país. Então, o MST quer dialogar com amplos setores para reconduzir a Reforma Agrária para o centro da agenda, algo que só se faz com alianças amplas. Primeiro com outros seguimentos do campesinato: federações
e sindicatos. Depois com setores urbanos, especialmente a juventude trabalhadora, a juventude que está desempregada e a classe operária. O terceiro grande eixo é convocar o conjunto dos movimentos sociais, a marchar conosco. O MST quer construir marchas densas, em defesa da democracia, da Reforma Agrária e contra esta crise econômica arquitetada nos grandes centros de poder econômico, pelas nações mais ricas do mundo, que agora querem impor o ônus para os trabalhadores dos países pobres. Com esse grande cordão itinerante, que serão as marchas,
queremos debater com a sociedade as saídas para a crise econômica.
JST – Nos últimos meses, a criminalização do MST tem mostrado sua faceta mais cruel. O
Movimento já vinha sendo atacado brutalmente no Rio Grande do Sul e, agora, são os Sem Terra do Pará que estão na mira. Sendo assim, qual a importância dessa mobilização para o Pará e as
famílias Sem Terra do estado?
UM – Aqui no estado do Pará nós temos um caso emblemático do que tem sido esse processo de criminalização dos movimentos. Há algumas semanas, por exemplo, trabalhadores atingidos por barragens e pescadores ocuparam o pátio da empresa responsável pelas obras das eclusas da hidrelétrica de Tucuruí, a criminosa multinacional Camargo Correa, para pressionar o Estado a atender uma reivindicação de mais duas décadas, que exige o reconhecimento dos impactos
sociais e ambientais das obras de Tucuruí sobre a população local. Dezoito trabalhadores receberam
como prêmio o cárcere. Estão na Prisão de Segurança Máxima da região metropolitana de Belém. Outro exemplo foi o acontecimento do dia 18 de abril. Um dia após os 13 anos do Massacre de Carajás, os trabalhadores do acampamento Wladmir Maiakóvski, na fazenda Espírito Santo, em Xinguara, foram pegos numa emboscada por uma milícia contratada pela agropecuária Santa Bárbara, que é na verdade nome fantasia para os negócios clandestinos que o grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, tem no campo paraense. Foi uma tentativa de novo massacre. Todos os sete trabalhadores feridos levaram tiros na cabeça, tiros perfurando o pulmão, o abdômen e
tiros próximos ao coração. Não eram tiros para intimidação, era uma busca seletiva de eliminação. Isso acontece exatamente porque os grandes bancos estão entrando na agricultura, como
forma de acumular riquezas e jogar a população na marginalidade mais cruel e perversa. A marcha, para nós aqui no Pará, será um momento de reforçar essa denúncia, mas acima de tudo de
dizer para a sociedade que a Reforma Agrária é a única bandeira que efetivamente pode acabar com os conflitos no campo. O estado do Pará tem sido palco privilegiado da expansão da fronteira agrícola para o agronegócio, que vem com uma gana desesperadora para conquistar novas terras na região, substituir a floresta por pasto e pelo monocultivo de soja. Isso sem contar o forte financiamento de agentes do estado como o Banco da Amazônia, o BNDES e o Banco do Brasil. Eles têm financiado o avanço desse agronegócio que destrói a Amazônia. O Estado está sendo conivente com o maior desmatamento da história da humanidade. Queremos alertar a sociedade de que o Pará está sendo saqueado e destruído pelas forças do agronegócio e transnacionais, com colaboração do Estado brasileiro.
JST – As famílias Sem Terra têm clareza do tamanho das adversidades a serem superadas na
luta pela Reforma Agrária no Pará? Com que “espírito” as famílias irão se debruçar na construção da marcha do estado?
