No mesmo mês em que o MST completou 25 anos de luta pela Reforma Agrária no Brasil, o povo cubano comemorou meio século de resistência da Revolução Socialista. A médica Aleida Guevara, uma das filhas de Che, participou das comemorações de aniversário do Movimento durante o XIII Encontro Nacional, em Sarandi (RS). Em entrevista ao Jornal Sem Terra, Aleida falou sobre a importância da luta do MST, dos 50 anos da Revolução Cubana e das perspectivas para seu país, da necessidade da união entre os povos e da realização da Reforma Agrária no Brasil.
Para ela, o MST tem se convertido em um dos movimentos mais importantes da América Latina por mostrar que unindo forças é possível transformar a sociedade. Leia a entrevista.
Jornal Sem Terra - Para você, que vem de um processo revolucionário de 50 anos, como é participar da comemoração dos 25 anos do MST?
Aleida Guevara - Não acompanhei os 25 anos do MST, mas de quase 20 com certeza. A primeira vez que conheci algo do MST foi em São Paulo, quando um grupo de pessoas me falou de um documentário que havia visto na televisão sobre meu pai. Nesse dia discutimos muito, porque para mim o documentário era muito ruim! Alguns anos depois, o pessoal do MST começou a me mobilizar para falar de Che, da Revolução Cubana e pouco a pouco meu pai foi se tornando uma pessoa muito importante dentro do Movimento. Começaram a conhecê-lo melhor e a tê-lo como exemplo. Eu também fui conhecendo melhor o Movimento, vendo as dificuldades, os problemas enfrentados - e como combatente - onde quer que estivesse, não falava somente da Revolução Cubana, mas também do MST do Brasil. O Movimento foi crescendo, se tornando maior e ao mesmo tempo mais unido, mais forte, mais coerente. Há algum tempo, comecei a escrever um livro sobre o MST e comecei a fazer entrevistas com as pessoas mais simples do Movimento. Havia um camponês que me disse: “Quando eu entrei no MST, a única coisa que queria era um pedaço de terra para dar de comer aos meus filhos. Só isso. Agora não. Agora entendo que a terra não é propriedade de ninguém, que a terra é de todos, que é preciso fazê-la produzir para o bem de todos.” Aquele homem, que entrou no Movimento com uma ambição pessoal, hoje luta para mudar uma sociedade. Essa maturidade política dentro do MST nos dá esperança de que se pode fazer coisas muito lindas, mesmo sem ter os meios necessários. Eu entendo hoje o MST como um dos movimentos mais importantes da América Latina, talvez o mais importante, porque tem mostrado que unindo forças é possível mudar a sociedade.
JST - Em janeiro o MST completou 25 anos e a Revolução Cubana, 50. O que a revolução tem a ensinar ao MST?
AG - O MST não pensa apenas em seus integrantes, pensa em seu povo, em seu continente. E tem sido solidário com o Haiti, com outros países africanos. Já rompeu as fronteiras do Brasil. Isso é o mais importante porque começa a mostrar ao mundo que sim, é possível. Por isso, nos próximos anos, seria muito bom que o Movimento tivesse a oportunidade de fazer algo mais pelo povo brasileiro e de chegar mais até a população. Como fazer isso é com vocês, mas de alguma maneira tem que dar um passo a mais e caminhar em frente porque é necessário para nosso povo. A América Latina está passando por uma mudança muito importante, que começou com a Revolução Cubana e que vai se fazendo cada dia mais presente, não somente por uma questão ideológica, mas por necessidade. A primeira vez em que estive no Brasil foi para inaugurar um hospital que levaria o nome de meu pai em Santos, e fiquei muito impressionada com que vi. Crianças nas ruas, drogas, violência. Eu me perguntava: “Onde estou, o que é isto?”. Eu pensei que vivendo nisto as pessoas teriam que chegar a um limite e dizer: “ou morro de fome ou morro tentando mudar esta realidade”. Como fui criada e formada numa Revolução Socialista, sou médica, tenho certo nível cultural, sou ideologicamente comunista, imaginei que talvez fosse minha educação que me fizesse pensar assim. Mas uma das primeiras vezes que fui ao Rio Grande do Sul, pelo MST, há uns 10 anos, conheci uma senhora simples, chamada Rose [Roseli Nunes]. Uma mulher brasileira que não havia sido educada em Cuba, não era socialista, não tinha o melhor nível cultural, era uma camponesa sem formação acadêmica, mas que não somente havia dito o que eu pensava - que se poderia morrer para mudar esta sociedade – como o havia feito: morreu defendendo um pedaço de terra para alimentar seus filhos. Rose preferiu morrer tentando mudar a situação em que vivia a morrer de fome. Isso me mostrou que podemos viver em lugares diferentes e ter as mesmas necessidades. A Revolução Cubana só mostra que é possível fazer alguma coisa, e o MST vem buscando alternativas à sua própria realidade. E isso eu vejo no MST: mostrar que é possível e necessário mudar, porque não podemos seguir vivendo assim.
JST - O que representa para você a luta pela terra no Brasil, já que o próprio presidente Lula abandou a idéia de que é preciso fazer Reforma Agrária para mudar a sociedade brasileira?
AG - Sinto pelo Lula ter abandonado esse caminho, porque acredito que a única maneira de solucionar estes problemas na América Latina e no Brasil é por meio de uma Reforma Agrária profunda. É inadmissível que um país tão rico, com todas as terras e possibilidades de clima do Brasil, tenha uma só criança passando fome. Isso não é possível. A terra não pode ter dono, tem de ser de propriedade coletiva. Os que crêem em Deus, por exemplo, sabem que quem a criou foi um poder superior. Como podemos dar a uma transnacional européia um pedaço de terra enquanto o povo passa necessidade? Como podemos? Com que direito? Não há justificativa para isso. Depois que o povo determinar que suas necessidades estejam realmente satisfeitas, então pode ajudar outros, mas sem negociar a terra. Por isso, creio que só poderemos resolver nossos problemas quando for possível produzir nesta terra para todos. Portanto, a Reforma Agrária para mim é fundamental.
JST – Qual a opinião sobre a mudança do governo de Fidel para Raúl em Cuba?
AG - Fidel, Raúl, qualquer companheiro que o povo cubano elege, está fazendo com a segurança absoluta de que vai continuar o caminho. Estamos há muitos anos enfrentando um inimigo muito poderoso. Não podemos tropeçar ante o tempo, ante a vida. O mais lindo que Fidel fez foi formar homens e mulheres ao seu redor e criar as possibilidades para que seguissem lutando, pensando, atuando. Se sabemos amar – e eu estou certa de que meu povo sabe amar - é preciso que sigamos fazendo o que ele nos ensinou, o que ele começou. E aperfeiçoar, melhorando sempre. Aliás, não temos outra alternativa além de seguir em frente. Andar para trás é impossível, e mudar nossa sociedade também, porque é apenas na sociedade socialista que o povo cubano pode seguir se desenvolvendo.
