Por uma alternativa agroecológica para o campo
Trabalhar a terra com respeito, sem o uso de agrotóxicos, preservando a natureza para as futuras gerações. Este é um dos princípios da produção agroecológica, uma alternativa concreta e viável ao modelo do agronegócio, que destrói o meio-ambiente e gera pobreza e violência para o campo.
Atualmente existem várias iniciativas em todo o país que comprovam a eficiência deste sistema da produção. No Paraná, as 20 famílias do assentamento Santa Maria consolidaram a produção de cana-de-açucar, onde produzem de 12 a 15 toneladas de açúcar mascavo por mês. A produção atende, além do comércio local, estados como RJ, MS e SP.
No Piauí, no assentamento Marrecas, região do semi-árido, um grupo de 30 famílias trabalham coletivamente, as culturas de uva, banana e goiaba. A primeira colheita, resultou em mais de 2 mil quilos de uva. São destes exemplos concretos que vêm a força do debate político sobre a produção agroecológica, que respeita a diversidade cultural e biológica das diferentes regiões do Brasil. Esta é a proposta do MST para o campo brasileiro.
Veja a cobertura dos eventos que aconteceram no país em junho, no Paraná e em Pernambuco, que significaram mais um passo na consolidação da agroecologia como um novo sistema de produção para o campo brasileiro.
No Sul e no Nordeste do país, atividades valorizam novo projeto
O mês de junho foi marcado por duas atividades que discutiram e mostraram as iniciativas concretas na produção agroecológica no Brasil. De 7 a 10 de junho, em Cascavel, no PR, aconteceu a 5ª Jornada de Agroecologia, com a participação de cerca de 5 mil pessoas. Já de 2 a 6 de junho, em Recife, PE, mais de 1.500 pessoas estiveram presentes no II Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).
Promover a substituição da matriz de produção convencional em produção agroecológica, para preservar a biodiversidade e garantir a soberania alimentar foi a principal tese reafirmada pelas 18 organizações que compõem a 5ª Jornada de Agroecologia.
Para o integrante da coordenação nacional do MST Roberto Baggio, o grande diferencial deste ano foram as oficinas, que apresentaram as experiências práticas de agroecologia no Paraná.
Na opinião do coordenador do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Carlos Telles o balanço dessa Jornada foi muito positivo, pela grande participação dos camponeses, pelos debates e principalmente pelo intercâmbio. “Com a distribuição de sementes e a troca de experiência, os agricultores tem agora duas grandes ferramentas para seguir na implantação da agroecologia no cotidiano das comunidades”, argumenta.
O encerramento da Jornada, que aconteceu em 10 de junho foi marcado por uma marcha que saiu da entrada da cidade de Santa Teresa do Oeste (PR) até a área da transnacional suíça Syngenta Seeds, ocupada pela Via Campesina desde 14 de março. A empresa foi denunciada por praticar crime contra a Lei de Biossegurança, fazendo pesquisa e plantio de soja e milho transgênico a seis quilômetros do Parque Nacional do Iguaçu.
No Recife, articulação ganha força
“Um número cada vez mais significativo de trabalhadores e trabalhadoras e suas organizações em todo o país têm compreendido e incorporado o entendimento de que a agroecologia só terá capacidade política de transformação se for efetivamente desenvolvida através de práticas concretas que garantam o atendimento de suas necessidades e do conjunto da sociedade. Ao mesmo tempo em que são experimentadas e disseminadas localmente, as práticas inovadoras do campo agroecológico constituem já embriões do novo modelo que está em construção e que inspira a formulação de um projeto coletivo de âmbito nacional”. É o que defende a carta política divulgada no final do II Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).
O II ENA foi organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), e reuniu cerca de 2 mil participantes, entre agricultores e agricultoras familiares, extrativistas, indígenas, quebradeiras de coco, quilombolas, pescadores artesanais, professores e técnicos. O evento colocou em pauta a troca de experiências, a construção de estratégias comuns para o fortalecimento da agroecologia e, principalmente, a discussão de estratégias para o enfrentamento ao agronegócio.
De acordo com a ANA, existem hoje no Brasil, mais de mil atividades agroecológicas. “Meu filho mais novo tem apenas 8 anos e já tem consciência das práticas corretas da agroecologia. Nós temos que ser escola e mostrar para a sociedade que existe meios de continuar a agricultura sem destruir o meio ambiente”, afirmou o agricultor Cristovino Ferreira Neto, de Montes Claros, MG.
O teólogo Leonardo Boff, que por motivos de saúde não pôde estar no evento, gravou seu depoimento, que emocionou à todos e todas. “Vocês, reunidos nesse encontro, resistem aos malefícios causados ao meio ambiente, pelo agronegócio. Quando conhecemos e produzimos nossos alimentos em sintonia com a natureza, não a prejudicamos”, ressaltou.