UM – Estamos fazendo uma grande incursão em todas as nossas áreas de acampamentos e assentamentos para preparar a mística da construção da marcha. Isso porque ela [a marcha] não é só a caminhada em si, mas a preparação que envolve o conjunto da militância, todas as famílias... Todos contribuem com a marcha. Seja na coleta de recursos para contratar os ônibus que vão levar
as famílias até o ponto inicial da caminhada, seja com a doação de alimentos, seja na contribuição voluntária nos debates e reuniões realizados em assentamentos e acampamentos. A disposição
das famílias é algo muito positivo. Primeiro porque elas estão vendo os ataques desferidos contra o MST. As pessoas têm percebido esse ataque massivo por meio do rádio, da televisão e pelos jornais, e isso tem indignado as famílias, pois elas têm orgulho de pertencer ao Movimento Sem Terra. Elas sabem que ele é hoje o maior movimento de massas do Brasil. Então, as pessoas têm contribuído de forma muito espontânea para a marcha. Todos e todas afirmam que vão contribuir e construir efetivamente a mobilização. A mística já está instaurada no interior do MST. O clima é de muita euforia e indignação, acima de tudo.
ESTIMADOS COMPANHEIROS e companheiras. Estamos entrando num novo período da luta de classes no campo brasileiro provocado pela crise geral que afeta a todo sistema capitalista no Brasil e no mundo. Diante disso, gostaríamos de colocar para toda militância do MST, algumas reflexões,
como subsídios no debate nos cursos, nas escolas, entre seus vizinhos e colegas.
1. A crise atinge o modo de produzir capitalista na agricultura Essa crise, que envolve todo sistema
capitalista, tem reflexos imediatos no modo dos capitalistas produzirem na agricultura. Chamamos esse modo de agronegócio. E como sabemos, esse modo se baseia em grandes lavouras extensivas. Cada fazenda se especializa num produto, na forma de monocultivo, da cana, café, soja, milho, algodão, cacau... Todo o processo é muito mecanizado. Expulsam a mão de obra e
agridem o meio ambiente com a utilização de agrotóxicos para manter a escala de produtividade.
É uma agricultura sem agricultores. Uma agricultura que está preocupada apenas em produzir lucros e não comida. E assim, o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos na agricultura. Por outro lado, esse tipo de agricultura que usa somente insumos indústrias – máquinas,
fertilizantes químicos, venenos – precisa sempre de muito crédito. Dinheiro antecipado para comprar esses produtos. Por isso, de um valor total aproximado de R$ 100 bilhões produzidos por eles, é preciso pegar antes no banco cerca de R$ 70 bilhões. Agora, com a crise, a Confederação
da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) teve a petulância de pedir para o governo R$ 150 bilhões para continuar produzindo. Portanto, o discurso que depositava no agronegócio a salvação da economia, caiu por terra. E a classe média das cidades está comprando cada vez mais produtos orgânicos – que são mais caros – porque sabe que seus produtos estão contaminados. A própria
Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – listou 20 produtos do agronegócio que recomenda à população não consumir. Esse cenário abre espaço para o debate de um novo modelo de agricultura, o modelo camponês, das unidades familiares e cooperativadas. Que somente
podem crescer com a realização da Reforma Agrária. Portanto, o lado bom da crise é que vamos ter um novo debate na sociedade, nas cidades, sobre qual é o melhor jeito de produzir na agricultura.
2. O governo envergonhado Já o governo federal está envergonhado. Não quer debater a crise publicamente com a sociedade porque acha que isso pode afetar as eleições. E por baixo
do pano segue liberando recursos para salvar os capitalistas. E como o governo tem se comportado
em relação à Reforma Agrária? Mais envergonhado ainda. Imaginem que mesmo alegando a inexistência da crise, ele teve coragem de cortar 48% de todos os recursos destinados a Reforma Agrária. E cortou, em especial, nas verbas para desapropriação de terras, na assistência técnica por meio do Programa de Assessoria Técnica, Social e Ambiental (ATES) e nas verbas para o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, o Pronera. Ou seja, em vez do governo aproveitar a crise e debater com a sociedade a necessidade de ampliar a agricultura familiar e camponesa e acelerar a Reforma Agrária, ele opta em andar na contramão da história. E como todo mundo que anda na contramão, uma hora dessas vai bater em algum poste... A comissão de negociação que esteveem Brasília durante a nossa jornada, fez duras críticas aos setores do governo responsáveis pela Reforma Agrária. Dez pontos mínimos – emergenciais para recuperar a Reforma Agrária – foram apresentados. Começando pela reposição do orçamento, pela atualização dos índices de produtividade, pela assinatura imediata dos convênios de ATES e solução para todas
as famílias acampadas no país. Agora a palavra está com o governo. Não estamos pedindo o paraíso, nem sequer um novo plano de Reforma Agrária, afinal falta apenas um ano de mandato, mas apenas que o governo seja inteligente em saber aproveitar o momento de crise para resolver os graves problemas sociais do campo.