JST - A vitória de Obama vai mudar alguma coisa?
AG – Oxalá pudesse ser assim. O presidente dos Estados Unidos é um personagem eleito sem grande poder, o poder realmente está no Senado. E se o Senado não muda, se o povo não muda a Constituição que tem hoje, é quase impossível provocar mudanças razoáveis. Cuba não está castigada por direitos humanos, nada disso. Cuba está sancionada porque mostra que pode viver de outra maneira. E o governo dos Estados Unidos não pode aceitar que exista um povo que lhe diga ‘não’, que mantenha o ‘não’ até as últimas conseqüências. Não pode aceitar que haja um povo que não aceite seu domínio, que não aceite ficar sob suas botas. Não. Então, por isso, tentam acabar com a Revolução Cubana. Enquanto o povo dos EUA não tomar consciência de seu poder, enquanto não usar esse poder em benefício da humanidade, não creio que haverá mudanças importantes nos EUA, por mais vontade de mudar que um presidente tenha.
JST – O que acha da guerra de Israel contra a Palestina?
AG - Estive há pouco tempo no Egito e falamos sobre a desunião do mundo árabe. E isso permite que Israel tenha esse tipo de ação, porque o mundo árabe ainda não decidiu lutar. O Líbano impôs uma derrota tremenda a Israel, mas o restante do mundo árabe não reagiu diante disso, esse era o momento. Os palestinos, desgraçadamente, estão muito divididos em várias facções. Com certeza, Israel aproveita essas coisas para penetrar no território e colocar em contraposição homens e mulheres de um mesmo povo. Isso é fatal para a Palestina e fatal para o mundo árabe. É necessário buscar de todas as formas uma unidade entre os povos e ver qual é inimigo comum. O povo árabe tem de usar seu poder para frear Israel. Mas se eles não se unem e não criam uma unidade, Israel vai seguir cometendo estas atrocidades, e o mais triste é que nós vamos seguir permitindo. Evo Morales, presidente da Bolívia, fez algo muito bom ao romper relações com Israel. Mesmo Cuba sendo um país bloqueado pelos Estados Unidos, rompeu relações com Israel em respeito ao povo palestino. Se Cuba pode fazer isso, por que outros países não podem? É preciso manter essa firmeza com relação a Israel para que se dêem conta de que não tem a possibilidade de pisar em um povo dessa forma. Temos que mostrar isso a eles, mas não o fazemos. Se não unirmos nossas forças não vão saber que há um poder que pode enfrentá-los. E esse mesmo povo israelita sofreu as mesmas coisas na Segunda Guerra mundial, quase desapareceu como povo, e hoje faz o mesmo que fizeram com eles. Eu sinto uma indignação muito grande!
JST – Como Cuba prepara sua juventude para a continuidade do processo revolucionário?
AG - Formamos homens e mulheres numa sociedade onde o fundamental é a solidariedade e o respeito a outros povos. Assim nos ensinam. Eu, por exemplo, conheci a Nicarágua. Mesmo que a Nicarágua tivesse problemas internos, eu, como cubana, não iria resolver os problemas internos do país. Temos que respeitá-los. Ir trabalhar um ano ou dois em outro país não dá o direito de intervir nos problemas internos, mas sim de contribuir sem ordenar. Assim me formaram, me eduquei, e assim se educam os jovens cubanos. Nossa juventude se educa desta maneira, com muitos critérios. No entanto, é uma juventude muito forte como todas as juventudes. Nossa juventude também tem carências, mas foi aprendendo que as coisas materiais não são as mais importantes. O contato de nossos jovens, muitos médicos formados que estão em várias partes do mundo, os ajuda a conhecer a realidade deste continente. Esse contato com a realidade da América Latina, África e Ásia faz com que os jovens cubanos tenham mais amadurecimento político e mais necessidade de defender o que têm.
JST - Como o governo Cubano trabalha a questão do consumo, considerando também o embargo dos EUA à Cuba?
AG - O presidente de Equador, Rafael Corrêa, dizia em Cuba há alguns dias que a sociedade socialista tenta competir com a capitalista na questão do consumo. Isso é louco, mas é verdade. A sociedade socialista tem que ensinar sua gente a viver de outra maneira, mostrar que é possível viver bem sem acabar com o mundo, com a natureza. Isso não é fácil porque Cuba está a 90 quilômetros dos Estados Unidos, que fazem uma grande propaganda. E mais, Cuba é o único país do mundo hoje que tem cinco emissoras de rádio de outro país, no seu próprio idioma. Existe um canal de TV que os EUA transmitem somente para Cuba. A propaganda é muito dura com relação à forma de vida. Por exemplo: as pessoas querem um carro, mas Cuba não é produtora de carro, não temos gasolina ou álcool para manter. Como não temos essa capacidade, fazemos um serviço social para que toda a sociedade tenha à sua disposição um meio de transporte coletivo, público. Assim resolvemos um problema social e acabamos com a contaminação, a poluição e todos os problemas que seriam provocados se cada pessoa tivesse um carro. As pessoas querem consumir, viver como vive o vizinho, o que é um erro. As pressões externas também são muitas, mas Cuba vai conseguindo segurá-las pouco a pouco com o apoio da América Latina.
Por Igor Felippe Santos
Uma delegação formada por 200 pessoas - entre militantes sociais, ambientalistas, intelectuais, defensores de direitos humanos e jornalistas nacionais e internacionais de mais de 30 países -, visitou projetos que demonstram a disputa entre as grandes empresas e os movimentos populares na Amazônia, no final de janeiro, no Fórum Social Carajás. A atividade foi organizada pelos movimentos sociais do Pará, como o MST e a Via Campesina, com apoio da Prefeitura de Parauapebas.
A primeira parada foi na mina explorada pela Vale, em Parauapebas, onde a empresa tira a maior parte das riquezas que garantem o lucro de R$ 20 bilhões ao ano. A visita intimidou a empresa, que tenta construir uma imagem positiva a nível internacional. Antes da atividade, a diretoria da Vale pressionou autoridades para impedir a visita. Depois, tentou impor um roteiro que limitasse a atividade. Por que a Vale quer esconder suas instalações?
