Veja como adquirir a coleção de gravuras de Gershon Knispel

Número: 
30
Jun/Jul
2009

Ao longo destes 25 anos de existência, o MST sempre contou com a solidariedade de milhares de homens e mulheres que acreditam na luta pela Reforma Agrária e pela transformação social.

Há alguns anos, o artista plástico Gershon Knispel se propôs a fazer uma coleção de gravuras, mesclando a saga da luta dos povos, desenhos de Oscar Niemeyer e a luta pela Reforma Agrária. Simbolicamente, em nosso aniversário, nos presenteou com uma série de 20 gravuras como parte de sua contribuição ao MST.

A partir deste gesto tão grandioso, estamos desenvolvendo uma Campanha de Solidariedade ao MST, que tem como objetivo angariar fundos para nossa organização, com a venda de uma coleção com 10 reproduções dessas gravuras.

Contamos mais uma vez com o apoio e solidariedade de todos os amigos, amigas do MST e admiradores de belas obras de arte, em mais esta campanha que certamente nos ajudará a seguir realizando nossas atividades em várias frentes, especialmente nos campos da educação, formação e cultura.

O AUTOR

Gershon Knispel, radicado no Brasil, nasceu em Koln, na Alemanha, em 1932. Aos três anos de idade foi com os pais para a Palestina, fugindo do nazismo. É artista plástico, comunista e militante da luta contra a ocupação da Palestina pelo exército de Israel. Já expôs suas obras em importantes museus da Rússia, Alemanha, Israel, Brasil e outros países. Recebeu prêmios na Alemanha e em Cuba. Gershon Knispel também é articulista da revista Caros Amigos.

Para saber como adquirir a coleção, entre em contato conosco por meio do endereço eletrônico oscamaradas@mst.org.br, ou pelo telefone (11) 2131-0800.

Gravuras:

Arte para “não deixar esquecer”

Do Brasil de Fato

Em comemoração aos 25 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o artista plástico Gershon Knispel criou 15 séries de quadros intituladas "Os Camaradas". Compostas por 24 obras de 1,20m de altura por 1,80m de largura cada, as séries retratam tragédias e lutas populares ao longo da história, como o massacre dos beduínos, o Holocausto, a ditadura militar no Chile e a questão do desemprego, entre outros acontecimentos. As obras, que também têm assinatura do arquiteto Oscar Niemeyer, devem ser expostas nas galerias de arte mais famosas de todo o mundo. Em entrevista ao Brasil de Fato, o artista plástico, de origem judaica, fala sobre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, a inspiração para as séries, a importância do MST e o papel da arte para reformar o mundo.

Qual sua relação política com os palestinos e com o governo de Israel?

Como cidadão de Israel, uso meus esforços para fazer de tudo para mudar a situação injusta dos cidadãos árabes no país, que são diferentes dos palestinos, mas também estão enfrentando situações bem chatas. Por exemplo, quando houve um massacre em 1976 no qual foram mortas seis crianças – duas eram minhas alunas –, um companheiro e eu decidimos fazer um monumento que se chama "Dia da Terra". Esse massacre aconteceu em 30 de março e, desde essa data, são feitas celebrações que se chamam "Dia da Terra", com milhares e milhares de árabes. Depois, foi feita uma grande exposição dedicada a esse monumento. São exemplos de como trabalhamos junto de palestinos e árabes. Nós fizemos isso como dois artistas plásticos que representam dois povos e acreditamos que o povo palestino também merece o seu Estado, ao lado do Estado de Israel. Em 1980, eu encabeçava a União dos Artistas Plásticos em Israel e três artistas plásticos palestinos me falaram que as autoridades militares na Cisjordânia ocupada não deixavam eles fazerem exposições. Daí decidimos que eles fariam essas exposições em nossas galerias em Tel Aviv e Jerusalém. E foi realmente um ato muito forte, como um grande protesto, que virou uma coisa simbólica. Depois disso, começamos, 15 artistas plásticos, pintores, poetas de Israel, junto com 15 dos mais importantes artistas plásticos e expositores palestinos, a fazer encontros, a cada duas semanas, uma vez em Tel Aviv, outra em Jerusalém oriental, para fazer um documento que fincasse a base da paz entre os dois povos. Esse documento está comigo, nós o assinamos em 1988, e ele foi a base do acordo que depois foi levado a Oslo e também foi assinado em Camp David.

O que é ser um artista hoje? E, sobretudo, o que é ser um artista assumidamente engajado?