3. A necessária aliança com os demais movimentos sociais da cidade Por ultimo, diante de uma conjuntura de crise e de aumento das dificuldades para toda classe trabalhadora brasileira, nós, do
MST, só temos um caminho. Precisamos urgentemente colocar nossas energias, de todos os militantes, para contribuir num verdadeiro mutirão para debater a crise nas cidades. Realizar plenárias com os demais movimentos sociais da cidade e preparar uma grande aliança campo e cidade que nos permita fazer mobilizações contra a crise e propor alternativas concretas. Apesar da complexidade e das dificuldades e sacrifícios terem aumentado, a conjuntura tende a entrar para um novo período histórico que vai alterar a correlação de forças e derrotar a atual visão, simplista e neoliberal, de prioridade para o agronegócio.
Por Solange Engelmann
Setor de Comunicação do MST
GRUPOS DE MILÍCIAS, financiadas por fazendeiros e usineiros, atacam novamente acampamentos do MST, nas regiões Noroeste e Norte do Paraná. Na noite de 21 de abril, cerca de dez homens fortemente armados chegaram atirando contra as pessoas e atearam fogo em cinco barracos, que foram totalmente destruídos, no acampamento Oito de março, fazenda Videira, em Guairaçá, no Noroeste do Paraná. Não houve feridos porque as 70 famílias do MST que vivem no local conseguiram se refugiar num barracão de alvenaria.
Após a ação criminosa, a polícia da região esteve no local e recolheu 12 cápsulas deflagradas de revólveres calibres 38 e 22, mas ninguém foi preso. Segundo relatos dos Sem Terra, quase toda semana os capangas cercam e atiram contra o acampamento. Há fortes indícios de que o grupo de milícia é financiado pela usina de álcool Santa Terezinha e fazendeiros da região. Após a destruição dos barracos, uma Comissão de deputados e o OuvidorAgrário do Paraná, Vinícius Oliveira, visitaram o acampamento para verificar a situação das famílias.
O deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), membro da Frente Parlamentar da Terra no Congresso Nacional, afirmou que o cenário é típico de um atentado terrorista. “Vamos cobrar das autoridades policiais e do Ministério Público uma investigação mais profunda para que os responsáveis e mandantes sejam identificados e punidos”, garantiu Dr. Rosinha. Nos últimos dois anos, a Ouvidoria do Incra registrou pelo menos 12 ataques de pistoleiros contra os Sem Terra no local.
As famílias acampadas denunciaram que as ações criminosas dos pistoleiros já deixaram três pessoas feridas, em março de 2007. Mataram cavalos e porcos dentro do acampamento, além de terem cortado fios de luz, derrubando um poste e deixando as famílias sem energia elétrica. Os pistoleiros também fizeram disparos de tiros contra a secretaria do MST, em Terra Rica, e agrediram fisicamente um trabalhador acampado. Fazenda Guairaçá Com mais de 1,2 mil hectares, a fazenda Videira foi ocupada por 500 famílias do MST em março de 2007.