A mina fica dentro da Floresta Nacional de Carajás, sob a responsabilidade do Instituto Chico Mendes. O órgão federal, que cumpre uma função pública, poderia autorizar a entrada da delegação, apesar das pressões de uma empresa que não está acostumada a ser contrariada. Com isso, a mineradora mudou de tática: em vez de impedir a visita, resolveu influenciar os integrantes da delegação. Tanto que despachou do Rio de Janeiro a chefia da sua assessoria de comunicação para o interior do Pará. Por que tanto medo?
Foi liberado apenas o acesso a uma das menores minas do Pólo Carajás. Mesmo assim, a visão é grandiosa: o buraco parecia resultado da queda de um asteróide. A “cratera” de onde a Vale tira as riquezas do povo brasileiro é tão grande que escavadeiras gigantes parecem formigas. O tamanho da mina evidencia o nível de exploração e ganância no seio da Amazônia.
Por conta da pressão da Vale, durante os três dias de viagem, os ônibus da delegação foram escoltados por soldados da Força de Segurança Nacional, que acompanharam todos os passos dos participantes, causando um constrangimento a personalidades reconhecidas internacionalmente.
Trilhos no assentamento
As atividades prosseguiram no dia seguinte com uma visita ao assentamento da Reforma Agrária Palmares II, cortado em 20 km pelos trilhos da Vale. Conquistado pelo Movimento em março de 1996, depois de dois anos de ocupação, o assentamento ocupa 15 mil hectares. As 517 famílias produzem arroz, milho, feijão, mandioca e farinha, frutas da região como cupuaçu, açaí e murici, além de banana. Na praça central da agrovila, há brinquedos para as crianças. Em frente à praça, está a escola, que atende 1,3 mil crianças e adolescentes de ensino fundamental e médio, que podem ler e estudar na biblioteca.
Foram famílias desse assentamento que pararam os trilhos da Vale para denunciar que os lucros da empresa implicavam na pobreza dos trabalhadores da região. A comitiva observou a passagem dos 3,9 km de comprimento de um dos 13 trens da mineradora. Cada um deles tem 330 vagões, que levam diariamente o minério de ferro extraído da serra dos Carajás, no sul do Pará, até o porto de São Luis, no Maranhão. De lá, é despachado para a China e Japão. Os trens podem transportar 270 mil toneladas de minério. Em 2008, passaram pelo assentamento 96,5 milhões de toneladas.
No assentamento, foi lançada a pedra fundamental da construção do Instituto de Agroecologia Latino-Americano (Iala), que pretende formar técnicos em agroecologia especializados no bioma amazônico, dentro da perspectiva do desenvolvimento de uma nova matriz de produção agrícola, baseada em técnicas que respeitem o ambiente.
Curva do S
A delegação visitou também um ponto que sintetiza a contradição entre modelos de desenvolvimento da Amazônia: a Curva do “S”, onde foram assassinados 19 trabalhadores rurais do MST em 17 de abril de 1996, no município de Eldorado de Carajás.
Na curva, onde estão as 19 castanheiras que simbolizam os lutadores que tombaram, aconteceu o lançamento do Bosque Internacional de Solidariedade, onde foram plantadas árvores nativas da região. Em seguida, a comitiva jantou no assentamento 17 de Abril, conquistado pelos sobreviventes do massacre.
No último dia, a delegação visitou a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, distante cerca de 300 km ao sul de Belém. Na chegada, estavam a postos 200 soldados do batalhão do Exército brasileiro, com armas e três tanques de guerra. Um horizonte de águas e uma construção grandiosa, da maior hidrelétrica brasileira, são vizinhos de uma comunidade pobre, que vive em casas de sub-construção com instalações elétricas precárias.
O Fórum conseguiu apresentar alguns exemplos do quadro que ameaça a Amazônia, que não pode avançar sem o conhecimento e posicionamento da sociedade. De um lado, madeireiras, siderúrgicas, barragens e mineradoras, com suporte do Estado, que estão transformando a floresta em um espaço privado de exploração predatória para a acumulação do capital.
De outro, trabalhadores rurais, assentados, ribeirinhos, indígenas e movimentos sociais, que dependem da preservação da floresta para garantir seus meios de sobrevivência e cobram controle social sobre essas atividades. Esses são os protagonistas da disputa entre os projetos das grandes empresas e as experiências populares para o controle de um dos maiores patrimônios do nosso país, a Amazônia.
Nestas páginas que seguem, como parte das matérias pelos 25 anos do MST, o JST publica três experiências em alguns estados e em alguns eixos considerados muito importantes para a consolidação do nosso Movimento. No Maranhão, a experiência da educação. O estado colocou como meta a erradicação do analfabetismo nas áreas de assentamentos e acampamentos e tem avançado neste objetivo. No Distrito Federal e Entorno, mais especificamente no pré-assentamento Gabriela Monteiro, diversas organizações e coletivos encontraram naquele lugar um espaço de confluência e de debates políticos. E no Ceará, um método de coletivizar o uso e a posso de terra.
MA: Educação como instrumento de transformação social
Por Reynaldo Costa
O MST acredita que o processo de libertação dos trabalhadores não é apenas a aglutinação das massas, mas acima de tudo, é a formação e a educação para a compreensão do papel de cada indivíduo na história da humanidade. Em 2008, o MST do estado do Maranhão realizou uma experiência de alfabetização nos acampamentos e assentamentos, e envolveu 1.546 trabalhadores em 67 áreas de Reforma Agrária.
Foi utilizado o método cubano de alfabetização “Sim, Eu Posso!”, e em oito meses de trabalho, em parceria com o governo do estado, 1.236 dos matriculados, ou seja, 80% dos assentados e acampados do MST no estado, foram alfabetizados. A metodologia utiliza-se de encontros presenciais e a aprendizagem é mediada pelo educador que se se dispõe de tecnologias como aparelho de TV e vídeo. A alfabetização ocorre pela correspondência entre números e letras, em três fases: exercício de coordenação motora, ensino de leitura e escrita e consolidação. Um assentamento foi decretado Território Livre do analfabetismo pela Secretaria de Estado da Educação.
Em setembro passado, um encontro com 400 educadores e alfabetizados avaliou as experiências, e em um ato político pela superação do analfabetismo, o Movimento apresentou os resultados da campanha ao Governador Jackson Lago, que se manteve no compromisso de superar o analfabetismo no estado. No fim de outubro, o MST apresentou, ainda ao governo do estado, um projeto que propõe em três anos alfabetizar as 5,5 mil pessoas não letradas que ainda existem nos assentamentos e acampamentos do MST no Maranhão.
Outra experiência que se destaca é a Escola Oziel Alves no Assentamento Nova Conquista, em Açailândia, que vivencia, há quase três anos, uma experiência pedagógica que tenta romper com o conceito de educação como instrumento de mercado.
