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Por Gerson Oliveira
Da Página do MST


Afonso Henriques de Lima Barreto é o primeiro grande escritor negro formado após a falsa abolição do 13 de maio de 1888. Nasceu neste mesmo dia, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, sete anos antes da data que foi institucionalizada como o “fim da escravatura”. Ele entraria para a história como um dos grandes nomes da nossa literatura, ainda que para isso tenha enfrentado resistências por parte da academia e passado longos anos no total esquecimento.


De acordo com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que publicou recentemente uma densa e completa biografia sobre a vida e obra de Lima Barreto, ambiguidade é uma palavra que define bem o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Esta característica fica evidente em seus personagens, nos quais a contradição do momento histórico do autor se expressa em comportamento e ações de Quaresma, Izaias Caminha, Clara dos Anjos, etc.


Lima Barreto mantinha uma crítica contundente ao militarismo e o trabalho no Ministério da Guerra, denunciava o feminicídio com crítica à postura das feministas da época que, para ele, não se importavam com as mulheres trabalhadoras. Denunciava ainda o preconceito e a discriminação racial em decorrência de sua própria cor e origem periférica. Barreto tinha avós que haviam sido escravizados.


Os documentos comprovando sua ascendência africana  foram queimados entre os muitos que continham os dados e registros do regime escravista brasileiro,
Barbosa, então Ministro da Fazenda, em 19 de dezembro de 1890;.  Também houve na época a tentativa de branqueamento da sociedade através da política imigratória, a partir do ideário de nação projetado no início do século XX, no qual não havia espaço para os negros africanos e seus descendentes.


A vida de Lima Barreto ficou mais difícil com a perda da mãe, aos 35 anos de idade, vítima da tuberculose. A situação foi acentuada pelas aflições do pai João Henriques, um tipógrafo monarquista que se viu obrigado a deixar o cargo na Imprensa Nacional devido às perseguições sofridas pelos republicanos. Por intermédio do Visconde de Ouro Preto, uma espécie de “padrinho” da família, João Henrique consegue um novo emprego de administrador da colônia de “alienados mentais”, o manicômio da época, na Ilha do Governador, para onde se muda a família.


Neste momento, Lima Barreto vivia bons momentos de sua infância, dividindo o tempo entre a vida pacata da Ilha e a agitação do centro do Rio, ambiente que passou a frequentar quando se matriculou no Colégio Dom Pedro II. Terminado os estudos secundários, Barreto ingressa no curso de Engenharia na Escola Politécnica e passa a “sentir na pele” as diferenças de classe imbricada à sua condição racial confrontada com os estudantes do colégio de maioria brancos, abastados e com os pomposos sobrenomes da elite oligárquica, contra a qual ele passaria reservar lugar em suas críticas manifestas em crônicas, contos, artigos de jornal, revistas e romances.


Lima Barreto frequentou a escola entre os anos de 1897 e 1903 quando interrompe os estudos para cuidar da família e do pai já doente, ele passa a trabalhar como escriturário no prédio do Ministério da Guerra. Depois de algumas internações no hospício da Praia Vermelha, Lima se desliga do emprego para tratamento de saúde e caminha para seu "triste fim". A convite do médico Ranulfo Prata, seu admirador, faz uma curta passada por Mirassol, cidade do interior do estado de São Paulo, onde morou por cerca de 40 dias na esperança de fazer um tratamento, afastado do álcool, da boemia e agitação da capital carioca.


Apesar de possuir apenas 40 anos em 1921, aparentava ser muito mais velho, com a fisionomia debilitada. Empobrecido, sem o reconhecimento esperado em sua carreira e profundamente desiludido, se entrega à depressão e ao álcool, vindo a falecer dia 1° de novembro de 1922. No mesmo do surgimento do movimento modernista em São Paulo (do qual ele seria lembrado como antecessor), e no Dia de Todos os Santos, no Rio de Janeiro.


O significado de Lima Barreto para nossa literatura


Para Carlos Nelson Coutinho (2011), Lima Barreto é nosso grande romancista popular, muito maior do que os elogios que o restringem a notável “cronista do mundo urbano carioca” ou que as alegações de pretensas debilidades formais na literatura do romancista. Não são poucos os que afirmam que o caráter crítico da obra de Lima seria somente decorrência dos “ressentimentos de um derrotado”, “amarguras de um homem de cor” ou ainda, “desequilíbrios de um alcoólatra”. Para Coutinho, existe uma evidente e inequívoca crítica por parte de quem alega essas frases, cultivadores do esteticismo só podem reagir diante da obra de Lima Barreto com o silencio ou a mistificação.