Antes, em dezembro de 2006, a área foi desapropriada por decreto presidencial para fins de Reforma Agrária, por ser considerada improdutiva. Na tentativa de fraudar o decreto de desapropriação, a fazenda foi fracionada em quatro partes. Como os herdeiros contestam a desapropriação na Justiça, o processo administrativo encontra- se parado no Incra. Ligada ao grupo Usaçúcar e pertencente à família Meneguetti, a usina de álcool Santa Terezinha arrendava a área, de propriedade da empresária Laci Dagmar Zoller Ribeiro e filhos. Uma ação policial de busca e apreensão localizou, em setembro de 2008, uma grande quantidade de munições, cartuchos e uma pistola calibre 9 milímetros no apartamento do filho da proprietária, em Curitiba.
Violência em Porecatu
A mesma pratica de violência é registrada no acampamento do MST, batizado de Herdeiros da Luta de Porecatu, na fazenda Variante, em Porecatu, no Norte do Paraná. para apurar as denúncias feitas pelos Sem Terra, no dia 30 de abril, o deputado estadual do PT, Tadeu Veneri e o Ouvidor
Agrário do Paraná, Vinícius Oliveira, visitaram o acampamento e se reuniram com representantes locais do Ministério Público, Poder Judiciário e delegado da Polícia Civil, para cobrar proteção às
famílias acampadas e investigações sobre a formação de uma milícia, armada pelo grupo Atalla, na região.
Segundo os trabalhadores, homens armados estão ateando fogo na cana-de-açúcar da fazenda e, posteriormente, registrando notícia crime na delegacia de Porecatu como se o incêndio fosse provocado pelos acampados. O mesmo grupo também incendiou uma parte da reserva da fazenda. Há indícios que o delegado da cidade esteve nas proximidades do acampamento, com seguranças do grupo Atalla e atirou contra um grupo de trabalhadores. Durante o registro de Boletim de Ocorrência (BO) da agressão, na delegacia, o delegado tentou incriminar os Sem Terra pela agressão da qual foram vítimas. Em outra tentativa para registrar BO, um trabalhador foi
mantido dentro da delegacia por mais de cinco horas, submetido a um longo interrogatório ilegal, impedido de beber água e ir ao banheiro.
A fazenda Variante foi ocupada por cerca de 2 mil Sem Terra do MST, em novembro do ano passado. Em agosto do mesmo ano, durante uma vistoria do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, foram encontrados 17 trabalhadores em situação análoga ao trabalho escravo. A área de 1.362 hectares, pertencente ao grupo Atalla, estava sendo utilizada para o plantio de cana-de-açúcar que abastece a Usina Central de Porecatu, produtora de açúcar e álcool, de propriedade do mesmo grupo. A fazenda foi vistoriada pelo Incra e considerada improdutiva. Durante vistoria na área, foram encontrados 228 funcionários da empresa em situação degradante. Também foram identificados casos de exaustão física causada pela jornada excessiva.
Providências
A CPT, a organização de direitos humanos Terra de Direitos e o MST exigem agilidade na investigação dos focos de ações de milícias armadas no Paraná e uma resposta contundente à sociedade e aos trabalhadores Sem Terra, que há vários anos são atacados por estes bandos armados. Há alguns anos a formação desses grupos vem desafiando as autoridades do estado.
São bandos que agem com armamentos pesados, ameaçam, realizam despejos violentos e assassinatos, sendo financiados e comandados pelos latifundiários, empresas e empresários rurais.
Por Miguel Enrique Stedile
Setor de Comunicação do MST
DESDE O FINAL do ano passado, as notícias sobre a crise econômica bombardeiam diariamente os trabalhadores. Fábricas fechadas, banqueiros desesperados, governos com medo, marolas e
tsunamis... E as saídas apontadas para a crise seriam todos “apertarem os cintos”, o governo socorrer empresas, muitos trabalhadores serem demitidos até que dias melhorem cheguem. Mas
os motivos dessa crise são pouco explicados ou escondidos numa linguagem econômica para que não se entenda o que realmente se passa. Se entendermos o que é realmente esta crise, vamos
perceber que ela não é uma crise dos trabalhadores. Não fomos nós que a criamos e, portanto, não somos nós que devemos pagar por ela. As crises fazem parte do capitalismo.