Nesta escola, há oito anos, como em todas as outras do município, não existia nenhuma proposta pedagógica consistente para educar. De imediato, professores, militantes, e representantes da comunidade realizaram um diagnóstico sobre a educação no assentamento e o resultado assimilou a escola que se tinha naquele momento com “Escola que queremos”. Daí então, a comunidade e a escola vêm rompendo com o modelo educacional do sistema sustentando-se em uma pedagogia apoiada na educação como instrumento libertador.
A Escola Oziel Alves dispõe de um coletivo de educação que envolve todos os funcionários da escola, representantes de educandos e da comunidade, vindos de núcleos, igrejas e associações, e que democraticamente toma as decisões da escola.
Mas que um espaço de educar, a escola tornou se em pouco tempo um agente mobilizador da comunidade para a luta, sendo um instrumento engajado na construção do projeto da classe trabalhadora. O resultado é que o Assentamento Nova Conquista é um dos mais participativos das lutas do MST no estado.
Por conta deste modelo pedagógico, a Escola Oziel Alves é reconhecida pela Secretaria de Educação do município como a única a ter um projeto político pedagógico que trabalha a partir da realidade de seus educandos e de sua comunidade, e por isso vem servindo como referência para o desenvolvimento destas práticas pedagógicas em outras escolas da região.
Pré-assentamento do DF avança na relação com a sociedade
Por Maria Mello
Um lugar que produz comida, cultura e articulação política. O pré-assentamento Gabriela Monteiro, localizado em Brazlândia, no Distrito Federal, vem se tornando um espaço de relação política e intercâmbio de experiências entre o MST e outras entidades e grupos da sociedade civil organizada da região.
Em outubro de 2005, depois de ser oficializado como Ponto de Cultura (iniciativa governamental que pretende estimular manifestações culturais já existentes no Brasil), o local ficou conhecido e passou a sediar reuniões, seminários e cursos que envolvem entidades do campo e da cidade. “Um curso de Comunicação e Cultura realizado aqui em 2006 trouxe muita gente de fora para contribuir. O movimento negro, por exemplo, viu a possibilidade de discutir a questão do racismo de uma forma menos acadêmica, mais voltada para a nossa realidade”, relata Agostinho Reis, pré-assentado no Gabriela Monteiro.
Segundo Reis, pesquisadores, militantes do Movimento Hip-Hop, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), do Movimento Passe Livre (MPL) e do Centro de Mídia Independente do Distrito Federal, entre outras organizações, passaram a frequentar o pré-assentamento a partir do interesse em conhecer a experiência das intervenções e estudos teatrais acumulada pela Brigada de Agitação e Propaganda Semeadores - inicialmente composta quase que exclusivamente por militantes do Gabriela Monteiro e que hoje conta com integrantes de várias entidades. Há seis anos, a Brigada se dedica à atuação política por meio da intervenção estética e utiliza diversas táticas de agitação e propaganda, principalmente as teatrais.
“Além da proximidade do pré-assentamento com a cidade (o local fica a cerca de 50 minutos de Brasília), foi a experiência da Brigada que possibilitou a ampliação das relações com entidades interessadas em conhecer nosso trabalho. As pessoas chegam e perguntam como podem participar, aprender, contribuir. Isso abre um leque de parcerias para nós, desde a Universidade até na questão da massificação”, explica.
“Mesmo que de forma diferente da dos Sem Terra, nós, jovens da cidade, também enfrentamos desafios e a exclusão social e buscamos maneiras de alcançar uma sociedade mais justa e solidária, assim como o MST”, disse Sérgio de Castro, integrante do grupo de Hip Hop Atitude, ao grafitar as paredes do Centro de Formação do Gabriela Monteiro em 2005.
Atualmente, o pré-assentamento abriga 21 famílias. Em 2006, um temporal destruiu as instalações do Centro de Formação, o que resultou na diminuição das atividades. “A estrutura está sendo reformada, e esperamos poder retomar o fôlego e o potencial do nosso espaço”, conclui Reis.
Jamais individualizar a terra conquistada na luta
Por Joyce Ramos
Terra coletiva. Assim é o modo de organização da propriedade nos assentamentos de Reforma Agrária no Ceará. Essa experiência, no que diz respeito à posse e uso das terras, distingue-se das outras feitas na maioria dos estados. O processo de coletivização dos projetos de assentamentos cearense se desenvolveu ainda em meados da década de 80 e nos anos 90, organizados pelas comunidades eclesiais de base, as CEB’s, e pelos sindicatos rurais motivados pela concepção religiosa de que a terra era um bem da natureza e deveria pertencer à toda a comunidade.
Em 1989 nasce o MST no estado. As discussões feitas pelo Movimento traziam no seu bojo uma forma de posse e uso da terra tendo como pressuposto fundamental para as relações de ordem social, política, cultural e econômica, a socialização da terra. Na década de 90, com a consolidação de novos assentamentos, o MST no Ceará passou a discutir e a defender essa proposta de Reforma Agrária numa perspectiva socialista, tendo como base a socialização das relações e dos meios de produção norteados pelos princípios de cooperação e solidariedade. Ao longo do tempo, o Movimento foi organizando as formas de cooperação do uso da terra a partir de grupos de produção semi-coletivos. Esse sistema possui características intermediárias entre o modelo individual e o coletivo, sendo a posse da terra coletiva, sem loteamento e o uso da mesma de maneira tanto socializada como individual. Essa forma de cooperação teve grande desenvolvimento na década de 90 com a criação das cooperativas em alguns assentamentos do estado e também através das associações comunitárias.
O poder público estadual juntamente com a Superintendência Regional do Incra, teve, num primeiro momento, resistência quanto a essa proposta de posse e uso coletivo de terra. Mas, com o número crescente dos assentamentos e sob uma forte pressão social, acabou sendo implementado o regime misto (semi-coletivo), porém, numa perspectiva de desenvolvimento econômico, disponibilizando terras e recursos financeiros para as famílias assentadas. Por outro lado, criou instrumentos legais de racionalizar os recursos por meio dos créditos de implantação e investimentos às comunidades instaladas em agrovilas e organizadas em associações.
Nessa experiência organizativa do Ceará, o modelo funciona assim: a coletivização das áreas de Reforma Agrária se dá pela apropriação coletiva dos recursos naturais, como a água, as terras produtivas na região de baixa reserva ambiental - área permanente. Quantos aos demais aspectos possuem a seguinte organização:
A TERRA: Politicamente e juridicamente pertence a todos. Ela é gerenciada pela associação constituída pelos assentamentos, que se orienta pelo princípio da centralidade política democrática e pela organicidade. Parte da propriedade é destinada para uso comum e parte para uso individual. Ao repartir as terras em que serão trabalhadas é feito a separação da reserva ambiental.