Lima construiu uma trajetória literária profundamente engajada na denúncia das mazelas sociais da época, da situação do povo negro no pós-abolição e da permanência do racismo, da burocracia e ineficiência do Estado e do sistema político elitista corrompido pelo poder das oligarquias na primeira república. A falsa abolição não somente desapontou as esperanças dos negros e mestiços por “dias melhores”, mas também a intensificou a desigualdade.


Ao invés de abrir caminho para pavimentar a democracia econômica e social, a República consolidou os desmandos dos oligarcas do campo. Assentados sobre o tripé de uma burocracia alienada, de um militarismo estreito e de uma imprensa impotente e facilmente comprável, a República, nas palavras do próprio Lima  Barreto, foi “uma rematada tolice”. Ele pontuou: “No fundo, o que se deu em 15 de novembro foi a queda do partido liberal e a subida do conservador, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados”, (Lima Barreto, 1956).


Com esta radicalidade de colocar em relevo as contradições do tecido social, oferecendo um olhar mais realístico do Brasil, o romance de Lima Barreto cumpriu, como defende Alfredo Bosi (1982), “o papel histórico de mover as águas estagnadas da belle époque, revelando, antes dos modernistas, as tensões que sofria a vida nacional”.

 
Além de um instrumento de documentação histórica, política e social, segundo dizia o próprio autor, Lima Barreto fazia da práxis literária uma literatura militante, se envolvendo por dentro dos problemas sociais e tomando posições de classe, contra a propriedade privada da terra e em busca do bem comum.


Foi com este espírito que o autor saudou entusiasmadamente o triunfo da gloriosa Revolução Russa de 1917. Enquanto a elite intelectual da época deslegitimava o grande feito, Lima fez uma altiva e comprometida defesa pública da revolução, a desejando também para o Brasil. Em um artigo exaltando as qualidades da revolucionária Vera Zazulitch, publicado no periódico carioca Brás Cubas em 14 de julho de 1918, escreveu: “Não posso negar a grande simpatia que me merece um tal movimento; não posso esconder o desejo que tenho de ver um semelhante aqui, de modo a acabar com essa chusma de tiranos burgueses, acocorados covardemente por detrás da Lei, para nos matarem de fome”.


Para além do triste fim


Em O Triste fim de Policarpo Quaresma, tida como a obra maior de Lima, está concentrada de forma caricata, irônica e inteligente uma crítica a condição de país dependente, sob uma República capenga, que não quer enfrentar os graves problemas estruturais. A obra evidencia um intrigante combate ao nacionalismo ufanista vigente e a defesa do militarismo salvador da pátria, encarnado na figura do Marechal Floriano Peixoto, ícone político entronizado pela classe média em busca de ascensão e elites nacionais na defesa de seus interesses econômicos.


Barreto desmascara nesta obra a imagem equivocada e idealizada que o Brasil fazia de si mesmo, sem correspondência com a realidade concreta. Expõe as fragilidades para a produção no campo, a bajulação ao europeu, negação da presença do negro e indígena como base da nossa formação e ao mesmo tempo a fragilidade do próprio ideário de nação construído.


Em Policarpo Quaresma, major reformado do exército, Lima projetou um autentico nacionalista, defensor de um patriotismo ingênuo, abstrato, que lutou até ficar louco pelo insucesso em restabelecer aquilo que considerava os verdadeiros ideais e o mais legítimo da tradição brasileira. Depois de construir uma solitária e errante trajetória, termina no abismo do isolamento, incompreendido, marginalizado e enclausurado como louco e traidor, sem companhia de seus entes próximos, sem qualquer outro amor que não aquele que dedicou à pátria que sempre idealizou.


Lima Barreto mostrou como é fundamental para efetivação da democracia o pensar diferente, o livre exercício da crítica, da defesa de opiniões, ideias e de instituições não corrompidas pela ganância de uma minoria contrária aos interesses do povo. Para encerrar, retomo as palavras de Carlos Nelson Coutinho, que brilhantemente sintetiza a contribuição de Lima: “[...] apesar das trágicas contradições que ainda dilaceram a sociedade, Lima nos ensina a confiar nos recursos de que a humanidade dispõe para superar essas contradições”.  (COUTINHO, 2011)

 

Editado por Fernanda Alcântara