Você fala em artista engajado, mas eu não posso me dividir. Desde os meus estudos na Academia de Artes em Jerusalém, entre 1949 e 1954, eu realizava a grande idéia do meu famoso professor Ardon Mordechai. Tinha relações muito especiais com ele e ele sempre me pediu para pintar e desenhar tudo que eu estivesse vendo em torno de mim. Ardon falava, "veja as pessoas nas ruas, veja a diferença das classes, veja os diferentes grupos étnicos, uma parte tem vida melhor, outra parte tem vida pior". Isso me acompanha até hoje. Ele sempre queria ver os resultados. Daí até ser um pintor engajado é uma coisa natural, porque você está aberto a qualquer acontecimento social em torno de você. É evidente que, nessas últimas décadas, museus em grandes capitais, como Nova York, Paris e, ultimamente, também Berlim, estão fazendo de tudo para esquecer todos esses grandes artistas plásticos engajados que realizaram obras sobre esse mundo injusto que a gente está encontrando. Eles preferiam dar força para esses pintores formalistas, conceptualistas, artistas do vídeo ou até mesmo minimalistas. Hoje, por exemplo, a gente fala de Diego Rivera como o marido da Frida Khalo, por exemplo. E a Frida Khalo fica como a grande estrela, e o Diego completamente esquecido.

Por que esse esforço das galerias para esconder esse tipo de obra?

Porque eles têm medo dessas pinturas. Lembram que Diego Rivera fez um grande afresco no Centro Rockfeller dedicado a Lênin, Marx e eles tiraram isso. Eles têm medo das coisas que atingem também a massa. Queriam que as coisas ficassem fechadas nos museus, para as camadas sociais mais ricas. E os outros vão ser esquecidos.

O que você acha mais importante, enquanto mensagem, para todos aqueles (especialmente os jovens) que se dedicam às artes plásticas?

Lembre a fala do Niemeyer que aparece em cada gravura, dedicada a acontecimentos mundiais: "O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar". Quer dizer que, seguindo essa idéia de Oscar, eu acho que a gente vai achar o mundo inteiro. Por exemplo, Goya fez essa pintura enorme, "O Massacre", que vai viver para a eternidade. Picasso fez "Guernica", que foi a sua mais importante pintura. Nós já tínhamos condições de esquecer completamente esse massacre dos alemães que ajudaram Franco a bombardear essa aldeia basca, da Espanha. Só que a pintura de Picasso levou esse evento a uma altura que ninguém vai mais esquecer, esse período da Guerra Civil. Eu acho que essas são coisas às quais devemos nos dedicar. Não sei se alguém vai chegar à altura do Picasso, mas tentar fazer coisas que mudem o seu mundo, em qualquer lugar onde a gente esteja. Eu quero dar a idéia a cada um de nossos jovens que não esqueça de apontar o lápis, pegar o pincel e a tinta e pintar, desenhar tudo que encontrar. Aí você vai pegar o caminho certo.

Você fez essa série de trabalhos com o título geral de "Os camaradas" para o MST. Nela aparecem os mais diversos assuntos,cartaz_knispel_1 como o massacre dos beduínos, massacre dos palestinos, o Holocausto, o desemprego, a ocupação da USP etc. Qual o motivo dessa escolha de subtemas?

Oscar fala em modificar esse mundo injusto. Essa foi a fala dele e eu utilizei isso e os desenhos dele que estavam na parede do seu escritório na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Utilizei tudo isso nessas gravuras, junto com ele. Então, para modificar esse mundo injusto, é preciso saber, realmente, que mundo a gente quer modificar. Por isso nós escolhemos eventos que foram significativos, como massacres e coisas terríveis que quebram todos os direitos humanos. Então peguei a entrega da Olga Benário pelo Getúlio nas mãos da Gestapo, toda essa Segunda Guerra que foi terrível, o Holocausto de um lado, a defesa formidável dos soviéticos em Stalingrado, que foram os únicos que conseguiram parar os nazistas de continuar a guerra deles.

Do seu ponto de vista, qual a importância do MST hoje? E o fato de estar completando 25 anos?

Cheguei ao Brasil pela primeira vez em 1958 e tive sorte, porque vim justamente quando Fidel e Che Guevara entraram em Havana. E nós achamos que, enfim, chegava o momento no qual o sonho da América Latina iria se realizar. E que as reformas agrárias – que começaram no início do século com líderes famosos no México, como Zapata e Pancho Villa – iriam se espalhar em todos os países da região. Nós nunca entendemos essa pobreza pela qual passa o povo brasileiro. Daí começamos a trabalhar dentro do Centro Popular de Cultura (CPC), com todos os meios de expressão que a gente tinha, mas chegou o golpe de 1964, quando Oscar e eu fugimos. Por isso, eu acho que nesses 25 anos de atividade do MST, ele virou o principal movimento e o mais importante do Brasil. Precisamos cuidar dele com todos os meios que temos para que ele consiga realizar todo o sonho que tínhamos da reforma agrária.

Na série "Os camaradas" é recorrente (e quase onipresente) a mão espalmada com as veias abertas – escultura de Niemeyer que se encontra no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). Mais do que isso, o Niemeyer também assina essa sua série de gravuras. Por quê?