É da natureza deste sistema de que de tempos em tempos, pela sua própria lógica, aconteçam crises. Isso porque o capitalismo é baseado numa divisão da sociedade: os trabalhadores produzem a riqueza, transformadas em mercadorias, mas estas riquezas são vendidas pelos capitalistas. A apropriação deste trabalho permite que os capitalistas fiquem cada vez mais ricos, explorem cada vez mais os trabalhadores para produzirem mais e mais, e até mesmo derrubem outros capitalistas, concentrando mais riqueza. E os trabalhadores vão ficando cada vez mais distantes da possibilidade de produzirem para eles mesmos, pois sua separação dos meios de produção, como
a terra, as máquinas etc, se faz como essencial para o sistema capitalista.
Mas esta lógica gera superproduções, onde há mais mercadorias à venda do que condições dos trabalhadores para comprarem. Nestes casos, os capitalistas não conseguem mais ter as mesmas taxas de lucros de outros períodos. As fábricas diminuem a produção, os bancos não conseguem mais cobrar juros e receber dívidas. Os consumidores não conseguem mais pagar suas dívidas e aumentar as compras. E aí, quebram empresas, cai a produção, aumenta o desemprego etc.
A crise que vivemos hoje faz parte desta maneira do capitalismo funcionar, mas também tem suas características próprias.
Nas últimas décadas, os capitalistas passaram a investir mais no ramo financeiro – ou seja, bancos, ações, fundos de pensão – investimentos que não geram riqueza ou produção e que recebem juros sobre os próprios investimentos, ou seja que gera mais dinheiro sobre o próprio dinheiro e não sobre a mercadoria. À medida em que o capital financeiro passou a oferecer mais lucros que o capital produtivo, passou a concentrar também a maior parte do capital, controlado por bancos e empresas transnacionais. Para que tivessem cada vez mais lucros, os bancos e empresas pressionaram os governos para diminuir leis e aumentar a liberdade de circulação deste capital. Era o chamado neoliberalismo. Na prática, isso gerou uma super-acumulação de riquezas e capital na mão de poucos capitalistas, gerando falta de oportunidades para novos mercados para os próprios capitalistas seguirem acumulando e ganhando dinheiro.
No capitalismo, nenhuma saída para a crise que eles mesmos criaram pode beneficiar os trabalhadores. As saídas implicam em demissões, em aumento da exploração de quem se mantiver no emprego, maior destruição ambiental e menos recursos públicos para a área social para que haja mais dinheiro para salvar empresas e bancos. E as conseqüências já podem ser sentidas: segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 20 milhões de trabalhadores perderão
seus empregos até o fim deste ano. Além disso, os governos da Europa e Estados Unidos já gastaram cerca de 11% de toda riqueza produzida no mundo para salvar bancos e empresas. No Brasil, o governo injetou mais de R$ 360 bilhões na economia em diversas medidas que beneficiam apenas empresas.
Para comparação, os governos precisariam investir 1% de toda riqueza do mundo para reverter o aquecimento global ou para acabar com a fome. Bastaria metade do que os bancos receberam.
(Texto baseado na cartilha “Para debater a crise”, da Assembléia Popular)
Crise revela fracasso do agronegócio
A agricultura foi um dos setores que sofreu maior controle do capital financeiro. Nos últimos anos, cada vez mais empresas e agroindústrias foram adquiridas por bancos. Quando estes bancos já
controlavam várias empresas agrícolas, passaram a juntá-las numa mesma empresa, aumentando a concentração e comprando empresas menores. Hoje, dez empresas transnacionais controlam a
agricultura em todo o mundo, desde as sementes até a comercialização.
E, claro, quando a crise atingiu os bancos, o agronegócio, que é subordinado a estes bancos, sentiu o baque. Somente em dezembro, 134 mil trabalhadores foram demitidos no campo. A maior parte das demissões – 70,1 mil trabalhadores – ocorreram no setor sucroalcooleiro. Ou seja, os que mais demitiram foram os usineiros, a quem o presidente Lula chamou de “heróis” em 2007. Ainda no ano passado, inúmeras empresas do agronegócio receberam mais de R$17,2 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Menos de um ano depois, estas mesmas empresas já demitiram mais de 9,3 mil trabalhadores.