O documento final do encontro defende que a comercialização de produtos agroecológicos necessita da implementação de políticas públicas que garantam a estabilidade e segurança nas relações que organizações de produtores estabelecem com mercados. “O Programa de Aquisição de Alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) tem exercido um papel importante nesse sentido e por isso defendemos sua continuidade e ampliação”, diz a carta, que será entregue aos representantes dos poderes municipal, estadual e federal e servirá como um instrumento para pautar o debate político.
Movimentos sociais do campo precisam se aliar em torno da agroecologia
Leia abaixo entrevista com o pesquisador Paulo Petersen, representante da Assessoria a Serviços e Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA) e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA):
Jornal Sem Terra - Qual a importância de tornar a discussão sobre o sistema de produção agroecológico um debate político?
Paulo Petersen – A agroecologia vem fazendo o seu caminho na sociedade brasileira na contracorrente do modelo hegemônico de desenvolvimento rural, o do agronegócio. Esse modelo só se sustenta política e economicamente porque o Estado atua em seu benefício, atendendo a interesses de elites agrárias e do capital agroindustrial e financeiro. A afirmação da agroecologia como novo enfoque para a ocupação e o uso da terra é uma opção que deve estar no centro das estratégias dos movimentos sociais do campo. Nessas estratégias, é preciso não apenas denunciar os efeitos perversos do agronegócio, mas também dar visibilidade às experiências bem sucedidas em agroecologia e seus benefícios para o conjunto da sociedade.
JST – Por que o Estado não investe na agroecologia de forma concreta para que ela seja uma alternativa ao modelo do agronegócio?
PP – É preciso reconhecer que o atual governo federal foi o primeiro que abriu linhas de apoio específico à agroecologia. Embora os recursos sejam ainda muito reduzidos e mal aplicados, já representam uma evolução positiva. No entanto, as políticas estatais para o campo permanecem em sua essência orientadas para atender aos interesses do agronegócio. Eles estão presentes no Congresso Nacional e nos aparelhos estatais, militando em defesa de seus interesses privados. O recente perdão das dívidas dos ruralistas é um exemplo da força política que esse grupo tem sobre o Estado. Perdões semelhantes vêm se repetindo ao longo da história, deixando claro a inviabilidade econômica do agronegócio.
JST – Quais os benefícios que a produção agroecológica traz para o Brasil de maneira geral?
PP – A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) defende um padrão de ocupação do campo baseado na produção familiar. É esse tipo de produção que mais gera empregos, dinamiza economias regionais e aumenta a segurança alimentar das famílias e a soberania alimentar do país. Quando a produção familiar é realizada com base nos princípios da agroecologia, seus benefícios são potencializados. Os sistemas agroecológicos não são dependentes das indústrias de insumos. Com isso a renda gerada pela produção fica retida nas comunidades e municípios, a economia se diversifica e mais e melhores postos de trabalho são criados. São sistemas baseados em processos naturais e por isso são conservadores do meio ambiente e da biodiversidade. Tanto as famílias de produtores rurais quanto a sociedade brasileira só tem a ganhar com a agroecologia.
JST - Tendo em vista as dificuldades que existem para a produção agroecológica hoje no Brasil, como você avalia isso em termos de experiências concretas?
PP - Iniciativas de promoção da agroecologia estão presentes em todas regiões do país. São experiências promovidas por movimentos sociais e organizações da agricultura familiar assessoradas principalmente por ONGs, mas também por algumas poucas instituições oficiais de extensão rural que já começam a assumir a agroecologia. As iniciativas demonstram, na prática, o potencial da produção familiar agroecológica como como alternativa viável ao agronegócio. É a partir dessas experiências descentralizadas que vem sendo construída a força política do movimento agroecológico.
Um cientista do povo
O agricultor Cedeni Luiz Biff, conhecido como Nicão, não se deu conta, mas foi um dos símbolos da 5ª Jornada de Agroecologia, que aconteceu no Paraná. Nicão conserva com ele 95 variedades de sementes, 20 delas somente de feijão, resultado do trabalho e das combinações promovidas pelo agricultor, talvez o melhor exemplo de um “cientista do povo”, como se comentava no evento.
Nicão conta que conseguiu as primeiras sementes ainda na 1ª Jornada de Agroecologia e logo desenvolveu outras para compartilhar com os companheiros. “É um gosto, um esporte, uma paixão. Tenho até dó de comê-las. Gosto de produzir e distribuí-las para não perder as espécies”, afirma o agricultor, que mora no assentamento Sétimo Garibaldi, em Terra Rica, região noroeste do estado. O assentado também produz adubo verde, feijão de várias variedades, fava, milho, alho, cebolas, verduras e sementes de árvores, como o pau brasil.
Como conseguir sementes agroecológicas:
A BioNatur é uma marca nacional de comercialização e produção de sementes agroecológicas de hortaliças. Mais do que isso, a Bionatur é uma mostra de que um novo modelo tecnológico de produção é possível. Este é um projeto estratégico para o MST e para inúmeras organizações de pequenos agricultores, pois trabalha o resgate e a ampliação da biodiversidade com o sentido de garantir as sementes como patrimônio da humanidade.
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