TRABALHO: O planejamento dos trabalhos a serem executados pelo coletivo é discutido e deliberado por meio das assembléias que, normalmente, são feitas quinzenal ou mensalmente. Geralmente, os assentados e assentadas trabalham no coletivo em torno de três dias por semana, e os demais dias disponibilizam para alguma atividade individual.
PRODUÇÃO: O sistema é semi-coletivo. O planejamento da produção se dá junto à cooperativa ou associação, nos núcleos de base e também familiar, conforme as decisões coletivas. O resultado da produção e criação de animais é, por um lado, repassado para essas entidades gestoras para custear viagens, despesas administrativas, organizar eventos culturais e de lazer, consertos de máquinas e equipamentos; a outra parte é distribuída para as famílias de acordo com os dias trabalhados no coletivo definido em assembléia. Os créditos de custeios são associativos e individuais. Os investimentos fixos são coletivos e os demais mistos.
ESTRUTURA: As estruturas do assentamento, como os grandes cercados, a roça, os armazéns, estábulos, bem como a organização das casas são coletivas. A compra e a construção de qualquer estrutura são de uso comum. Com relação às escolas, postos de saúde, espaços de lazer e cultura são discutidos para que se reserve um espaço central dentro do assentamento de modo que todas as famílias possam ter acesso.
MORADIA: As moradias são organizadas em forma de agrovilas, 25 a 50 metros de distância uma da outra. O terreno individual próximo a casa serve para a criação de pequenos animais, plantio de fruteiras e hortas, chamado de quintal produtivo.
Os limites e desafios com essa experiência não diferem dos demais existentes no país. A baixa capacidade técnica, a má gestão e aplicação dos créditos - por conta da burocracia que impede ao acesso -, a difícil condição de comercialização, a pouca experiência e incentivo a agroindústria, a forte cultura e tradição do individualismo, tem sido um destes vários gargalos. Mas, apesar disso tudo, para o MST, tem sido uma luta e um aprendizado muito grande, principalmente em romper com vícios e valores individualistas e de construir uma nova consciência de fortalecimento a convivência social.
Edição
Nina Fideles
Revisão
Joana Tavares
Projeto Gráfico Diagramação
Eliel Almeida
Assinaturas
Meire Cardoso
Impressão
Taiga Gráfica e Editora
Tiragem
20 mil exemplares
Redação
Alameda Barão de Limeira, 1232 – CEP 01202-002 – São Paulo/SP – Tel/fax: (11) 3361-3866. Correio eletrônico: jst@mst.org.br. Página na internet: www.mst.org.br
Por Virgínia Fontes
A luta pela humanidade parece tornar-se crime, exatamente quando inúmeros governos mundo afora doam bilhões e trilhões de dólares aos grandes proprietários que nos conduziram a uma enorme crise econômica e social. A crise capitalista demonstra mais uma vez que a balbúrdia da reprodução ampliada do capital lança todo o planeta numa das mais profundas crises sociais já experimentadas. Em alguns pontos, alguns temas e questões complexas, com os quais temos de nos defrontar.
1. A crise econômica atual resulta da existência de mais recursos concentrados do que o capital é capaz de reproduzir, na proporção e velocidade que os capitalistas consideravam necessária. Não para assegurar a vida humana, mas para “remunerar” o capital. Em outras palavras, expressa uma acumulação gigantesca de capital – ou de exploração de trabalhadores condensada sob a forma de dinheiro nas mãos de poucos, porém altamente concentrados capitalistas – que não encontra as condições sociais para sua reprodução. É, pois, uma crise de superacumulação. A crise atual é o ponto de chegada de um longo período de expansão mundial das relações sociais capitalistas, impulsionadas pela mesma concentração que, subitamente, não mais consegue se reproduzir. É uma crise da reprodução internacional do capital.
2. Se os lucros são privados, quando sobreveem uma crise do capital, seu custo é socializado. Lembremos que já vivemos há décadas sob uma das mais dramáticas crise sociais, expressa nas na favelização mundial, na devastação ambiental, na propriedade e patenteamento da própria vida, tornada mercadoria que deve ser lucrativa. O capital mergulhou o planeta há quase três décadas na maior crise social mundial da história e, agora, em nome de “sua” crise, ainda se apropria de todos os recursos públicos, comprometendo ainda mais o futuro da humanidade.
3. O setor predominante do capitalismo – e do imperialismo contemporâneo – é o do capital que se apresenta diretamente sob a forma monetária, mas não é essa a razão para chamá-lo de “financeiro”. Ele é financeiro porque se origina de áreas e procedências distintas e condensa em si mesmo diferentes tipos de capital – industrial (voltado para a extração do mais-valor), comercial (o que assegura a realização do mais-valor) e bancário (permite a intensificação dos demais). Expressa uma fusão tensa entre todos os tipos de capitais. Essa fusão hoje em dia é muito mais intensa, profunda e extensa, abrangendo capitais oriundos de diversas partes do planeta, sob dominação estadunidense. O que significa o predomínio do capital monetário? Significa que a magnitude da concentração de capitais tende a impor, a ferro e fogo, as relações sociais necessárias para a reprodução da totalidade do capital. A concentração dos recursos sociais de produção e expropriação dos trabalhadores, inventando-se novas modalidades de intensificar a exploração, aumentando as formas tradicionais de expropriação e apropriando-se de todas as formas coletivas e/ou comunais subsistentes, que configuram novas expropriações.
4. A crise não se resume apenas do estouro de uma bolha especulativa, onde alguns maus capitalistas não quiseram explorar trabalhadores no processo produtivo e preferiram especular com títulos podres. Significa que, na escala de concentração a que se chegou na época atual, fraudes e especulações passam ser corriqueiras. No grau de fusão e de imbricação entre grandes proprietários no plano internacional, a eclosão da crise com centro no principal país capitalista mundial atinge os setores da vida social.
