coutinho.png
Eduardo Coutinho, importante expoente do cinema brasileiro. Foto: Guillermo Giansanti/Divulgação


Por Marco Escrivão
Da Página do MST


“Só se pode subverter o real, no cinema ou alhures, se aceita, antes, todo o existente, pelo simples fato de existir” - Eduardo Coutinho
 

Com a sensação de que o Brasil desmorona, chega o dia 19 de junho de 2019 e com ele o dever de lembrar o dia do cinema nacional. A data remonta os primeiros registros cinematográficos em terras brasileiras realizados na baía de Guanabara pelo italiano Afonso Segreto, o que de passagem confirma a perspicaz formulação de Paulo Emílio Salles Gomes: “não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de uma cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é”. Eis o cinema nacional já na sua origem. 


E nesta toada subdesenvolvida, fomos forjando um cinema que para uns deveria se industrializar, enquanto para outros deveria buscar refletir pensamento, simbologias e memórias. Assim, seu fazimento era, e ainda é, a materialização da nossa condição como país. A indústria cinematográfica segue na esteira de um devaneio que beira o oportunismo entre cosméticas exportantes. No entanto, no bojo da nossa história despontam obras que formulam ideias, buscam formas estéticas para simbolizar essa panaceia Brasil, criam e sedimentam memórias. Em suma, existem e resistem mesmo na nossa eterna condição de colônia. 


E neste campo, são diversos cineastas que fazem da narrativa, do olhar e da montagem armas contra o senil projeto histórico de conservação da ignorância, o apagamento da memória e a subserviência cega à modelos estrangeiros. Destaco Eduardo Coutinho, documentarista que batiza a  Brigada de Audiovisual do MST, como um representante assíduo desta linhagem. Com seu clássico “Cabra Marcado Para Morrer”, de 1984, Coutinho rompeu paradigmas do cinema nacional de sua época, colocando em movimento as possibilidades estéticas e ampliando as fronteiras da percepção do documentário nacional. Mais que isso, Coutinho construía a história do Brasil no momento em que filmava. Com sua câmera tirou a líder camponesa Elizabeth Teixeira da clandestinidade imposta pela ditadura civil-militar brasileira. Neste filme, também imortalizou a memória de João Pedro Teixeira, João Alfredo Dias, João Virgílio e outros camponeses, além das próprias Ligas Camponesas. 


Para além de Cabra marcado, Coutinho desenvolveu uma forma documentária muito própria, transitando por diversos temas que permeiam uma leitura da sociedade brasileira, fazendo da aproximação com o outro, sua maneira de contar os cotidianos do país. Seja nas lutas camponesas, na voz de um coronel do sertão, em um lixão a céu aberto, em um morro do Rio de Janeiro, com sindicalistas das greves dos anos 1980 ou em conversas com adolescentes de ensino médio, Coutinho, sempre aberto ao encontro sem buscar confirmar teses, foi revelando identidades, culturas, lutas e memórias nacionais, forjando assim um caminho de cinema genuíno que não busca a cópia alienante.


E por esses caminhos voltamos à 2019, no dia do cinema nacional, em um momento histórico em que o Estado brasileiro põe em marcha uma guerra cultural conservadora. Em nossa condição eterna de colônia, o Estado só pode conservar a estrutura de concentração de riquezas. E é aqui, hoje, que o cinema deve continuar enfrentando essa realidade, adubando sonhos e utopias, alimentado pela memória de lutas e de mestres. Coutinho, na atenção de seus olhos e ouvidos e na relutância aos modelos prontos, é inspiração justa acolhida pela BAEC ( Brigada de Audiovisual do MST Eduardo Coutinho), pois seus filmes subvertiam a existência. Aos novos cineastas que empunham câmeras, cabe a responsabilidade de produzir um cinema combativo, criativo, pensante e pulsante exatamente neste país que desmorona, existindo pela necessidade de criação e um desejo eterno de incomodar.


*Editado por Fernanda Alcântara