Mesmo que a crise exponha o fracasso do agronegócio, o governo não deixa de socorrer estas empresas e permitir que enviem mais lucros do Brasil para seus donos no exterior. No mês passado, o governo anunciou uma nova linha de crédito no BNDES para o agronegócio – agroindústrias, fabricantes de máquinas e usinas – que somam R$ 12 bilhões. Para a agricultura camponesa, nada.
Outras empresas foram salvas antes mesmo do pacote.Com a crise, a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e a Aracruz perderam juntas mais R$ 4 bilhões. Os prejuízos iam impedir a compra da Aracruz pela VCP. Mas, logo, receberam uma mãozinha: primeiro, o Banco do Brasil comprou parte do Banco
Votorantim para injetar dinheiro no conjunto de empresas, gastando R$ 4,2 bilhões para comprar o Banco, o que ajudou a encher o caixa da VCP. Além do dinheiro do Banco do Brasil, a VCP pegou mais R$ 2,4 bilhões com o BNDES a juros baixos.
A compra da Aracruz custou R$ 5,6 bilhões e quase metade veio diretamente Crise revela fracasso do agronegócio dos cofres públicos. Se somarmos o dinheiro que foi pago pelo Banco Votorantim,
isso dá R$ 6,6 bilhões. Ou seja, o governo comprou a Aracruz para a Votorantim e ainda deu R$ 1 bilhão de brinde. E mesmo com o dinheiro do governo, as empresas seguem demitindo. (MES)
Por José Luis Patrola
Coordenador da Brigada Internacionalista Dessalines
HÁ MUITOS ANOS a Via Campesina Brasil vem tentando desenvolver um programa de cooperação com as organizações camponesas haitianas. Depois de o governo federal rejeitar nossa proposta de trabalho, decidimos viajar ao Haiti com nossos próprios recursos. Desde janeiro, estamos aqui.
Durante este ano, pretendemos conhecer o país e suas organizações camponesas na perspectiva
de preparar as bases para um programa de cooperação mais intensivo. Estamos percorrendo todo o território, articulando e visualizando a difícil realidade do setor camponês. Ao mesmo tempo, pretendemos iniciar experiências na produção de sementes e mudas, na construção de cisternas e na possibilidade de instalar uma escola técnica de nível médio para capacitar
jovens camponeses. O meio rural haitiano, como todo o país, é muito pobre: 65% da população,
de aproximadamente nove milhões, é camponesa e vive extremas dificuldades. Primeiramente, o meio rural vivencia o problema da terra. A grande maioria dos camponeses tem pouquíssima terra e
na maioria dos casos não possui nenhuma qualidade de titulação e regra para seu uso. Há, portanto, um natural desinteresse pelo uso e pela conservação da mesma. Ao mesmo tempo, a crise ambiental se agrava devido ao uso intensivo de tecnologias nocivas ao meio ambiente e ao consumo intensivo de carvão, que é utilizado em 70% das cozinhas do país. Em todo o território restam apenas 3% de cobertura florestal nativa. Por último, o meio rural vive uma crise econômica muito grave. As políticas neoliberais e o livre comércio estão destruindo a capacidade produtiva
do país. Em 1970 o Haiti produzia praticamente 90% de sua demanda alimentar. Atualmente, importa-se 55% de todos os gêneros alimentícios consumidos. As possibilidades deste pequeno
país se desenvolver são realmente limitadas.
O agravamento dos problemas econômicos, sociais e ambientais poderá gerar verdadeiras convulsões ou catástrofes populacionais sem precedentes, como as enchentes de setembro
de 2008, que mataram mais de 700 pessoas em apenas uma cidade. O Haiti necessita urgentemente da solidariedade internacional construída por parâmetros não capitalistas e oportunistas.