5. Neoliberalismo e Estado – O termo neoliberalismo, como uma fase ou etapa do imperialismo contemporâneo, embora tenha uso quase universal, suscita muitas dúvidas. Se considerarmos o neoliberalismo como um período histórico, teremos dificuldade em compreender suas modificações ao longo dos últimos anos. Se o correlacionamos a essa nova etapa internacionalizada de concentração e fusão de capitais, podemos compreender o que significou desde seus primeiros momentos e as transformações que experimentou. Ainda que se apresentasse como o inimigo declarado do Estado, sempre atuou diretamente através de “reformas” constitucionais, aproximando os setores proprietários do Estado e blindando politicamente suas áreas estratégicas. Assim, não apenas manteve como intensificou tanto as formas de convencimento quanto a coerção estatal, voltada, sobretudo para os setores populares. O Estado passou a assegurar quase de forma direta a dinâmica da reprodução do capital monetário mega-concentrado, por meio das “parcerias” (PPPs), da legitimação de formas de trabalho não contratuais entre grandes empresas e trabalhadores sem direitos; da blindagem dos setores chave (autonomização dos Bancos Centrais), da manipulação das dívidas públicas. A atual intervenção dos Estados junto aos bancos vem apoiando exatamente os setores mais concentrados do capital, que realizavam seus negócios através dessas entidades financeiras.
6. E a especulação, qual o seu papel? Sempre que há um aumento extraordinário da concentração de capitais, tende a ocorrer o crescimento simultâneo do capital fictício, do capital fraudulento e especulativo, que retoma inclusive traços usurários. Esse capital fictício, integrante íntimo do capital monetário, não é, entretanto, fictício do ponto de vista social, pois impõe a expansão de relações sociais capitalistas e se imbrica com as demais formas de capital. A crise atual, iniciada na expansão do crédito imobiliário rapidamente demonstra a interconexão entre os diferentes tipos de capital, desde as instituições financeiras aos grandes bancos e às grandes – e pequenas – empresas capitalistas.
7. As propostas atuais da retomada de uma expansão capitalista lastreada no capital produtivo esquecem que o capital monetário (e, com ele, o capital fictício) resultam da expansão da produção de mais-valor em escala crescente. Não podemos esquecer, ademais, que as medidas tomadas pelos diferentes governos, até agora, em nada alteraram o processo de concentração de capitais e mesmo, ao contrário, a estimulam, tanto pela doação de recursos públicos aos maiores concentradores, como pela facilidade que oferecem ao clássico procedimento de predação capitalista, onde os maiores aproveitam-se das circunstâncias da crise para devorar os menores.
Nossa luta é contra todo o capital, contra a sociabilidade da violência, da desconfiança, do fetichismo e da exploração que o capital reproduz para se alimentar.
Por Vinicius Mansur
Entre os dias 27 de janeiro e 1° de fevereiro, o Brasil sediou mais um Fórum Social Mundial. A 9° edição do evento aconteceu em Belém (PA), e, de acordo com os organizadores, reuniu mais de 150 mil pessoas na capital. Entre elas, estavam cerca de 1,6 mil militantes dos movimentos que compõe a Via Campesina, todos concentrados no Núcleo Pedagógico Integrado (NPI). A militância, em sua maioria, veio do próprio Pará e dos estados mais próximos. A delegação internacional contava com 20 delegados.
De acordo com coordenador nacional do MST, Egídio Brunetto, em outras edições do Fórum, a Via Campesina deslocava muito mais gente para participar. Mas, a percepção de que a atividade vem abrindo mão de realizar grandes mobilizações de massa, fez com que a Via Campesina optasse por não colocar muita energia nesta edição.
Atividades
Entre as muitas discussões realizadas pelos movimentos camponeses, predominou o debate sobre o projeto do capital para a agricultura contra o projeto popular. Mas a relação da teologia da libertação com os movimentos sociais também ganhou destaque com a mesa que reuniu os teólogos Berger Furer, da Noruega, Frei Betto, do Brasil e Fernando Lugo, presidente do Paraguai.
O NPI também foi espaço de comemoração e homenagens. Durante a noite do dia 30, a Via Campesina brindou os seis anos do jornal Brasil de Fato com um ato político. Já na noite seguinte, foi a vez da militância homenagear os 50 anos da revolução cubana, em um ato que contou com a presença da médica e filha de Ernesto Che Guevara, Aleida Guevara.
O momento de encaminhar a luta política foi a Assembléia dos Movimentos Sociais. A plenária reuniu os movimentos de todo o mundo e definiu uma agenda para 2009.
O ponto forte da Via Campesina no Fórum Social Mundial foi a construção de um encontro entre os presidentes e os movimentos sociais latino-americanos que estão impulsionando a Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). O ginásio da Universidade Estadual do Pará (UEPA) ficou apertado para as mais de 1,5 mil pessoas que assistiram, inicialmente, as falas de Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), Magdalena Leon, da Rede Latino-americana de Mulheres transformando a Economia (Remte), Camille Chalmers, do Jubileu Sul e Pablo Michelli, Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA).
Depois falaram os presidentes do Equador, Rafael Correa, do Paraguai, Fernando Lugo, da Bolívia, Evo Morales e da Venezuela, Hugo Chávez. O dirigente do MST, João Pedro Stédile, encerrou o ato destacando a identidade existente entre os presentes e as propostas citadas durante o debate para o fortalecimento da Alba.
Segundo João Pedro, os setores que impulsionam a Alba precisam de um programa mínimo para enfrentar a crise econômica mundial. O primeiro ponto seria a recuperação da soberania dos povos sobre recursos naturais, como o petróleo e a energia. Ele disse também que “não devemos ter medo de começar a falar na nacionalização dos bancos” como forma do Estado controlar o capital financeiro e o fluxo de dinheiro para o exterior. A terceira medida seria a criação de uma moeda regional, capaz de reduzir a importância do dólar na região. Ao final, ele ainda pontuou a necessidade de se democratizar os meios de comunicação e avançar nos processos concretos de construção da Alba.
Balanço do Fórum
Praticamente todas as organizações que lutam por justiça social consideram o Fórum Social Mundial um importante espaço de articulação. Porém, os movimentos que compõe a Via Campesina acham que o Fórum Social Mundial precisa rever sua organização para promover novos avanços nas lutas sociais.
A integrante da União Nacional dos Camponeses de Moçambique (Unaic), Sheila Mandlhate, ressaltou que o Fórum é um belo espaço para, por exemplo, aumentar o contato de intelectuais e movimentos populares. Porém, ela criticou a metodologia do encontro, que provoca a dispersão da maior parte das pessoas que participam do evento.
Claude Girod , dirigente da Confederação de Camponeses da França, também elogiou a troca de experiências que o Fórum propicia, mas pontuou uma limitação. “Pessoas pobres não participam do Fórum. Se você sair daqui de dentro do NPI, onde está a Via Campesina, veremos só a classe média. Precisamos atrair estas pessoas”, concluiu.
