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Abertura da festa com ato ecumênico no Assentamento


Por Antonio Kanova
Da Página do MST
Fotos: Cristian Weinzirl

 

Neste último sábado (22), o Assentamento Contestado, localizado na Lapa, no Paraná, realizou a festa de comemoração dos seus 20 anos. A atividade, aberta para visitantes e apoiadores, contou com aproximadamente 1000 pessoas que puderam comemorar a festa, assistir a apresentações culturais e apreciar a famosa Costela assada fogo de chão, ao todo assados 800 quilos de carne. 
 

A abertura da festa teve um ato ecumênico, com pastores, diáconos, representantes de terreiro que deram a benção coletiva, abençoando as mãos dos camponeses que cultivam a terra, produzindo o alimento que chega até a mesa do povo brasileiros.  
 

Era domingo, 07 de fevereiro de 1999, quando 40 famílias ocuparam a área pertencente a cerâmica Incepa.  A memória de quem esteve na ocupação daquele ano relembra a história. “Aqui era uma terra arrendada. Quando ocupamos a área só tinha milho, soja e madeira”, afirmou Nei Orzekovski, assentado. 
 

Naquele período, o Paraná era governado pelo Jaime Lerner, tempos de repressão contra o MST. No entanto, as famílias não viam a repressão como uma forma de desistir do sonho de ter um pedaço de terra para sobreviver.  
 

Passados 20 anos, muita coisa mudou para as famílias. “Morávamos em barraco de madeira. Hoje vivemos com dignidade, temos trabalho, casa, renda, vivemos vem”, afirma Orzekovski.
 

No assentamento, às famílias contam com posto de saúde com atendimento médico e dentário, escola do ensino fundamental ao superior, além de área de lazer, campo de futebol e o recém inaugurado o Centro Cultural Casarão. 
 

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Inauguração do Centro Cultural Casarão.

“Este é o momento que conseguimos mostrar o que construímos durante 20 anos, mostrando nossa produção, as conquistas, nossas crianças fazendo apresentação, a inauguração de um centro cultura. Tudo isso é o assentamento, fruto do seus 20 anos”, enfatizou Amandha Felix, assentada.  
 

Dos 2.259,6 hectares de terra agricultável o assentamento produz cerca de 4 toneladas de alimentos, são 50 famílias com certificação agroecológicas, organizadas através da cooperativa Terra Livre. Essa produção é comercializada através de feiras, sacolão, PAA (programa de Aquisição de Alimentos) PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). 
 

O evento anualmente realizado pela Escola Estadual e Municipal do Campo Contestado, em homenagem aos agricultores. As crianças da escola do assentamento realizaram a apresentação Cordel Encenado, contando a história da cidade da Lapa. 
 

Casarão
 

Durante a festa dos 20 anos do assentamento, no sábado 22, aconteceu a inauguração do Centro Cultura Casarão. É primeiro espaço cultural dentro de um assentamento de reforma agrária, na região Sul do Brasil. 
 

“A cultura e a arte sempre tiveram presente no MST, junto com a luta pela terra, por direito a produzir”, ressaltou Sylviane Guilherme, do Coletivo Nacional de Cultura do MST. 
 

O Centro Cultural Casarão carrega em si uma carga genética de resistência. Antes de se tornar um espaço de cultura, ali era a Casa Grande, no período colonial. No fundo da casa ainda é possível encontrar a Senzala dos negros que ali trabalharam. “Aqui vai ter arte e cultura resistindo como nossos ancestrais resistiram. Fazendo arte a partir da dor, da alegria, da tristeza”, afirmou Guilherme.
 

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Na cerimônia de inauguração, teve apresentação de Grupo Mandicueira Fandango Caiçara e exposição fotográfica da fotografa Izabelle Neri Vicentini, com o tema: Olhar ancestral: memoria e cultura quilombola, retratando as mulheres quilombolas do município da Lapa.
 

O centro cultural tem realizado atividades desde julho de 2018, já aconteceu a I Escola de Arte do MST da Região Sul, além disso tem realizado diversas atividades, como exibição de filmes com filmes nacionais e latinoamericanos, apresentações teatrais, shows musicais, entre outras. As atividades acontecem durante a semana e são abertas ao público em geral.
 

Histórico da área
 

Em fevereiro de 1999, no período de repressão do Governo Jaime Lerner, 40 famílias ocuparam a área que pertencia a Incepa. A empresa de Cerâmica continha dívidas trabalhista com a União e como forma de abater a dívida com o Estado a área foi destinada para a reforma agrária.
 

No período monárquico, essas terras foram pertencentes ao Barão dos Campos Gerais, que além de ser um grande proprietário de terras da região matinha negros escravizados nas suas terras. Na antiga casa do barão e sua família, será inaugurado o Centro Cultural Casarão, espaço dentro do assentamento destinado ao âmbito cultura.
 

O assentamento tornou-se oposto do histórico da área. Hoje é caracterizado pela sua diversidade. Além da produção agroecologia traço marcante do assentamento é possível ainda ter acesso a saúde popular com tratamentos homeopáticos, benzedeiras, escolas que atendem as crianças até o nível superior e o centro cultural com diversas atividades culturais e artísticas.