A integração que o país necessita não é a integração que o livre mercado proporciona. Esta lógica prova, a cada dia, sua ineficiência em resolver os problemas estruturais do país, que precisa
urgentemente reabilitar a economia agrícola por meio de sistemas de irrigação e captação de água da chuva. Construção de estradas, novas tecnologias para a produção, um novo sistema de ensino e pesquisa para o campo com escolas técnicas integradas às organizações camponesas.
A tarefa de nossa brigada consiste fundamentalmente em fortalecer as organizações camponesas na perspectiva de buscar saídas coletivas por meio da solidariedade internacional e de uma integração através da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA). Ou o país caminha rumo a uma integração alternativa ou o futuro é a barbárie.
Em terras caribenhas
No dia 29 de janeiro de 2009, depois de haver passado 50 dias pelo interior da Venezuela, estudando e conhecendo as experiências do Instituto Agroecológico Latino Americano, o IALA, a Brigada Internacional da Via Campesina brasileira, Brigada Dessalines, desembarcou no Haiti para efetivar a missão de solidariedade internacional junto aos camponeses haitianos.
Quatro militantes de três regiões distintas do Brasil. Somos um coletivo, uma brigada composta por membros do MST e do MPA. Somos assentados em áreas de Reforma Agrária, pequenos agricultores, técnicos, professores. Somos militantes internacionalistas. Quatro esperançosos companheiros dispostos a intercambiar, a vivenciar... Dispostos a aprender e ensinar com os camponeses haitianos, herdeiros de Dessalines. Dispostos a aprender e ensinar no cotidiano do povo mais pobre do nosso continente, vítima direta das bárbaras agressões do capital.
Desembarcamos, no dia 29 de janeiro, quatro curiosos. Aflitos para ver, para conhecer o povo,
para sentir o contraste físico, geográfico, cultural, social e econômico que o tempo impôs. Desembarcamos trazendo em nossas malas a solidariedade. A serenidade. O entusiasmo. Trazemos um dos valores mais profundos do militante. A completa disponibilidade. Desembarcamos, no dia 29 de janeiro, dispostos a enfrentar qualquer tipo de adversidade. Dispostos a aprender um idioma completamente distinto do nosso, a percorrer o país por rodovias que literalmente caem aos pedaços, pisoteadas por animais, veículos e pelos “blindados”... Dispostos a visualizar cotidianamente o horizonte montanhoso despido de árvores.
Desembarcamos, trazendo em nossas malas sementes. Uns dos bens mais precisos para a manutenção da vida humana e que nessas terras distantes precisamos blindar do perigo ameaçador
transnacional. Em nossas malas, carregamos grãos que geram a vida e a esperança... Esta, tão pouco valorizada, e tão escassa nesse país roubado, saqueado e invadido muitas vezes. Desembarcamos sem balas, tanques e fuzis. Quatro companheiros sem as armas da guerra,
sem as armas que muitos brasileiros já trouxeram em suas malas e as apontaram contra o povo.
Desembarcamos com nossa esperança unida à esperança dos camponeses haitianos... Nosso entusiasmo unido ao entusiasmo afro-caribenho de camponeses e camponesas pobres que ainda não perderam a perspectiva de um país melhor... Nossa disponibilidade compartilhada com aqueles
que sempre foram duros com os invasores desrespeitosos... Nossas sementes, unidas com as sementes produzidas nestas terras... Nossa luta unida com a luta deles. Nossa bandeira hasteada
com a bandeira deles. Nossa vitória unida com a vitória deles. Nosso continente unido ao continente deles... Viva o Haiti!! Viva a Brigada Dessalines!!
Quem foi...
...Jean-Jacques Dessalines? Líder da Revolução haitiana que proclamou a independência do país em 1º de janeiro de 1804 e foi seu primeiro governante. Ex-escravo, Dessalines participou das revoltasde escravos da colônia francesa de Santo Domingo. (20/09/1758 – 17/12/1806)