Já a integrante da Associação Nacional de Pequenos Agricultores de Cuba, Maria del Carmen, lembrou que o atual quadro político na América Latina, aonde muitas lutas populares ganharam fôlego frente às ofensivas neoliberais e aonde muitos presidentes progressistas assumiram o poder, se deve muito a realização dos Fóruns Sociais. Entretanto, ela considera que a organização e a política dos fóruns não estão acompanhando essas transformações no ritmo devido. “O Fórum tem uma limitação em sua carta de fundação, que impede encaminhamentos. Afinal, para que estamos aqui? Se temos um mundo que está nos matando e queremos outro, o que faremos para concretizá-lo?”, indagou.
Na mesma linha, Egídio Brunetto, do MST, considerou um desperdício político reunir tanta gente e não colocá-las em marcha. “Com uma crise dessa, com a agressão que está acontecendo na Palestina, que é um genocídio cometido por Israel, com a invasão que continua no Iraque e no Afeganistão, com a situação do Haiti, do povo colombiano e o Fórum não consegue fazer nenhum tipo de protesto, não consegue fazer uma agenda? Então é um Fórum que, do ponto de vista da estratégia e da mudança de correlação forças, não contribui”, declarou.
AGENDA
Jornada mundial contra a crise e a guerra - de 28 de março a 04 de abril, sendo que aqui nas Américas centraríamos força na data de 30 de março.
8 de março - Dia internacional das mulheres trabalhadoras
17 de abril - Dia internacional da luta camponesa
1° de maio - Dia mundial do trabalhador
12 de outubro - Dia mundial da defesa da vida, da biodiversidade e dos povos originários.
Por Joana Tavares e Nina Fideles
Voltar ao lugar onde tudo começou. Esta é a mística que ronda o assentamento Nova Sarandi. Ficar imaginando os trabalhadores e trabalhadoras arrebentando a porteira que os impedia de pisar naquela terra que hoje produz e tem vida. Uma terça-feira, noite de lua cheia. Assim Isaías Vedovatto, assentado no assentamento, descreve aquele dia. “Lembro do zunido dos cinco fios de arame sendo cortados, como se fosse o início de uma música”, conta em seu poema sobre a ocupação.
Desde aquela noite, até a semana que ocorreu o Encontro Nacional do MST, 25 anos se passaram. Crianças nasceram, pessoas se foram. Pais, netos, bisnetas...
Todo o processo de luta naquela região teve seu estopim na conhecida Encruzilhada Natalino, mas não começou ali. Já em 1962, época do então governador Leonel Brizola, parte da conhecida Fazenda Sarandi foi desapropriada para o assentamento de algumas famílias da região, organizadas pelo MASTER – Movimento dos agricultores Sem Terras – no acampamento Cascavel. Parte destas terras foi destinada ao assentamento de algumas famílias, e o restante do complexo foi distribuído em médias e grandes propriedades.
Havia ainda um conflito permanente nas áreas indígenas da região. Agricultores que foram expulsos dos territórios indígenas começaram um movimento em busca de terra e realizaram as ocupações da Macali e Brilhante. “Os governos estadual e federal abriam projetos de colonização no norte do país. Mas nesse período tinha a CPT e outras organizações apoiando o povo e nem todos foram pro Norte. Em torno de umas 500 famílias foram se organizando e em setembro de 79 um grupo ocupou a fazenda Macali, e outro grupo ocupou a fazenda Brilhante”, lembra Salete Campigotto, hoje assentada em Sarandi.
Encruzilhada Natalino
Para Isaías é importante entender o diferencial que existe entre “até o Natalino” e o depois do Natalino. No entroncamento entre as cidades de Ronda Alta e Sarandi, um conjunto de famílias que ainda não havia sido assentada começou a se agregar. Contam que era noite de Natal, e um dos primeiros acampados carregava o simbólico nome de Natalino.
“E foram se juntando pessoas, de vários municípios da região. Muita gente que trabalhava como agregados, outros de famílias pobres, que não tinham como acomodar todo mundo em casa”, lembra Salete. “Ficamos ali e o acampamento começou a inchar, gerar mais pressão. O curioso é que a Encruzilhada ocorreu na época da ditadura militar”, complementa Antoninho Campigotto.
Não foi à toa que o então presidente, o militar João Batista Figueiredo, enviou para a região um de seus quadros de maior confiança, para desmantelar o acampamento. O coronel Curió era conhecido – e temido – por seu histórico de repressão e violência contra a organização popular. Havia sido responsável pela desmobilização de Serra Pelada e pela dissolução da Guerrilha do Araguaia. Em 1981, armou acampamento com todo seu aparato na região.
“A intervenção durou até 10 de março de 82. A pressão foi aumentando a cada dia que passava. Chegou ao ponto de secarem o açude onde a gente lavava roupa, e levaram os cavalos para a fonte onde a gente tomava água”, aponta Salete. O coronel fechou as duas extremidades da estrada, impedindo as pessoas de circularem. Foguetes eram estourados à noite, caminhões do exército circulavam, enchendo de poeira os barracos e as pessoas.
A solidariedade fortaleceu a resistência. Além do apoio de assentados da região, padres, pastores, sindicatos e trabalhadores que apoiavam a Reforma Agrária – como um verdureiro que tinha um comércio na região e não deixou de atender as famílias – os sem terra organizaram um boletim de divulgação das lutas, que depois deu origem ao Jornal Sem Terra.
Algumas famílias caíram no conto do coronel, e foram para o Mato Grosso do Sul, com a promessa de terra para produzir e trabalhar. Mas a maioria, apesar das condições difíceis, permaneceu. E hoje está marcado em uma placa, bem ali na Encruzilhada Natalino: “derrota do Curió e vitória da luta pela terra”.
Novas ocupações
“A formação que tivemos no acampamento foi ajudando para que a gente não enxergasse só luta pelo nosso pedaço de terra. Tínhamos que nos manter firmes porque tinha gente de olho para o que ia acontecer conosco depois...”, conta Salete. E assim uma parte das famílias se mudou para Ronda Alta, e em 1983 conseguiram um assentamento na região.
Mas ainda havia um grande número de famílias dispostas a lutar por seu direito à terra. Em 29 de outubro de 1985, a Fazenda Anonni, parte do complexo Sarandi, era ocupada por mais de oito mil pessoas. Era mais do que a população da cidade de Sarandi. “As pessoas que entravam ali naquela área já tinham a compreensão de que ocupação é a única solução”, explica Isaías, retomando o lema do I Congresso, realizado em 1984, em Cascavel, no Paraná, e que deu origem formalmente ao MST.
“Eu morava no interior de Ronda Alta, filho de pequeno agricultor, pai falecido, três irmãos. E quando saiu a organização para a ocupação, a gente entrou na nossa comunidade, e viemos para a fazenda Anonni”, lembra José Antonio Sé, um dos tantos que declara ter sua vida transformada depois de participar da organização coletiva. “O MST foi uma reviravolta na minha vida. Antes era aquele trabalho braçal, um trabalho direto, ano inteiro, dia inteiro, não tinha folga. E nunca na vida eu ia conseguir 20 hectares, acho que nem 1 hectare, sozinho”.