A série foi inspirada em fichas de desenhos que Oscar fez na parede dele e já desapareceram. Esse é o único meio de lembrar isso, incluindo o símbolo dos sem-terra junto com os dois membros da família com uma criança do lado e embaixo a fala "A terra é nossa". Essa foi a idéia do Oscar, de pôr esses desenhos que eu fiz em Jerusalém no tempo que eu estava lá em 1964. Ele me pediu para fazer um desenho da velha Jerusalém oriental, e eu fiz uma série. Daí ele lembrou e disse: "Leva essa série de Jerusalém e põe em cima dela esse monumento meu dos sem-terra, aí a gente vai entender que o monumento não só se justifica como sendo do movimento sem-terra, ele significa a mesma coisa no mundo inteiro". E, assim, a gente faz a conexão dessa famosa e brilhante luta da terra em paralelo com essa luta terrível. Olha o quanto ela custou ultimamente. Nessas últimas três semanas, são mais de 1,3 mil mortos na Palestina. É natural que a mão que se levanta protestando, do Oscar, no Memorial, vá se levantar contra qualquer crime contra a humanidade que vai se realizar.

Por que a escolha da gravura enquanto linguagem? Qual o papel em sua obra e em sua concepção da gravura e das técnicas possíveis de reprodução?

Gostamos desse meio de expressão, a gravura, porque ela simplifica a difusão de nossas idéias para todo mundo. Também há a possibilidade de fazer uma obra de arte que qualquer um possa receber. Nós não queremos que nossos trabalhos sejam enterrados dentro de um museu, dentro de galerias, porque somente pouca gente vai conseguir manter contato com eles. Queremos que tudo isso fique como um patrimônio do público inteiro. Como artista, decidi me dedicar a essas formas de expressão para manter esse contato com camadas sociais diferentes. Algumas camadas sociais querem esquecer certos eventos, mas nós queremos que eles sejam lembrados para sempre, como esse “Dia da Terra”, em Israel.

Fale um pouco sobre a atual ofensiva do governo de Jerusalém contra Gaza.

Junto com seu aliado George W. Bush e os governos europeus que aceitaram considerar o Hamas como uma organização terrorista e através de provocações mútuas, conseguiram criar áreas de conflito e Israel aproveita seu exército armado, com armamento do mais sofisticado do mundo, contra um milhão e meio de palestinos que se encontram em uma panela de pressão, num espaço que não passa de 30 quilômetros quadrados. Jogam bombas de fósforo branco e mísseis, atacam de navios do mar e os palestinos têm somente mísseis primitivos, de fabricação caseira, que quase sempre não atingem seu alvo – são arremessados para áreas abertas. Quiseram se adiantar à entrada de Barack Obama na Casa Branca e iniciar o massacre, que matou, na maior parte, cidadãos inocentes – até agora, foram mortos 45 guerrilheiros do Hamas, na sua maioria refugiados das guerras de 1948 e 1967, que fugiram ou foram retirados de suas terras e, já há algumas gerações, vivem uma vida de cachorro em habitações precárias, muito piores do que as favelas que conhecemos.

Os Camaradas: campanha de solidariedade ao MST

Ao longo destes 25 anos de existência, o MST sempre contou com a solidariedade de milhares de homens e mulheres que acreditam na luta pela Reforma Agrária e pela transformação social.

Há alguns anos, o artista plástico Gershon Knispel se propôs a fazer uma coleção de gravuras, mesclando a saga da luta dos povos, desenhos de Oscar Niemeyer e a luta pela Reforma Agrária. Simbolicamente, em nosso aniversário, nos presenteou com uma série de 20 gravuras como parte de sua contribuição ao MST.

A partir deste gesto tão grandioso, estamos desenvolvendo uma Campanha de Solidariedade ao MST, que tem como objetivo angariar fundos para nossa organização, com a venda de uma coleção com 10 reproduções dessas gravuras.

Contamos mais uma vez com o apoio e solidariedade de todos os amigos, amigas do MST e admiradores de belas obras de arte, em mais esta campanha que certamente nos ajudará a seguir realizando nossas atividades em várias frentes, especialmente nos campos da educação, formação e cultura.

O AUTOR

Gershon Knispel, radicado no Brasil, nasceu em Koln, na Alemanha, em 1932. Aos três anos de idade foi com os pais para a Palestina, fugindo do nazismo. É artista plástico, comunista e militante da luta contra a ocupação da Palestina pelo exército de Israel. Já expôs suas obras em importantes museus da Rússia, Alemanha, Israel, Brasil e outros países. Recebeu prêmios na Alemanha e em Cuba. Gershon Knispel também é articulista da revista Caros Amigos.

Para saber como adquirir a coleção, entre em contato conosco por meio do endereço eletrônico oscamaradas@mst.org.br, ou pelo telefone (11) 2131-0800.