Do Encontro Nacional aos 25 anos
Hoje, nestes 9,2 mil hectares da fazenda vivem 450 famílias. Todas fruto do processo de ocupação da Anonni há 25 anos. O restante das pessoas foram assentadas em outras regiões e muitas delas fora do estado gaúcho.
“Antes isso aqui tinha 800 e poucas cabeças de gado nos 9,2 mil hectares, e o tradicional capim Anonni, que hoje é uma praga pra nós. Aqui temos a prova que nossa prioridade é produzir, em cima dessa área que era improdutiva, e alimentar as pessoas”, afirma Jorge José dos Santos, que também participou da ocupação.
Hoje, na região da antiga fazenda Anonni são 7 comunidades. Todas elas possuem seu ginásio de esporte. Todas as crianças freqüentam uma das três escolas que existe por ali. Uma é estadual e vai até a 8ª série, e duas municipais. O assentamento abriga ainda uma escola técnica, o Instituto Educar, que forma técnicos em agroecologia.
Na ocasião do 13º Encontro Nacional do MST, todas as famílias assentadas se envolveram no processo. Na parte da limpeza, produção de materiais, cozinha, infra, acolhendo as pessoas. Para Cedenir de Oliveira, as coordenação nacional do MST, “todas estas pessoas têm uma pertença e uma identificação muito grande com a organização. E é esta a reflexão que o Movimento tem que fazer: de que forma contribuir para a participação política do assentado, e como envolvê-lo”, diz.
Segundo Cedenir, o Encontro vai para o Assentamento Novo Sarandi por dois motivos principais. O primeiro é pelo aspecto histórico, no sentido do que a ocupação da fazenda Anonni representou para o surgimento e consolidação do Movimento. E também para reafirmar para toda a sociedade de que a Reforma Agrária dá certo. “Retornar a este local é valorizar o que ocorreu nesta data. Para as famílias da Anonni que recebem este encontro é muito importante resgatar a mística de que aquele esforço que foi construído não foi em vão. Com todas as contradições que possam existir neste processo, nós temos que nos orgulhar deste assentamento que é fruto de nossa luta”, conclui.
O XIII Encontro Nacional, realizado em Sarandi (RS), entre os dias 20 e 24 de janeiro, em comemoração ao 25º aniversário do MST, promoveu o reencontro da militância com um dos berços da nossa organização. A história era relembrada à todo momento. A nova geração de militantes conheceu a geração que no final dos anos 70 ousou enfrentar o governo da ditadura militar para fazer o acampamento da Encruzilhada Natalino. Essa nova geração rendeu homenagens àqueles lutadores e lutadoras. E estes e estas souberam reconhecer que os que vieram depois deles mantiveram empunhada a bandeira da Reforma Agrária nesses 25 anos. Todos juntos. Os sonhos e as lutas uniam aquelas diferentes gerações.
Até a Brigada Militar fez questão de reproduzir o clima vivenciado pelo acampamento cercando pelo coronel Curió nos 70. A polícia militar da governadora tucana, Yeda Crusius, cercou o assentamento e exigia a identificação de todos que entrassem no local do Encontro. O que inclusive já havia acontecido na realização do Encontro Estadual em 2007 no mesmo assentamento.
Nem mesmo o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, e os governadores Roberto Requião (PR) e Jackson Lago (MA) conseguiram fugir desse constrangimento e foram obrigados a se identificar. Mais de 60 convidados de inúmeros países presenciaram, diariamente, a truculência daquela polícia.
Mas o Encontro não serviu apenas para promover a confraternização das diferentes gerações do nosso Movimento. E muito menos para atestar a truculência, já conhecida, da Brigada Militar. Foi um Encontro de muito estudo e debates sobre os desafios que temos pela frente. O 25º aniversário não é um ponto de chegada. É apenas um momento importante da nossa história, onde as conquistas e as derrotas da nossa luta nos impulsionam para novos desafios. O nosso ponto de chegada é a Reforma Agrária e um país socialmente justo e igualitário, socialista.
Por isso dedicamos tempo para estudar e entender essa crise que se abate sobre todas as economias capitalistas do planeta. Os capitalistas, frente à crise, se preocupam unicamente em se apropriar dos recursos públicos, contando sempre com a conivência dos governos submissos ao capital, e de repassar os custos da dívida à classe trabalhadora. E para avançar no diagnóstico, nos esforçamos para entender em que estágio está a luta de classes em nosso país e quais são os desafios atuais da classe trabalhadora. Este estudo se restringiu a evidenciar o quanto é complexo o momento político que vivemos. Mas, estávamos ansiosos para buscar elementos que pudessem nos ajudar a qualificar nossa organização e lutas. Queremos dar um salto de qualidade e avançar em direção ao nosso ponto de chegada.
Procuramos compreender melhor o modelo agrícola da elite brasileira - o agronegócio - voltado unicamente para atender as exigências do mercado internacional. Duas décadas de neoliberalismo expulsou a população do campo e destinou as melhores terras para gigantescas áreas de monocultivos de cana de açúcar, eucalipto e soja e entregou a agricultura para o controle das transnacionais. Sem mencionar a depredação ambiental promovida pela roubalheira dos nossos minérios.
A soberania política de um país está alicerçada na soberania alimentar do seu povo. Somente a Reforma Agrária e a agricultura camponesa podem assegurar essas conquistas ao povo brasileiro.
Por fim, olhamos para nossa própria organização. Os nossos êxitos nesses 25 anos se devem, também, à nossa capacidade de analisar e enfrentar nossas próprias deficiências. A Reforma Agrária está hoje num estágio diferenciado ao de 25 anos atrás. Não enfrentamos mais apenas o latifundiário atrasado e monopolizador de grandes extensões de terras mantidas improdutivas. Hoje, enfrentamos o agronegócio, formado pelos grandes proprietários rurais capitalizados, as transnacionais e os bancos. Somente com uma organização mais forte, com capacidade e criatividade de promover lutas massivas e concretizando alianças com outras organizações da classe trabalhadora, do campo e da cidade, poderemos conquistar a Reforma Agrária em nosso país.
Cabe agora, reabastecidos de entusiasmo e coragem pelas comemorações do 25º aniversário, enfrentar esses desafios atuais. Queremos que as próximas comemorações não sejam apenas para relembrar as do passado e sim para celebrar a Reforma Agrária e as conquistas da classe trabalhadora